Editoriais

Tem sido uma forma de reestruturação da dívida

Há cinco anos a reestruturação da dívida pública estava no centro do debate político. Para além do PCP e do BE, vários movimentos da sociedade civil faziam daquela a sua bandeira. Em Março de 2014, um manifesto assinado por sete dezenas de pessoas de diferentes áreas políticas (entre os quais eu me incluo) defendia a necessidade de reestruturação da dívida pública portuguesa, como condição para a retoma do crescimento e do emprego. Hoje quase não se ouve falar no tema. Não é que a reivindicação fosse errada. É que a reestruturação da dívida tem vindo mesmo a acontecer. No ano anterior, em 2013, o Estado português tinha pago sete mil milhões de euros de juros, equivalente a 4,4% do PIB. A expectativa que existia então era de que o peso dos juros na economia portuguesa continuaria a aumentar nos anos seguintes.

Ricardo Paes Mamede

Pagamos aos nossos filhos para estudarem?

Estamos na recta final do ano lectivo e ouvem-se crianças e adolescentes a fazerem contas à vida, que é como quem diz, a tentarem perceber quanto dinheiro irão receber pelas notas da escola. Isso mesmo. No primeiro ciclo, os Muito Bons valem 10 euros, os Bons valem 5 e os Suficientes apenas 3 euros. Os valores sobem no segundo ciclo, havendo miúdos a receber 30 euros por cada disciplina a que tenham um 4 ou 5. No secundário, a subida é exponencial. Ora bem, o que pagam então os pais aos filhos universitários? Esta é uma realidade mais generalizada do [...]

DN Life

Deus sem mundo, mundo sem Deus

1. Segundo um estudo da Universidade de St. Mary, Londres (2014-2016), em 12 países europeus, a maioria dos jovens entre os 16 e os 29 anos admitem que não são crentes e que nunca ou quase nunca vão à igreja ou rezam. A República Checa é o país menos religioso da Europa: 91% dos jovens confessam não ter qualquer filiação religiosa. Seguem-se a Estónia, a Suécia, os Países Baixos, onde essa percentagem dos sem religião fica entre os 70% e os 80%. Também noutros países se nota a queda rápida da religião: na França, são 64% a admitir não serem crentes, na Espanha, 55% declaram que não confessam qualquer religião. Perante estes dados, o responsável pelo estudo, Stephen Bullivant, afirmou que "a religião está moribunda" na Europa.

Anselmo Borges

O populismo identitário

O tema da coincidência entre Nação-Estado foi intencionalmente considerado um princípio da organização mundial quando o presidente Wilson conseguiu a sua inclusão no estatuto da Sociedade das Nações (SdN), no fim da guerra de 1914-1918, organismo em que depois os EUA decidiram não entrar. Acontece que nação é um termo que, exprimindo de regra, em primeiro lugar, uma definição cultural (costumes, tradições, valores), tem vocação para possuir um território e uma soberania, mas o princípio da SdN não impediu a existência, hoje extinta, da unidade checoslovaca, nem que, atualmente, o Brexit advirta que um eventual problema futuro para o Reino Unido está no facto de não ser um Estado-Nação, e identidades políticas, provavelmente duas ou mais nações, suas componentes, são europeístas.

Adriano Moreira

Legalização do lobbying

PremiumNo dia 7 de junho foi aprovada, na Assembleia da República, a legalização do lobbying. Esta regulamentação possibilitará a participação dos cidadãos e das empresas nos processos de formação das decisões públicas, algo fundamental num Estado de direito democrático. Além dos efeitos práticos que terá o controlo desta atividade, a aprovação desta lei traz uma mensagem muito importante para a sociedade: a de que também a classe política está empenhada em aumentar a transparência e em restaurar a confiança dos cidadãos no poder político.

Margarida Balseiro Lopes

Erros de um sonhador

PremiumNão é um espetáculo bonito ver Vítor Constâncio contagiado pela amnésia que tem vitimado quase todos os responsáveis da banca portuguesa, chamados a prestar declarações no Parlamento. Contudo, parece-me injusto remeter aquele que foi governador do Banco de Portugal (BdP) nos anos críticos de 2000-2010 para o estatuto de cúmplice de Berardo e instrumento da maior teia de corrupção da história portuguesa, que a justiça tenta, arduamente, deslindar.

Viriato Soromenho-Marques

Por que não votam os açorianos?

Nesta semana, os portugueses, a ciência política em geral, e até o mundo no global, foram presenteados com duas ideias revolucionárias. A primeira, da lavra de Rui Rio, foi a de que o número de deputados do Parlamento fosse móvel tendo em conta os votos brancos e nulos. Mais brancos e nulos, menos deputados, uma versão estica-encolhe do método de Hondt. É a mesma ideia dos lugares vazios para brancos e nulos, que alguns populistas defendem para a abstenção. Mas são lugares vazios na mesma, medida em que, vingando a ideia, havia menos pessoas na sala, a não ser que se fizesse no hemiciclo o que se está a fazer com as cadeiras dos comboios da ponte, ou então que nestes anos com mais brancos e nulos, portanto menos deputados, se passasse a reunir na sala do Senado, que é mais pequenina, mais maneirinha. A ideia é absurda. Mas a esquerda não quis ficar para trás neste concurso de ideias eleitorais e, pela voz do presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, chega-nos a ideia de incentivar votos com dinheiro.

João Taborda da Gama

Haja saúde

PremiumA saúde tem sido, é e será considerada um dos bens mais valiosos de todos. De uma forma simples: quem, ao sofrer infortúnios, reveses ou azares, nunca se reconfortou com o velho "pelo menos que haja saúde"? Em termos civilizacionais, a saúde é um conceito-chave intimamente ligado ao conceito de felicidade e o acesso aos cuidados de saúde é inclusivamente indicador da sustentabilidade democrática de uma sociedade. A democracia portuguesa, na esteira do 25 de Abril, tem sabido corresponder a essa prioridade coletiva que a criação do Serviço Nacional de Saúde (SNS), de matriz ideológica universal, espelhou.

Maria Antónia Almeida Santos

Dêem-nos alguma coisa para problematizar

Premium"Bernardo Silva e Gonçalo Guedes", começou o narrador da peça do telejornal, no seu percurso inexorável para a conclusão da frase, "desenharam no relvado... um novo Dia de Portugal". Impulsionados pela conquista da véspera, que adicionou mais um troféu ao nosso palmarés patriótico, Portugal e a RTP chegaram ao 10 de Junho com disposições opostas, mas complementares: o país com imensa vontade de significar, e a estação pública com imensa vontade de interpretar o significado.

Rogério Casanova

Renovar a Europa

PremiumEsta Europa diz querer-se autónoma e unida. Depois de ter falhado a união por via de políticas que servissem efetivamente as suas populações, as lideranças europeias passaram a buscá-la noutras miragens. Trump foi eleito presidente nos Estados Unidos e não foi preciso muito tempo para se "encontrar" esse desígnio: o melhor remédio para unir-nos seria o de reforçar uma alternativa à NATO. Como? Trabalhando para um exército comum. Foi com determinação que, no plenário de Estrasburgo, a chanceler Angela Merkel o pronunciou com todas as letras. Foi também com pompa e circunstância que Emmanuel Macron se fez ouvir defendendo a ideia de um exército europeu como forma de redução da dependência dos Estados Unidos na defesa.

Marisa Matias

Gregor Samsa

Quando, muito novo, li A Metamorfose, percebi que o meu mundo tinha mudado para sempre, como costuma suceder quando alguém nos morre. Foi uma perceção intuitiva, que só mais tarde encontrou palavra e gesto para se cristalizar, mas foi avassaladora, física. Pela primeira vez, depois de ter lido dezenas de livros que ia apanhando ou me iam recomendando, senti que um livro, um enredo, poderia não ser um objeto, um exterior que posso tocar ou afastar, sempre do ponto de vista de quem comenta, mas antes um desconcerto, um arrepio, que se apodera de nós, que não nos permite a confortável condição de observador.

Adolfo Mesquita Nunes

Jornal americano proíbe o manguito do Zé Povinho

Vamos pôr a coisa nestes termos: havia a ideia de que se delineava um esboço para perda de liberdades. Não só em Portugal, mas por todas essas sociedades democráticas que, apesar de tudo, são melhores do que as outras. Um esboço do fim do direito à presunção de inocência, não ainda nos tribunais mas na prática comum da insídia em muito sítio: se parece ser culpado, e der jeito a alguns, é-se culpado. Um esboço do fim da palavra de um cidadão valer o mesmo do que a palavra de outro: se, na convicção firme da opinião pública, uma das partes estiver ao arrepio de uma causa na moda, o que ela diz vale menos... Estávamos perigosamente assim, no esboço.

Ferreira Fernandes

"Os TSDT(s) para lá de Hipócrates e de Florence Nigthingale"

A história da saúde ficará marcada no século XX e seguintes pelo aparecimento de novos atores, "os outros", que não acreditam na canonização de médicos e enfermeiros. O século XIX e XX tornam a saúde interdisciplinar e não apenas da disciplina médica ou de enfermagem. Os TSDT são a revolução. E essa é uma revolução que por variadas razões se fez sem grande alarido, silenciosa, dolorosa, com gritos de socorro tantas vezes abafados. Deixo exemplos recentes: uma greve por tempo indeterminado que a comunicação social silenciou, tornou invisível o enorme esforço humano e financeiro de um grupo profissional; o número de exames e terapêuticas adiados que ninguém noticiou; as "n" manifestações com números de adesão que fariam inveja a qualquer grupo, mas completamente ignorados dos telejornais em horário nobre; da impreparação da comunicação social sobre o que fazem estes profissionais, do seu peso na saúde de todos os portugueses, desde que nascem e durante toda a sua vida.

Maria Rocha