Eclipse à esquerda favorece Costa

Há cinco anos, contra Marcelo Rebelo de Sousa, a esquerda teve mais de 40% dos votos e a direita ganhou à primeira volta. Desta vez, Marcelo foi o candidato do bloco central e a esquerda que entendeu ir a votos ficou-se pela metade. PCP e Bloco quiseram marcar terreno e o tiro saiu pela culatra. A agravar o erro estratégico de comunistas e bloquistas, a consolidação da extrema-direita reduz-lhes a quase nada o espaço de manobra para afirmar opções políticas que possam pôr em causa a estabilidade política. Uma maioria de direita já não é impossível e será tão mais provável quanto mais a esquerda se mostrar dividida.

O PS foi o único partido com assento parlamentar que não apoiou oficialmente nenhum candidato, mas é aquele que tira maior proveito destas presidenciais. É um proveito para curto prazo, mas que claramente aumenta a hipótese de o governo socialista conseguir levar a legislatura até ao fim. É uma ironia que quem menos fez para valorizar esta eleição seja quem mais ganha, porque aprisiona os seus parceiros da esquerda.

António Costa não se fortalece politicamente apenas com a fragilidade dos que estão "obrigados" a dar-lhe a maioria no parlamento. A reconfiguração da direita, com o crescimento ligeiro mas consistente dos liberais e, sobretudo, com o salto à vara de André Ventura, condiciona fortemente a estratégia do maior partido da oposição. Rui Rio, que quis afirmar o PSD ao centro, procurando benefícios pelo facto de o PS estar fortemente ancorado à esquerda, acabou por ficar refém dos resultados do Chega e admitiu até que um bom resultado de Ventura seria mau para os sociais-democratas. Ele aí está!

O líder do PSD afirmou de forma persistente a ideia de que o poder se conquista ao centro e não vacilou mesmo depois de perder as legislativas de 2019, o que o fez ziguezaguear foi a afirmação consistente da extrema-direita que ajudou a normalizar ao admitir para o país um acordo como o que foi aceite nos Açores. O protagonismo de Ventura é crescente e este resultado conseguido ontem torna-o ainda mais "interessante" para a comunicação social que confunde muitas vezes informação com entretenimento, valorizando a polémica e o espetáculo.

Sobra o resultado de Ana Gomes, a candidata que procurou afirmar uma opção socialista e cuja votação conseguida ontem é uma vitória pessoal que faz dela uma referência na ala esquerda do PS e a valoriza como comentadora da SIC-Notícias. Desde ontem, Ana Gomes é a mulher que conseguiu a maior percentagem numa eleição presidencial.
Vitorino Silva voltou a ser o verdadeiro candidato do povo e repetiu uma votação muito honrosa.

O Presidente reeleito mantém todo o seu capital político, mas as dificuldades que acrescem para quem tem de governar acrescem igualmente para o Chefe de Estado. A política será feita na corda bamba e se à esquerda ninguém se vai mexer muito para o governo não cair, uma direita em que cresce o protagonismo de um populista vai pedir um Presidente da República mais equidistante, mas com capacidade de ajudar a criar condições de estabilidade.

António Costa não fez nada para o merecer, mas todos os democratas estão convocados para evitar juntar uma crise política à crise sanitária e económica, num momento em que o destaque da política portuguesa - não vale a pena enterrar a cabeça na areia - é o crescimento exponencial da extrema-direita racista e xenófoba.

Jornalista

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