Dos quereres ou não vou morrer tão cedo  

"Não fala, não oculta, mas significa". Não é uma frase sobre arte, nem sobre Caetano e seu aniversário de 80 anos, mas poderia definir ambos.

A frase é de Heráclito, uma das traduções possíveis, há outra mais rebuscada "o senhor, de quem é oráculo em Delfos, nem diz nem oculta, mas dá sinais". Um oráculo, uma esfinge, um mistério, algo sempre é dito para além dos ditos, ou ditados morais ou da ditadura.

Caetano dava sinais bem ditos em tempos mal ditos. E ele, todinho ele, significava, fosse cantando, escrevendo ou fazendo cinema. Lançou o livro Verdades Tropicais (1997) sobre a cultura brasileira e o tropicalismo a partir das suas próprias memórias e fez o filme Cinema Falado (1986). Mas não brincou sozinho, ninguém se constrói sozinho.

Filho de Dona Canô e do Zé, um servidor público dos correios e telégrafos, aluno de Walter Smetak e do maestro Koellreutter, colega de Gil, de Gal e Tom Zé, irmão de Bethânia; o menino andrógeno era uma malta e talvez por isso conseguiu compor e cantar em plena ditadura Alegria Alegria (1967), É proibido Proibir (1968), Menino do Rio (1979), Rapte-me Camaleoa (1981) e nos fazer decorar com tanta facilidade a obviedade "quando a gente ama é claro que a gente cuida", de Elias Muniz e Luiz Carlos. E hoje canta com os filhos Moreno, Tom e Zeca. Ninguém se faz sozinho, mas se faz a partir de um desejo.

Ele usou e usa sem pudores as ferramentas todas da sua arte e quando não as tem disponíveis pega emprestado ou inventa. O álbum Araçá-Azul é prova disso. Costura absurdos ao som de um berimbau, faz ginga com a boca lembrando línguas tonais. E segue com sua língua solta a mostrar que a arte engana a morte.

Pois não seria a morte uma desistência? A desistência em encarar os paradoxos, os incómodos e as contradições, o imponderável e os dilemas da vida. Não seria a morte a insistência cansativa na manutenção de dicotomias de bem e mal, deles e nós, e a busca por controle? Não, não estou a propor anarquismos nem imoralidades. Estou a dizer que a vida nos provoca e nada é reto demais. Estou a relembrar os clássicos e ideias esquecidas como a de ser a justiça uma arte (jus est ars boni et aequi) que só existe nas relações, senão é dogma e morrerá cedo.

"...... onde queres descanso sou desejo, onde sou só desejo queres não, e onde não queres nada, nada falta. E onde voas bem alto eu sou o chão. E onde pisas no chão minha alma salta. E ganha liberdade na amplidão (...). E onde queres o sim e o não, talvez..."

A arte cantada por Caetano é essa ars prudentiae exatamente por ser uma poética do gingado de um berimbau, da batida do recôncavo, da miscelânea de sons de uma Bahia sincrética. Só na Bahia haverá uma missa cristã ao som de atabaques. Um berimbau joga com ré e dó e integra. E isso me lembra a proibição da nota "si" e do trítono pela Igreja Católica por serem sons demasiados alegres. O Kantele, uma espécie de harpa, é um instrumento ótimo para fazer meus filhos dormirem, exatamente porque não tem a nota "si". Eles adormecem facilmente.

E ele [Caetano] cantou e canta e driblou a ditadura e os tempos obscuros, mesmo numa democracia. Cantou e segue cantando para nos lembrar, tal qual Heraclito e a prudentiae aristotélica, que a arte mesmo quando cala significa, e faz mais curvas e espirais do que linhas reta.

Se algumas músicas nos põem para dormir outras nos acordam. Acordam nossos quereres e desejos. Às vezes o mal é uma alienação, um adormecimento em relação a si próprio, uma fantasia de belos e elogiosos sacrifícios de dever que acabam por nos fazer impor verdades aos outros e a nós mesmos. A banalidade do mal nada mais é do que um adormecimento e uma alienação da vontade, Hannah Arendt explicou isso bem e Caetano cantou: "... ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor...". Há algo mais doce e brutal do que assumir um querer e ceder a um desejo?

Os quereres conscientes e os desejos misteriosos nos atravessam fazendo fissuras numa espécie de "atrevissamento" (inventei o vocábulo: atrevimento com atravessamento) e nos acordam. Não é simples querer o querer. Quantas vezes rogamos a Deus não desejar nosso querer. Quanta moralidade nos assombra, quanta culpa nos perpassa. É preciso muito "atrevissamento" para não morrermos cedo demais. Quantas vezes a moral legitimou apedrejar mulheres, criminalizar casais de paleta de cores distintas, de credos distintos e de sexo igual?

"...onde queres o ato sou o espirito, e onde queres ternura eu sou tesão...(...) eu te quero e não queres como sou. Não te quero e não queres como és...".

Caetano cantou tudo. Na música Quereres parece cantar também a enigmática definição lacaniana sobre o amor: "dar o que não se tem para alguém que não o quer". O que temos a oferecer, afinal, senão nossas faltas, nossas contradições, cores e medos? Amamos e odiamos quando nos desencaixamos através de um outro. Por isso o estrangeiro, o imigrante, o de outra paleta, o de outro ritmo e gostos, o artista, nos incomoda tanto. Mesmo que nada fale ou oculte, a arte desvela algo adormecido ou na superfície da pele.

A arte nos fissura, o amor nos fissura e a prudência nos equilibra através da arte e do amor. Esse é o paradoxo. O veneno é o remédio a depender da dose. Como saber? Caetano canta:

"...eu queria querer-te e amar o amor. Construirmos dulcíssima prisão. E encontrar a mais justa adequação. Tudo métrica e rima e nunca dor. Mas a vida é real e de viés. E vê só que cilada o amor me armou..."

Não tem como saber sozinho tampouco sem risco, eis a angustia.

A luz precisa da fissura. Mas é preciso muita escuridão para que qualquer fiapo de luz apareça. A escuridão ama a luz e a luz da escuridão se enamora. Precisamos do gingado, dos opostos, da diferença. Disso que significa porque há uma relação, um espaço. A arte significa quando nos desloca. O artista é lugar de fazeres. Os seus ditos desvelam seus próprios desejos e faltas e vontades e por ser assim fala conosco.

O menino impossível de se definir num único conceito é, em si, uma totalidade de feitos e efeitos, humano, portanto. Tinha 40 e Paula Lavigne 13, hoje são avós e para ela dedicou Eu Não Me Arrependo, e Cê não me devia maldizer assim e Vi você crescer. E ele cantou e canta e driblou a ditadura e os tempos obscuros, mesmo numa democracia. Cantou e segue cantando para nos lembrar, tal qual Heraclito e a prudentiae aristotélica, que a arte mesmo quando cala significa, e faz mais curvas e espirais do que linhas reta.

Esse talento da arte em enganar a morte parece dizer que diante do novo, do imponderável da vida, do incontrolável, dos erros e da escuridão nossa de cada dia, do paradoxo do desejo, sem alguma ginga, nos restará ser violento ou quebrar ou morrer cedo demais.

Afinal... "faz-me querer-te bem, querer-te mal. Bem a ti, mal ao quereres assim, infinitivamente pessoal. E eu querendo querer-te sem ter fim. E querendo te aprender o total. Do querer que há e do que não há em mim"...

Afinal, querendo ou não, temos em nós todas as notas músicas, muitos tons, e podemos dançar vários ritmos. Oxalá, não se morra (vivo) cedo demais... ou sem si.

Psicanalista e escritora, doutora em ciências humanas

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