Dois pesos e duas medidas

A ideologia ocidental, a começar pela sua própria auto-nomeação, é intrinsecamente arrogante, padecendo, desde logo, de dois pecados insuportáveis: o critério de dois pesos e duas medidas e o seu complexo de superioridade moral. Por "ideologia ocidental" entendo a cosmovisão elaborada e difundida a partir do centro (as potências atualmente hegemónicas, lideradas pelos EUA), a qual é assumida por um amplo arco político nos países dominantes, não se notando grandes diferenças, sobretudo culturais, entre direita e esquerda; tal cosmovisão, entretanto, pode igualmente ser assumida pelas elites dominantes das nações subalternas, numa demonstração de cachiquismo (subserviência) típico.

Na coluna de hoje, abordarei o tema dos dois pesos e duas medidas, reservando para uma das próximas semanas o tópico do complexo de superioridade moral.

O tratamento do dito Ocidente, incluindo os seus governos, as suas elites, os seus intelectuais e os seus cidadãos em geral, salvo raras exceções, ao atual conflito na Ucrânia é um exemplo gritante e indesmentível do critério dos dois pesos e duas medidas usado para avaliar e reagir perante conflitos idênticos.

O primeiro sinal foi dado pela imprensa e pelos jornalistas. Com efeito, "e de repente, não mais que de repente", a situação da Ucrânia tornou-se o único assunto da mídia ocidental. A cobertura jornalística, além de partidarizada, tornou-se hiperbólica logo desde os primeiros dias. O sofrimento do povo ucraniano, real e merecedor de toda a solidariedade, foi adjetivado: "inimaginável". Mesmo? Como não "imaginar" o sofrimento de um povo, qualquer povo, em guerra? Tanta falta de "imaginação" é profissionalmente suspeita.

O contraste com a cobertura de outras guerras e conflitos é obsceno. Não, não me refiro a conflitos do passado, mas, sim, presentes, como aqueles que estão agora mesmo a acontecer no Yémen, na Etiópia, no Darfur ou em Jerusalém. A propósito de Jerusalém e da Palestina - onde há dias a jornalista Shireen Abu Akleh foi assassinada pelas tropas israelitas - faço minha a pergunta de uma amiga: - "Quem se atreve a rotular de "heroica" a resistência dos palestinos, depois de décadas - e não semanas - de luta?".

A verdade é que a guerra da Ucrânia pode ser considerada uma guerra tribal - mais uma, como a do Kosovo já o foi e outras poderão vir a sê-lo - na Europa, com menos consequências, por enquanto, do que o confinamento de Xangai e Beijing para o comércio mundial. Entretanto, a verdade é que essa guerra tribal europeia pode transformar-se numa guerra nuclear tática ou mesmo numa nova guerra mundial. Se isso acontecer, as mãos de muita gente ficarão manchadas de sangue, mas não podemos saber se o mundo estará aqui para apontá-lo.

Ao observar a cobertura jornalística ocidental da guerra na Ucrânia não posso deixar de lembrar-me dos manuais de jornalismo (ocidentais) onde estudei, assim como das teses dos seus principais teóricos acerca de questões como "liberdade", "objetividade", "isenção" e outros. De igual modo, o cancelamento de artistas e até de obras de autores russos há muito já falecidos, assim como a proibição da participação de desportistas russos em competições internacionais, sem esquecer, obviamente, a recente vitória da canção ucraniana no Festival da Eurovisão, tudo isso faz-me também evocar as "lições" da ideologia ocidental, segundo as quais arte, literatura e desporto não se devem misturar com política.

Seja como for, e como sei que os seres humanos são contraditórios, não me rio.


Escritor e jornalista angolano
Diretor da revista África 21

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