Democracia na época do instantâneo digital

A Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação (APDSI), uma instituição cívica que tem contribuído ao longo dos anos para o crescimento da cibernética em Portugal, organiza hoje, no Convento da Arrábida, uma reflexão sobre as democracias na era digital. Ou seja, um debate sobre o futuro do exercício do poder político face aos avanços extraordinariamente rápidos na área das tecnologias da informação, que irão aprofundar ainda mais a época do instantâneo, como chamo ao período que vivemos.

O acesso imediato à informação sem referência ao contexto, a abundância de dados disponíveis em cada momento, o verdadeiro em competição com o falso, os progressos na inteligência artificial, tudo isso acabará por pôr em causa a representação política tal como a temos conhecido. Poderá igualmente prejudicar seriamente a credibilidade das instituições da governação, da administração da justiça, da representação e da comunicação social, e criar novas oportunidades de manipulação da opinião cidadã.

Como sempre, será a questão do controlo do poder que estará em jogo. São apenas as tecnologias e os métodos de atingir esse fim que mudam. Há cerca de noventa anos, os extremistas mobilizaram as populações graças à utilização com grande habilidade da radiodifusão. Agora, trata-se do aproveitamento engenhoso das plataformas digitais e da repetição ad infinitum do que é conveniente para quem detém a autoridade ou quer chegar ao poder, independentemente da veracidade do que é contado. Cria-se assim uma realidade enviesada, que em política serve dois objetivos: a destruição da integridade e da imagem do adversário; e a consolidação do poder nas mãos de quem dele se apropriou. Essa apropriação, nas nossas democracias ocidentais, faz-se primeiro por via eleitoral e depois pela manipulação da informação e os jogos de espelhos. Viktor Orbán é um exemplo concreto, entre vários. Ele sabe que estar no poder e perder as eleições só deve acontecer aos ingénuos.

A acessibilidade das plataformas digitais torna-as um terreno fértil para a propagação das ideias populistas. Esses movimentos, construídos à volta de um líder que combina carisma, arrebatamento e culto da personalidade com slogans simplistas, têm à sua disposição, nesta era digital, os meios que lhes permitem explorar massivamente três linhas de ação política. Uma, que passa pela criação e amplificação dos medos coletivos que depois utilizam como bandeiras de luta. Outra, que consiste na descredibilização das instituições e dos adversários, que são demonizados como "políticos profissionais". E a terceira, que tenta subverter os princípios constitucionais pelo recurso aos referendos populares sobre temas fraturantes, com recurso a questões redutoras, redigidas de modo tendencioso.

Tudo isto põe em causa a democracia representativa. Mais facilmente ainda, quando a prática democrática passou a depender e a estar dominada pelo líder de cada grande partido e a representatividade parlamentar perdeu o seu significado, por resultar apenas da lealdade pessoal e da bajulação sem reservas. Não existe, então, qualquer ligação entre o deputado e o seu círculo eleitoral, numa altura em que as redes sociais promovem exatamente o contrário e tornam tudo mais pessoal e direto. Daqui resulta uma crescente desconexão entre o eleitor e o eleito, o que explicará uma boa parte da apatia que muitos cidadãos ressentem perante os processos eleitorais. Paradoxalmente, um maior nível de informação, possível por causa das redes digitais, leva muitos a abster-se, por não se identificarem com os menus prontos-a-votar das escolhas feitas pelos partidos.

Um outro fenómeno ligado à abundância de informação tem de ver com a fragmentação política. Através das redes sociais, cada pessoa tende a identificar-se apenas com um pequeno círculo que pensa do mesmo modo e acaba por se fechar nessa ronda de contactos. Isto leva à proliferação dos movimentos de opinião. No futuro, a governação terá de ter em conta essa tendência. Ou seja, deixará de ser possível governar eficazmente com 50% do eleitorado mais um. Surgirão, estou convencido, coligações mais amplas e relativamente díspares, mas necessárias para garantir a representatividade de vários segmentos da sociedade e a estabilidade governativa. A revolução digital acabará por abalar a cena política convencional.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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