Deixar a Britney em paz

2007 foi um ano especialmente produtivo no subgénero de fenómeno moderno conhecido nos tablóides de língua inglesa como celebrity meltdown. Como todas as categorias culturais inventadas, esta tem as suas regras e protocolos informais, os seus estatutos, o seu panteão, o seu bestiário de imagens representativas - e 2007 preenche muitos dos espaços no formulário: Amy Winehouse foi hospitalizada pela primeira vez; Paris Hilton e Kiefer Sutherland dormiram uns dias na prisão por conduzirem alcoolizados; Lindsay Lohan passou grande parte do ano a entrar e a sair de clínicas de reabilitação; Alec Baldwin insultou a filha de 11 anos num telefonema gravado; Pete Doherty foi expulso de casa por não pagar renda, e fotografado a intoxicar pinguins no jardim zoológico de Londres. Um ano atarefado, cujo mote fora dado em Fevereiro, quando Britney Spears invadiu um salão de cabeleireiro (numa cidade chamada Tarzana) e rapou o seu próprio cabelo enquanto câmaras a filmavam pela janela. Quando, dias depois, agrediu um paparazzo com um chapéu-de-chuva, o incidente pareceu quase um anticlímax.

Algum destes incidentes tem ou teve "piada"? A resposta é menos óbvia do que parece, e é, como são quase todas as respostas a perguntas semelhantes, puramente contextual. Não há muitas coisas mais bizarras na experiência humana do que a relação entre figuras públicas e o público. Quando uma figura pública ganha (merecidamente ou não) uma aura de "excentricidade", torna-se comum aplicar às suas peripécias um registo de entusiasmo hiperbólico performativo (que a internet não inventou, mas tornou mais comum), que vacila entre o semi-sarcasmo e a semi-sinceridade.
O que isto faz é transformá-las em caricaturas implícitas, sem que o gesto seja totalmente trocista, nem totalmente laudatório; e aquilo que lhes acontece nunca é totalmente cómico, nem totalmente trágico.

Framing Britney rebobina parte desse portfólio de imagens (a cabeça rapada, o guarda-chuva), ilustrando-o com excertos representativos da reacção pública na altura: referências jocosas de jornalistas, comediantes, apresentadores de talkshows, e até o excerto de um concurso televisivo em que os concorrentes são convidados a responder à pergunta "o que é que Britney perdeu?" As respostas "correctas" vão surgindo num painel luminoso - "o cabelo", "o marido", "o juízo" - acompanhadas por risos e palmas de um público que parece condicionado a reagir ao mero nome com imediata Schadenfreude.

O documentário, produzido pelo The New York Times e transmitido nesta semana pelo canal Odisseia, tem como ponto de partida o annus horribilis de Britney Spears, usando-o para enquadrar as consequências que ainda hoje perduram: a perda da tutela legal sobre a sua pessoa, os seus bens e a sua carreira. Esse enquadramento é feito predominantemente através do movimento Free Britney, uma associação online de fãs que procura - com uma mistura de activismo legal e abnegada composição de hashtags - reverter os termos dessa perda de tutela e devolver a Britney algum grau de autonomia.

Movido por aparentes boas intenções, o documentário não traz revelações novas, embora proponha uma espécie de argumento. À superfície, limita-se a recapitular cronologicamente uma carreira pop, e a oferecer mais uma variação sobre uma história comum, cujos temas (celebridade, exploração) são tão familiares como os passos narrativos que se esforça por salientar (ascensão, declínio, redenção). Todas as celebridades podem ser alinhadas numa continuidade entre a predestinação e a caricata sucessão de circunstâncias, mas todas as histórias de síntese cultural acabam por relegar a estranheza do material para segundo plano, impondo-lhe uma organização retrospectiva que não existia originalmente. Nenhuma pessoa que aos 16 anos movimenta milhões de dólares poderia ter a) uma vida "normal", ou b) o tipo de autonomia que o documentário lhe atribui.

Framing Britney multiplica este efeito de distorção com inúmeras passagens languidamente embrulhadas no registo da sociologia de bolso, indexando tudo a vaporosas abstracções (sobre a "cultura", sobre os "media", sobre a "década X" ou a "década Y"). A preocupação central parece ser a de averiguar se, perante a saga de Britney Spears, nos devemos sentir todos culpados ou exonerados. E se, a espaços, o exercício parece autoflagelante, convém lembrar que este tipo de autoflagelação é apenas outra maneira de recentrar o assunto: o que é realmente importante é o "nosso" comportamento.

Uma consequência destes exercícios é acelerar a conversão de "pessoa" para "ícone" ou "texto", o que quase de certeza diminui uma certa capacidade para a empatia. A natureza episódica e formulaica de uma existência mediada e narrativizada - seja em tablóides ou documentários - dificulta a tarefa de encarar o seu objecto como "real", ainda para mais quando cada novo desenvolvimento funciona como uma etapa lógica no enredo. Cada comentador convidado tenta estabelecer ordem traduzindo "Britney Spears" para um símbolo das dinâmicas que lhe parecem mais relevantes. E até os depoimentos dos fãs - repletos de carinho e generosidade - não deixam de converter o objecto de veneração num somatório de tudo o que significou para eles. Por mais bem-intencionados que sejam os termos, estes processos terão sempre um elemento de desumanização, em que a celebridade em questão, seja idolatrada, gozada ou analisada, está a cumprir uma função comunitária: permitindo que milhares de estranhos comuniquem uns com os outros, formem consensos unilaterais, percebam melhor que tipo de pessoas são e do que é que gostam ou não gostam.

Em 2007, um crítico cultural publicou na New York Magazine um texto sobre o incidente da cabeça rapada, desemaranhando a "riqueza" de significados simbólicos do gesto: aludia ao mito de Sansão e Dalila, aos protocolos militares, às punições a colaboracionistas no pós-guerra, etc., etc. Framing Britney comete (ou dá voz a) alguns excessos de interpretação semelhantes, e acaba por ilustrar inadvertidamente um dos problemas de celebridades da dimensão de Britney: a ideia de que cada uma das suas acções está obrigada a significar qualquer coisa - sobre "a América", sobre a "modernidade" ou até sobre as suas próprias intenções. Muitas dessas acções foram e são apenas uma extensão ilógica e bizarra de uma privacidade que, por mais pública que seja, é sempre inacessível.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG