David McCullough (1933-2022).: O revolucionário acidental

No bicentenário da sessão inaugural do Congresso norte-americano, um historiador foi convidado a dirigir-se à câmara. A 6 de abril de 1989, sete meses antes do Muro cair, David McCullough falou aos congressistas dos Estados Unidos da América. Ele, que quase toda a vida foi independente ("O meu trabalho são os políticos que estão mortos"), foi um dos poucos cidadãos não-eleitos a aceitar essa honra. Fê-lo com equilíbrio, graça, petites-histoires e um indisfarçável americanismo, à semelhança dos seus cinco livros até então. A história das cheias de Johnstown, Pensilvânia, o seu Estado natal, em 1968. A história da Ponte de Brooklyn, em 1972. A história do Canal do Panamá, em 1977, que mereceu o National Book Award e a gratidão de Jimmy Carter. Uma biografia de Teddy Roosevelt (Manhãs a Cavalo), que repetiu o prémio. "Há dias, ouvi um comentador na televisão queixar-se do eco produzido por esta sala. Mas que eco, meus senhores, que eco. Que ressonância", saudou.

David Gaub McCullough, nascido em 1933, falecido esta segunda-feira, tornou-se um dos maiores difusores desse eco, dessa consciência, dessa memória. "Partiu um grande historiador. O único consolo possível é que os seus livros ficam, ajudando a América a compreender melhor o seu passado", afirmou Robert A. Caro, também historiador presidencial, autor da colossal biografia de Lyndon B. Johnson.

Com Truman, publicado em 1992, receberia o seu primeiro Pulitzer. Com John Adams, pai fundador a que dedicou uma década de estudo, repetiria a proeza. Ambos seriam adaptados para televisão pela HBO, com sucesso nos pequenos ecrãs. 1776, lançado em 2005, sobre o ano da revolução e independência dos Estados Unidos, teria uma primeira edição com mais de um milhão de exemplares.

O trabalho de McCullough destacava-se pela empatia, pela sinestesia e pelo humor. "Nenhum deles sabia o que ia acontecer, como nós não sabemos", apontava, sobre os erros que os seus biografados haviam cometido em funções. O modo como perscrutava o passado de cada um levava-o, por vezes, a ligar-se de forma excessiva, falhando na imparcialidade com que os julgava como historiador, ainda que triunfando na descrição do tempo que haviam vivido. Nos dez anos que levou a investigar Harry S. Truman, até o hábito de caminhar de madrugada reproduziu. No livro, a apreciação dos bombardeamentos em Hiroxima e Nagasaki é leve. Os pormenores salvam a honra do convento.

"Quando Truman entrou no Congresso pela primeira vez, um colega disse-lhe: "Nos primeiros seis meses, vais perguntar-te como diabo aqui chegaste. Nos segundos seis meses, vais perguntar-te como diabo aqui chegaram os teus colegas"".

McCullough tirava realmente partido do seu ofício e da busca pelo que outros haviam protagonizado. "Para mim, a História deve ser uma fonte de prazer. É parte da nossa responsabilidade cívica. É um acrescento à experiência da vida, tal como a literatura e a música." E talvez isso explique a forma quase apaixonada como falava de Washington, Quincy Adams ou Truman. Tinha também um propósito pedagógico, como que tentando tornar a História uma leitura popular, reensinando os historiadores a escrever História. "Não é fácil perceber o passado. Nunca ninguém viveu nele. Mas tão importante quanto o que os nossos antepassados escreveram, é o que leram antes de o escreverem", disse, na inauguração do Museu da Revolução, em 2017.

Licenciado em Literatura Inglesa na Universidade de Yale, condecorado com a Medalha da Liberdade em 2006, romperia com a independência aquando da candidatura de Donald Trump à presidência. Descartando-o como "ignorante" e "egomaníaco", daria múltiplas entrevistas em jeito de advertência à sua eleição.

O que faz um presidente excecional?, perguntar-lhe-ia Fareed Zakaria. "Os presidentes excecionais são a exceção", responderia. "Os que têm a consciência não só do que aconteceu na História, mas que também eles estão a acontecer na História, e que serão julgados por ela. Os que conseguem que o país seja melhor do que julga ser, através da língua, escrita e falada, e da capacidade de trabalhar com quem se discorda ou nem se gosta". O candidato republicano não poderia ser mais contrastante e McCullough escolheu combatê-lo por isso, sacrificando a unanimidade que a sua carreira havia alcançado.

Talvez não haja nada mais revolucionário, numa era de guerra cultural, do que escolher a História como arma. E David McCullough, que entregou a sua vida ao estudo da revolução, acabou assim por fazer uma sua.

Faleceu esta segunda-feira, dois meses e um dia depois da mulher, Rosalee.

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