Covid sem fim à vista 

A quarta vaga avança na Europa. Na Índia, em África e no Brasil, o vírus passeia-se sem grande oposição, infetando e matando. No Japão, os Jogos Olímpicos que iam ter público local, afinal poderão decorrer à porta fechada. As medidas reativas sucedem-se: recolher obrigatório, limitações à circulação, inibição de ajuntamentos e distanciamento social. São necessárias, ponto. Mas há outro ponto, que é o da ação extraordinária à escala global que permita acelerar a vacinação para um patamar que vença quaisquer geografias. E, sobre isto, os líderes mundiais, europeus incluídos, continuam a assobiar para o ar, convencidos de que se vacinarem os seus, então estarão safos. Errado, ponto.

As variantes do vírus resultam de processos de mutação que se têm desenvolvido sobretudo nas geografias onde este encontra menos resistência, normalmente porque a organização da ação sanitária é aí muito deficiente. Apesar de a Organização Mundial de Saúde ter rebatizado essas variantes, para evitar estigmas regionais, sabemos que só a primeira, a Alfa, veio do Reino Unido. Depois, a Beta, veio da África do Sul, a Gama do Brasil e a mais recente, a Delta, teve origem na Índia. Esta última é claramente a mais contagiosa e tem sido responsável por surtos na Europa. Ou seja, o vírus vai circulando pelo mundo, fintando os anticorpos e prolongando a pandemia, que parece não ter fim à vista.

As assimetrias regionais na administração da vacina trazem à evidência que este processo global de geração de mutações, que se transformam em variantes mais agressivas e que circulam pelo mundo, não vai parar. Um olhar sobre o ritmo de vacinação revela três velocidades: as economias avançadas, bem mais rápidas, que andam já pelos 80% de inoculados; as economias emergentes, a menos de metade desse nível; e as grandes manchas esquecidas, como a África, que ainda só vacinou cerca de 2% da população, sendo que apenas 1% recebeu as duas doses. Se a imunidade de grupo é a solução, então a vacinação tem de escalar.

Aqui entram as farmacêuticas, que continuam focadas na proteção do perímetro do seu negócio, mas com uma eficácia que deixa muito a desejar, ora fazendo anúncios avulsos e erróneos sobre o aumento da produção de vacinas, ora cancelando entregas programadas. Os responsáveis políticos do mundo desenvolvido, por seu lado, continuam obedientemente a alinhar neste jogo, homologando a tese de que um levantamento temporário dos direitos de patente, quer das vacinas, quer das tecnologias para a sua produção, não resultaria numa multiplicação das instalações de produção e, por maioria de razão, num aumento, ainda por cima descentralizado, das vacinas disponíveis. É confrangedor o desfile de meias ou ocas verdades, que disseminam os falsos mitos de que não há matérias-primas nem know how para multiplicar a produção de vacinas. Não, isto não é defender o sistema capitalista, isto é destruir o futuro desse mesmo sistema.

A sucessão de vagas da pandemia está aí, um pouco por todo o mundo, como uma bofetada a castigar a inação de líderes políticos manietados. Tiveram, desde janeiro, a oportunidade de serem grandes e de procurar evitar o descalabro de mortes e miséria que se instalou no mundo. Mas não, escolheram ser derrotados por um vírus que, não tendo cérebro, é bem mais empreendedor que eles. E que procura incansavelmente a variante que poderá fintar as atuais vacinas. Esperemos que isso não aconteça, porque aí o julgamento da História não será meigo para muitos.

Deputado e professor catedrático

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