Costa que se cuide!

A terceira vitória interna de Rio põe a descoberto o profundo divórcio entre as elites partidárias, que dão cara e colorido ao cartel dos instalados, e o sentimento de uma maioria mais silenciosa de militantes e eleitores. Desgraçadamente, tal falta de sintonia não é moléstia exclusiva do PSD.

Toda a política portuguesa parece instalada em campanha permanente, pervertendo as estações naturais da democracia. Dormente, a vida intelectual dos partidos parece deformada. Quase tudo tem um sabor a tacticismo em vez de estratégia, jogos de poder antes do interesse cidadão.

Pela terceira vez, Rui Rio mereceu a confiança da maioria dos militantes do PSD, e encontra-se agora plenamente legitimado para liderar uma alternativa ao PS nas eleições de 30 de janeiro. Falta saber se, até lá, consegue converter a vitória interna num impulso mobilizador capaz de disputar a António Costa e ao PS as soluções de compromisso de governação que, depois do nosso voto, o próximo Parlamento for capaz de encontrar.

Todos em campanha, os partidos consumirão estes dias de advento até ao Natal a compor listas de candidatos a deputados e a afinar discursos e programas. Um sistema parlamentar de listas fechadas como o nosso implica que são os partidos políticos que administram o mandato representativo - são eles os depositários do voto cidadão. Depois, como no futebol em final de taça, a prudência aconselha a admitirmos que está tudo em aberto, porque há pelo menos duas equipas que se apresentam em campo com vontade de ganhar.

Acontece que os desafios que temos pela frente admitem poucos jogos florais. Nem é preciso lembrar o rasto de calamidade dos últimos dois anos, e as feridas que custarão a cicatrizar. Sem tempo para completar o luto pelas vidas perdidas, dor e depressão, o tempo reclama cabeça fria e clareza na condução das medidas de combate à pandemia, por um lado, e igual clareza nas propostas eleitorais para enfrentar a reconstrução nacional, bem como na disponibilidade de uns e outros para soluções de compromisso, caso nenhum partido consiga a mais que improvável maioria absoluta.

A crise sanitária está instalada, e com ela a económica. Os programas eleitorais e os arranjos parlamentares que hão de dar corpo a um novo governo têm de responder a ambas as crises, quando a aspiração de cada português é a de que saiamos menos mal e depressa deste buraco coletivo. A proteção dos mais vulneráveis não pode ser aligeirada. Da mesma forma que o auxílio às empresas mais expostas aos efeitos da pandemia deve coexistir com incentivos para acelerar a sua transformação, mas tendo sempre em conta que não é possível eternizar a respiração assistida graças à qual algumas empresas se mantêm vivas. A experiência dos dois últimos anos também revelou a fragilidade dos nossos serviços públicos, pese embora a sua resiliência perante o acréscimo de esforço que lhes foi pedido. A verdade é que de pouco nos valerão as liberdades individuais se mantivermos tão desigual e deficiente o acesso a cuidados de saúde ou educação, para além dos seguros que nos prometem proteger em caso de infortúnio ou velhice.

Para tudo isso, o apoio económico da União Europeia é vital, se o soubermos aproveitar, em tempo e em modo. Trata-se de uma oportunidade única, não só de corrigir a década de canga austeritária que suportámos, mas também de promover as reformas de que o País precisa, criando condições de modernização, quer do tecido empresarial, quer da própria administração pública. É tudo isso que está em jogo em 30 de janeiro. Para encontrarmos uma fórmula de governo que, em tempos de incerteza, dê estabilidade e visão de futuro ao País.


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