Como é viver no Bolsonaristão

Este texto não é escrito de nenhum barzinho cosy de Vila Madalena, ou outro point os paulistanos descolados, com piercing no nariz, alguns, cabelo pintado de azul, outros, e muito awake para as tendências liberais a eclodir pelo mundo, todos eles. Não: não há, nas redondezas deste computador, nem artistas, nem estudantes, nem professores, nem sociólogos, nem sequer outros jornalistas.

O autor destas linhas pode ser acusado de muitas coisas: mas não vive numa bolha. Ou melhor: vive na outra bolha.

Quase 400 km a norte de Vila Madalena, aqui é Ribeirão Preto, cujos pontos altos do ano são a Agrishow, maior feira agrícola da América Latina, e a vizinha Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, maior evento do género fora dos EUA, com infraestrutura para receber o melhor rodeo do país e grandiosos shows de sertanejo.

Com perto de 700 mil habitantes, boa parte descendentes de italianos que chegaram para trabalhar em plantações de café e de cana e em poucas gerações enriqueceram, é um dos lugares mais abastados do Brasil. E mais bolsonaristas.

Aqui, Bolsonaro representa o bem, a ordem, a segurança, a família; Lula o mal, os bandidos, as drogas, o aborto. E essas ideias estão consolidadas, enraizadas, entranhadas.

Um estrangeiro recém-chegado, entretanto, depara-se com o apartheid, velado, entre ricos e pobres, tão comum no Brasil. E, se quiser manter um nível de vida aproximado daquele a que estava habituado no país de origem, é compelido a conviver e frequentar as "elites" (muito) endinheiradas.

E o convívio com a espécie, como com a maioria dos brasileiros, é delicioso - simpatia, alegria, hospitalidade e tenros churrascos, com cerveja gelada no sabadão -, desde que se tenha o cuidado de não encaminhar - jamais - o papo para a política.

Porque quando se ouve, entre uma linguiça e uma fraldinha mal passada, o primeiro "bandido bom, é bandido morto", a coisa já descambou. Segue-se o tradicional "neste país não há fome, só passa fome quem é vagabundo", dito alto e bom som, tão alto que quase se pode ouvir na favela logo ali ao lado do condomínio de luxo.

Com o chope já definitivamente entornado, vem o típico "o Lula cortou o mindinho de propósito para se reformar", seguido do tradicional "o Mito tem razão, esse povão precisa é de uma ditadura mesmo".

Com a picanha a entalar-se no esófago e a Skol a remexer-se no estômago, é hora de buscar refúgio do sabadão reacionário em casa - mas sem cometer o erro de olhar para as redes sociais dos comensais, onde agora, animados pelo álcool, eles garantem que, ganhando Lula, os líderes das maiores organizações criminosas do país terão direito a ministério.

Na segunda-feira, o despertar é ao som de "Deus, Pátria, Família", saído do altifalante de um carro a cruzar a avenida, e à noite as filhas do colunista relatam que uma das amigas levou meias altas com a cara do Bolsonaro, que outra, influencer aos 11, publicou um vídeo em homenagem ao Mito e que os amiguinhos chamaram uma das raras colegas que diverge de "menina dos nove dedos", porque o mindinho amputado de Lula é um estranho fetiche bolsonarista.

A próxima coluna continuará a ser escrita daqui, a 400 km da Vila Madalena, mas não se espantem se, entretanto, o autor pintar o cabelo de azul ou enfie um piercing no nariz num ato de puro desespero.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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