Com o devido respeito

Numa campanha eleitoral, que tem várias formas de expressão, entre entrevistas, debates e comícios, arruadas e discursos, é tido como "normal" que se cometam "excessos" de linguagem contra os adversários políticos. No dia da eleição, volta a serenidade e a urbanidade que, por norma, pautam as relações entre políticos dos vários partidos, com mais ou menos diferenças ideológicas, durante todos os outros dias do ano em que não estão em campanha eleitoral.

Se tomarmos como certo que todos terão o mesmo objetivo - de serviço ao país, de melhoria da vida dos cidadãos e de resolução de problemas que afetam o bem comum - as disputas entre partidos são legítimas e normais, se nunca ultrapassarem esse lado do debate de ideias, do confronto político, da troca de argumentos.

Mas, a cada nova campanha, os tais "excessos" desvalorizados tornam-se, por vezes, perenes. Porque os partidos não falam e os homens e mulheres que lhes dão voz são, no fundo, isso mesmo: homens e mulheres, de carne e osso, com famílias, mulheres e filhos, pais e amigos. Quando o limite de urbanidade é ultrapassado, quando o debate acaba por cair no ataque pessoal, na desvalorização do adversário e não das suas propostas, numa cacofonia insuportável em que ninguém consegue fazer-se ouvir sem ter de gritar, a linha está ultrapassada e abrem-se feridas que, por vezes, demoram décadas a passar. Ou nunca saram.

Quando, dois seres humanos, numa disputa eleitoral, se olham com ódio, indiferença, desprezo ou, até, rancor, quando no final de um debate se evitam mutuamente, quando não conseguem sequer dirigir um ao outro uma palavra de cumprimento, quando o ambiente é tenso e pesado, a política, os projetos, os programas eleitorais e as ideias já ficaram em segundo plano.

Entramos na luta quase corpo a corpo, pessoal, que, na melhor das hipóteses, vai sempre em crescendo. Na história da política portuguesa, há episódios de pessoas de campos ideológicos opostos que se admiravam e respeitavam e que, depois de uma campanha eleitoral, nunca mais, sequer, trocam olhares, ainda que estejam, por qualquer razão, na mesma sala.

Devem, então, os debates ser mornos, monocórdicos ou amorfos?

Não, mas uma coisa não implica a outra.

Debater ideias não é debater pessoas, debater projetos não é debater caráteres, discutir diferenças não é atacar personalidades.

Quem (ainda) segue as campanhas eleitorais e os debates percebe pela imagem e pela voz esta animosidade latente, este nervosismo nem sempre bem disfarçado, esta crispação que os políticos acabam por passar para a sociedade. Como se a nobre arte da política, o supremo direito de voto dos cidadãos e a discussão de programas eleitorais fosse igual a uma conversa depois de um jogo de futebol entre rivais, ou como se a política e a vida de todos nós pudessem ser tratadas (apenas) com emoções e não com a tentativa de demonstrar a minha "razão" perante o outro.

A política e os seus atores, se quiserem ser levados um pouco mais a sério, terão de compreender que uma coisa é ser combativo, outra é ser malcriado. E, nesta matéria, há muito a aprender com a tradição britânica.

Como sempre fez Jorge Sampaio, que discordava de forma educada, que demonstrava as suas ideias de modo sereno, que sabia escutar o adversário e que respeitava a posição dos outros.

Os adjetivos que, desde sexta-feira, preenchem o país a propósito do antigo presidente são, na grade maioria, adequados. Sampaio era frágil, doce, sereno, reflexivo, introspetivo. Mas nem por isso deixou de ser corajoso, decidido, firme, determinado e combativo. Alguém que nunca precisou de gritar, de insultar, de odiar ou de desprezar os adversários, fosse quando ganhou, fosse quando perdeu. Antes de tudo, da ideologia, das ideias, dos programas, dos partidos, está a pessoa que temos diante de nós. Sampaio sempre respeitou isso. E o seu exemplo deveria ser seguido.

Jornalista

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG