Coisas boas destas presidenciais

Aquilo que não aconteceu na campanha aconteceu na noite de domingo: Marcelo acusou o Chega de ser contra a democracia e Rui Rio colocou-o na "extrema-direita", assumindo o PSD como centro. Tudo certo: agora é só agirem em conformidade.

"A minha direita não é a sua", disse Marcelo no debate com Ventura, assumindo ser "da direita social" e classificando o seu oponente como de "direita iliberal". Faltou-lhe ser claro para todos os que o ouviam, dizendo sem tibieza, sem pleonasmos nem metáforas que direita que tinha à sua frente. Por que não o fez, apesar de, à hora em que víamos aquele frente-a-frente, os apoiantes de Trump, em quem Ventura tem um modelo confesso e emulado, ocuparem o parlamento americano, é difícil compreender e desculpar. Marcelo sabia que tinha pouco a perder e o país tudo a ganhar com isso; falhou-nos.

Arrependeu-se? Certo é que no discurso de vitória emendou a mão. Aí, assumindo-se como intérprete dos mais de 60% de eleitores que lhe deram o voto, disse o que tem de ser dito, aquilo que é obrigação do presidente, cuja missão principal é defender a Constituição, a coesão do país e o regular funcionamento das instituições, deixar claro: "[o que o voto dos portugueses diz é que] querem que a democracia constitucional responda aos seus dramas e angústias; mas uma democracia que respeite a Constituição; uma democracia democrática; não uma democracia iliberal, ou seja, não democrática. (...) Não querem uma radicalização e um extremismo nas pessoas, nas atitudes, na vida social e política."

Esta assunção - de que o Chega e Ventura são antidemocráticos, e que como Trump ou Bolsonaro querem usar a democracia para a destruir - tem consequências, porém. Que vai o presidente ora eleito, e com uma tão expressiva maioria, fazer a respeito? Como vai lidar com um partido e um líder partidário que definiu como inimigos da democracia, e portanto como um perigo para a comunidade?

Não tivemos até agora nenhuma pista do presidente para a resposta a essa pergunta, mas a afirmação que fez não pode deixar de ser uma declaração de combate: se Marcelo assume ser o presidente eleito pelos que querem defender a democracia, se assume que é para essa defesa que a maioria dos portugueses o elegeu, exige-se que esteja à altura. Que contribua para aquilo que faltou e falta até agora em Portugal face ao discurso abjeto de racismo, calúnia e ódio da extrema-direita: um cordão sanitário. Dizer que um partido e um político são antidemocráticos para a seguir tratá-los como iguais aos outros não é apenas contraditório e estulto. É inaceitável e imperdoável.

Esta assunção de Marcelo veio depois de uma outra - a do líder do PSD, que pela primeira vez usou a expressão "extrema-direita" para designar o Chega e Ventura.

Rui Rio é há muito - infelizmente - um líder confuso, indeciso, perdido, que diz uma coisa e o seu contrário. O seu discurso na noite das presidenciais não é exceção.

Falando da "extrema-direita como um fenómeno transversal ao país" de modo incompreensivelmente chocarreiro, Rio distanciou-se ao mesmo tempo não só dessa extrema-direita como da direita em geral, ao dizer que "toda a direita junta, a extrema-direita e a direita mais moderada, andarão numa votação à volta dos 14%" - sendo a "direita mais moderada", concluímos, o candidato da Iniciativa Liberal. O seu partido, ficámos a saber pelo próprio líder, não é direita, é centro. E foi o centro, informou-nos, que ganhou as presidenciais (isto apesar de o próprio Marcelo se definir como de "direita social").

Aliás se bem percebemos Rui Rio, que acusou o PS de ser um dos grandes perdedores do sufrágio de domingo, o partido ganhador foi o PSD; o centro é o PSD. É claro que Rio sabe muito bem que o resultado do antigo líder do PSD que agora é presidente não se deve apenas ao eleitorado do seu partido, e que uma parte substancial dos eleitores do PS votou em Marcelo, havendo aliás até eleitores mais à esquerda no universo marcelista. Mas isso não é o relevante para esta análise; o essencial é que Rio designou o partido com quem o PSD fez um acordo de apoio parlamentar nos Açores como "extrema-direita" no mesmo dia em que o presidente o definiu como não democrático.

Depois da noite de domingo, Rio nunca mais poderá admitir como antes "falar" com o Chega e Ventura sem assumir que está a ponderar dialogar com a extrema-direita não democrática - ou seja, que estará a legitimar e validar quem tem como programa destruir a democracia de que o seu partido é historicamente um dos grandes esteios e obreiros.

Aliás as declarações subsequentes do vice-presidente do PSD David Justino, que tem aparecido sempre como um "explicador" e um "racionalizador" das posições de Rio, reforçam essa nova assunção. Dizendo à TSF na segunda-feira de manhã "com este Chega é impossível falar, entendermo-nos sobre seja o que for" e "André Ventura representa o pior que há na política portuguesa", Justino esteve na SIC-N à noite para frisar: "Eu rejeito os princípios, valores e expressões de André Ventura. Não tenho nada a ver com aquilo."

O vice-presidente social-democrata, que como Rio quis sublinhar a vitória esmagadora das forças "moderadas" democráticas nas eleições presidenciais - falou de "80 e tal por cento" dos votos, o que significa que somou não só os amealhados por Marcelo e Ana Gomes como também aqueles em Marisa Matias e João Ferreira, incluindo portanto BE e PCP nessas forças democráticas, e excecionando Ventura - teve foi dificuldade em explicar como é que com um partido que coloca fora do universo democrático e com o qual diz que o seu não pode falar nem entender-se houve entendimento e diálogo nos Açores. Meteu naturalmente os pés pelas mãos, porque não tem outro remédio: o PSD meteu nisso os pés pelas mãos - até porque não precisava para nada de fazer um acordo com o Chega; era só pôr o Chega na posição de escolher apoiar o governo do PSD ou o do PS.

Mas o erro que o PSD cometeu nos Açores não o deve impedir de arrepiar caminho e definir as suas balizas. Ao fazê-lo, defender-se-á daquilo que aconteceu em todos os países nos quais o centro-direita aceitou aliar-se à extrema-direita, defendendo ao mesmo tempo a democracia. Já vimos, como aliás David Justino reconheceu na SIC-N, o "empolamento do Chega corresponder ao esvaziamento do CDS/PP"; é preciso que um dos maiores e mais importantes partidos da democracia portuguesa não se deixe canibalizar pela extrema-direita.

O facto de as coisas chegarem sempre a Portugal com atraso permite-nos tentar aprender com o exemplo dos outros. Perante o que sucedeu nos EUA, não pode passar pela cabeça de alguém que acredite na democracia e no Estado de direito "dialogar" ou "entender-se" com um émulo de Trump. É possível que o centro direita português tenha finalmente percebido isso.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG