Citius, Altius, Fortius - Communiter

A minha história de amor com os Jogos Olímpicos começou em 1976. No dia 26 de julho, a partir de Peniche onde estava de férias, acompanhei a final da corrida dos 10 mil metros do Jogos de Montreal, no Canadá. Carlos Lopes era a força da natureza que nos representava e foi igual a si próprio. O ritmo lento inicial não lhe convinha e fez o que tinha de ser feito, tomando a dianteira aos três quilómetros e deixando, volta após volta, todos os seus concorrentes para trás. Todos menos um! Lasse Virén, o finlandês voador, arrancou nos últimos 450 metros para uma vitória inquestionável.

Foi um bom ano, esse 1976. A medalha de prata de Lopes, a nova Constituição democrática e as primeiras eleições livres (se excetuarmos as de 1975 para a Assembleia Constituinte). Muita coisa boa, para a cabeça de um jovem. Quanto aos Jogos Olímpicos, fiquei desde então enamorado. Todos os quatro anos aí estou eu, perfilado em frente da televisão, pronto para absorver tudo o que posso das dezenas de modalidades que aí se disputam. Com a idade e os compromissos familiares e profissionais que me tomavam o dia, passei a apreciar mais as edições disputadas nos antípodas, pois assim podia segui-las pela noite dentro. É o caso de Tóquio 2020. Ou melhor, 2021.

Estes Jogos estiveram para não se realizar. Mas, em boa hora, com um ano de atraso, estão já a acontecer. Os 15.400 atletas lá estão a disputar as medalhas de 33 modalidades diferentes. Poderemos ver a veterana australiana Mary Hanna, de 66 anos, a competir na prova de dressage (hipismo). E também a jovem britânica Sky Brown, de apenas 13 anos, na prova de skate. Ou ainda a mesa tenista síria Hend Zaza, que tem, imagine-se, 12 anos. São três exemplos que incorporam na perfeição o espírito olímpico, na sua dimensão integradora. Não há idade, nem religião, nem cor da pele para a ambição.

Estes são os Jogos da resiliência. Diferentes, certamente. Algo tristes. Mas uma resposta corajosa da organização, dos atletas e do mundo à contrariedade que teima em nos subtrair vida. Apresentam-se em Tóquio 207 Comités Olímpicos, mais do que os 193 países que constituem as Nações Unidas. Sem público não será o mesmo, mas ainda assim sei que me esperam fantásticas noites e manhãs televisivas nas próximas duas semanas. Os atletas portugueses Telma Monteiro e Nélson Évora, veteranos olímpicos escolhidos para porta-bandeira da delegação portuguesa na cerimónia de abertura dos Jogos, já me deram a primeira medalha de ouro quando entraram naquele estádio com energia e alegria contagiantes. A medalha de pechisbeque foi-me servida pelos jornais desportivos nacionais, que reservaram as primeiras páginas para os insignificantes golos dos jogos de futebol particulares.

Quando, no final do século XIX, Pierre de Coubertin criou o movimento olímpico moderno, foi adotado o famoso lema "Citius, Altius, Fortius", que invocava a procura incansável do mais rápido, mais alto e mais forte. Uma visão de superação que moldou a carreira desportiva de tantas gerações de atletas. Este ano, o Comité Olímpico Internacional quis ir mais longe e, na sua reunião de 20 de junho, aprovou um complemento ao lema, em reconhecimento do poder unificador do desporto e da importância da solidariedade. Nas palavras do presidente do COI, "só podemos ir mais rápido, almejar mais alto ou ser mais fortes, permanecendo juntos, em solidariedade." Temos, pois, um lema filho dos tempos covid: "Citius, Altius, Fortius - Communiter".

Deputado e professor catedrático

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