Ciência e cidadania

Durante três dias, Lisboa acolheu o Congresso Ibero-americano de Indicadores de Ciência e Tecnologia, cuja rede celebrou 25 anos em 2020. Como destacou Maria de Lurdes Rodrigues, a Reitora do ISCTE-IUL, que recebeu o evento, esperou-se mais de um ano para conseguir um encontro presencial, mas só foi possível um modelo híbrido, apesar dos quase 800 participantes que acompanharam as sessões. Mas este Congresso, mesmo com um ano de atraso, não deixou de ser uma celebração, em que participaram alguns dos que intervieram na constituição desta rede, como Maria de Lurdes Rodrigues ou João Mata, mas também aqueles que há muitos anos para ela contribuem como Nuno Rodrigues, atual Diretor-geral das Estatísticas de Educação e Ciência. As estatísticas e os indicadores podem parecer ao cidadão comum, em que me incluo, um tema árido a que preferimos aceder em resultados finais, talvez sem nos termos interrogado como a sua formulação é determinante na escolha de políticas públicas. O Ministro Manuel Heitor, que desde início acompanhou a organização e a escolha dos temas, sublinhou a importância de refletir sobre as novas tendências de construção de indicadores (manter as metodologias tradicionais ou incorporar a tecnologia blockchain?) e, sobretudo, conseguir mais participação dos cidadãos na formulação das agendas científicas. A ciência e a tecnologia ao serviço das comunidades e das pessoas.

Na conferência de encerramento, Alexandre Quintanilha maravilhou-nos com a sua reflexão sobre o risco, a resiliência e o lugar do conhecimento. Não podia ser um tema mais atual num tempo de risco e adversidade, em que ainda estamos à procura de soluções para um vírus que parece escapar ao nosso controlo. Ficamos inconformados (o menos que se pode dizer) por as soluções não chegarem todas de uma vez, existirem diferentes pareceres e os decisores não serem tão assertivos como desejaríamos. Temos as nossas vidas por um fio e vivemos em grande incerteza. Como alertava Alexandre Quintanilha, a única ferramenta de que dispomos para ganhar resiliência é aumentar o conhecimento, construindo aquilo que designa por autoconfiança lúcida, um misto entre certeza e permanente interrogação, que nos permita aceitar com mais humildade que a ciência é e será sempre um caminho. A palavra tempo esteve muito presente na sua reflexão - o conhecimento precisa de tempo, a construção da nossa resiliência precisa de tempo, os decisores precisam de tempo - e, no entanto, apenas conhecemos a velocidade, a aceleração quase ilimitada.

Foi, por isso, um privilégio ouvir neste Congresso sobre indicadores o filósofo e matemático espanhol Javier Echeverría, numa intervenção que designou "Informação, desinformação, tecno dados", alertando para os efeitos das tecnologias na ciência e, sobretudo, os efeitos sociais, de uma Economia baseada em dados, que tornará mais poderoso(s) aqueles que os detiverem (basta pensar como os enriquecemos cada vez que os autorizamos a aceder a toda a nossa informação!). Em 1994, Echevarría publicou um dos seus livros mais prescientes, Telépolis, metáfora de uma cidade que estabelece novos modelos de coexistência entre os seres humanos, em que a concentração da população dá lugar à dispersão geográfica, sendo, no entanto, reforçada a interação social que ultrapassa fronteiras e pode ter impactos na configuração dos estados-nação. Poucos anos depois, publica Los señores del aire: Telépolis y el tercer entorno (1999), em que analisa o impacto das tecnologias da informação na nossa sociedade, mostrando que não se trata apenas de uma mudança de tecnologia, mas de uma nova ordem social caracterizada pela possibilidade de nos relacionarmos e interagirmos a distância (-tele). Se a nossa experiência recente (cidades vazias com cidadãos em teletrabalho) nos permitiu reconhecer essa nova ordem virtual, Echeverría, na sua conferência em Lisboa, apelou a uma ética do conhecimento, em que possamos estar (mais) preparados para uma consciência crítica (refiro mais um dos seus livros: Ciência do Bem e o Mal, 2007).

Refletir sobre indicadores de ciência e tecnologia não é, afinal, pura tarefa de especialistas, mas tem por detrás uma ampla reflexão sobre escolhas e políticas (Como medir o impacto social da ciência e da tecnologia? Qual a perceção e a apropriação social do conhecimento? Como melhorar as estratégias de comunicação de ciência?). Esta rede ibero-americana, de que todos nos orgulhamos, tem sido capaz de olhar o futuro, ciente de que reunir dados nunca pode estar desligado de um sentido de cidadania que exige interrogação permanente.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-americanos

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