Casei-me com uma pessoa e separei-me de outra

"Odeio o meu ex" é uma frase que ouvimos demasiadas vezes. Quando as relações de casal chegam ao fim e sobra a raiva e o ódio temperados, frequentemente, pelo desejo de vingança.

No início, era a paixão, intensa e arrebatadora, plena de atração física e sexual que impulsiona ao romance. Depois, veio o amor, mais sereno, pautado pelos laços emocionais, a intimidade e o compromisso em manter a relação. No final... no final é a desilusão, o vazio, a culpa e a zanga.

As relações de conjugalidade são muito complexas e o seu sucesso depende de numerosas variáveis, sendo que não existe uma receita universal para a relação ideal. E quando a distância e a ausência levam os parceiros a viver vidas paralelas, de costas voltadas, a separação surge como uma porta que se abre e que se atravessa sem grande hesitação. Para trás ficam os sonhos de uma vida em comum, os planos agora desfeitos, e amiúde os filhos.

E haverá melhor arma de arremesso do que os filhos?

Aquela pessoa empática, carinhosa e compreensiva com quem se casou transforma-se agora em alguém amargo, agressivo e vingativo. Alguém que não olha a meios para atingir os fins. Alguém que deseja, acima de tudo, uma guerra de poder, independentemente de quem estiver nas trincheiras.

E são as crianças quem, muitas vezes, tentam proteger-se nessas trincheiras.

Crianças que ouvem dizer mal de um dos pais, que são pombos-correio e bolas de pingue-pongue. Que tentam, sem sucesso, afastar-se dos conflitos parentais e permitirem-se gostar de ambos os pais, sem culpa nem conflitos de lealdade. Que me pedem, em segredo, para não contar a um dos progenitores que elas também gostam do outro progenitor. Que choram, têm pesadelos, medos e ansiedade. Que se cortam e ferem como forma de esquecer a dor emocional, tão maior e mais violenta do que a física.

E quem são estes pais que parecem agora pessoas completamente diferentes? Quem são estes estranhos com quem se partilharam, às vezes durante décadas, os mesmos desejos e compromissos?

São pais centrados neles próprios, egoístas e desprovidos de empatia. Pais sem capacidade de distinguir conjugalidade e parentalidade, mais preocupados com a casa de morada de família, a conta bancária ou vingar o despeito da rejeição. Pais que não hesitam em cortar as asas e os sonhos aos filhos, apenas como forma de atingir o outro. Aquele que, um dia, disseram amar.

No meio destas guerras estão as crianças, sempre as crianças. Que crescem com a sensação de um mundo injusto e cruel onde aqueles que os deviam proteger são, afinal de contas, os que mais as agridem.

E que adultos serão estas crianças amanhã?

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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