Cartoon Carrilho

Jorge Fonseca de Almeida

Redução de Impostos sobre os ricos: a Grande Aposta Britânica

Distraídos com a morte da Rainha passou despercebida à maioria dos especialistas portugueses sobre o Reino Unido, que enxameiam os órgãos de comunicação social, a aprovação do "mini orçamento" do novo Governo de Liz Truss e do seu ministro das Finanças Kwasi Kwarteng. Apesar do nome o mini orçamento é uma grande reforma fiscal de descida de impostos para as classes mais altas. Uma descida de impostos que será financiada por um aumento da dívida pública e apenas em parte muito limitada por uma redução da despesa.

Jorge Fonseca de Almeida
Guilherme de Oliveira Martins

Viva o teatro!

Hesitei ao dar o título à crónica de hoje. Deveria talvez pôr o nome de quem desejo homenagear - o homem do teatro e da cultura, que é João Mota. Mas sei que o próprio é o primeiro a concordar comigo, uma vez que o título que escolhi corresponde à extraordinária causa que ao longo de toda a sua vida abraçou. Quando se celebram os 50 anos do Teatro de Pesquisa "A Comuna", João Mota regressou à representação, em A Casa de Bernarda Alba e todos quantos assistimos a essa estreia memorável, sob a direção de Hugo Franco, sentimos que foi a essência do teatro que aí se viveu. A minha amizade e admiração por João Mota vem de há muito e foi reforçada na Fundação Gulbenkian e na colaboração antiga com o Centro Nacional de Cultura, cuja história tem tudo a ver com o teatro, graças ao encontro mágico entre Fernando Amado e Almada Negreiros, que culminaria na criação do Grupo Fernando Pessoa e no desenvolvimento da Casa da Comédia. É uma história longa e apaixonante que tem a ver com o reconhecimento do teatro e das artes como expressão sublime da cultura e do humanismo.

Guilherme d'Oliveira Martins
João Melo

As eleições no Brasil também nos dizem respeito

É já no próximo domingo, 2 de outubro, que os brasileiros serão chamados às urnas para escolherem o presidente da República, assim como os novos senadores, deputados federais e estaduais e vereadores. A escolha do primeiro é o que mais tem mobilizado a atenção da opinião pública internacional. O facto justifica-se, desde logo, pela importância do Brasil, pois, afinal, trata-se do maior país da América Latina, o maior país de língua portuguesa e uma das principais economias do mundo, fazendo parte do grupo de potências do chamado Sul Global.

João Melo
Jorge Barreto Xavier

Semanologia: A confiança

1 A construção pessoal e social da confiança é matéria complexa. Pode parecer estranho, mas é impossível determinar, em abstrato, em quem se confia ou no que se confia. A confiança instala-se em situações concretas, seja por aceitação de regras ou instituições, seja pela acomodação a um certo modo de vida, seja pela experiência de relações pessoais ou aprendizagens. A vida pessoal e comunitária sem níveis mínimos de confiança em si e nos outros é insuportável. Precisamos de confiar no que somos, no que sentimos, no que pensamos, no que nos rodeia.

Jorge Barreto Xavier
Margarita Correia

O país dos treminhões

Guarapuava, pequena cidade do interior do Paraná onde passei uma semana em trabalho, é terra de fazendeiros, capital do agronegócio paranaense e, como tal, importante bastião do bolsonarismo. Estava prevista uma passagem do líder pela cidade no final da semana passada, mas o cancelamento da mesma, devido à presença no funeral da rainha, não desmobilizou os seus boçais e façanhudos apoiantes, ufanos e armados, numa cidade pejada de bandeiras brasileiras e propaganda azul e verde da chapa 22. Até eu fui alvo, ao pequeno-almoço no hotel, da verborreica e tonitruante investida de um candidato a deputado federal, que sonhava ser ministro da Educação, e só o meu sotaque português fez murchar a sua ruidosa efusividade. No regresso, viajei pela BR-277, que liga o porto de Paraguaná à Foz do Iguaçu, entre Guarapuava e Curitiba, em vez de mata atlântica ou araucárias, pude conhecer os perigosos treminhões.

Margarita Correia
Paulo Baldaia

Um governo com medo da própria sombra

1 O ministro António Costa Silva ou está naturalmente cansado de estar num governo Sem rei, nem roque, ou a sua vontade era ter sido ministro das Finanças e a única forma que encontrou de o dizer ao primeiro-ministro António Costa foi a de anunciar o que faria se estivesse no Terreiro do Paço. Em sua defesa é preciso lembrar que foi dele a ideia primeira, neste governo, de taxar os lucros extraordinários das empresas de energia. É certo que o mandaram calar-se e que ele se viu obrigado a recuar no tema. E é certo também que o primeiro-ministro negou três vezes essa hipótese, mas que depois chegou o dia em que António Costa anunciou que votaria favoravelmente a proposta da Comissão Europeia, dando razão a ACS.

Paulo Baldaia
Amadu Jao

Queremos voltar a ser portugueses

Entre 1963 e 1974, combateram na Guiné cerca de 250 000 militares portugueses. Desses, cerca de 40 000 eram guineenses, à altura cidadãos portugueses de pleno direito que exerciam o seu dever constitucional de defender a pátria. Estes militares bateram-se com honra por Portugal. Cumpriam uma obrigação, mas não foram forçados. Sentiam-se portugueses. Juraram a bandeira à sombra da qual nasceram, e defenderam-na sem reserva ou hesitação. Muitos cobriram-se de glória no campo de batalha. Para lá de alguma ingratidão residual, a maioria dos portugueses lembra Marcelino da Mata com carinho e admiração. Muitos milhares de outros, menos conhecidos, serviram com igual fidelidade a causa nacional.

Amadu Jao
Leonídio Paulo Ferreira

Marcelo e a selfie com o descobridor da Califórnia

Reconheci Donald Valadao entre os luso-americanos que fizeram questão de tirar uma foto com o presidente português, durante um dos encontros de Marcelo Rebelo de Sousa com a comunidade que vive na Califórnia. Para mim, Valadao (sim, sem o til) é o homem que vi em setembro de 2016 vestir uma armadura do século XVI e encarnar a chegada, à Baía de San Diego, de João Rodrigues Cabrilho, navegador português ao serviço da Coroa Espanhola. A barba foi uma das razões para ter recebido aquela honra, e há muito que lhe cabia dar vida durante o Festival Cabrilho ao primeiro europeu a pisar a Costa Oeste dos Estados Unidos, mais de dois séculos antes de estes nascerem como país em 1776, três séculos antes de a Califórnia se tornar o 31.º estado da União. Hoje, a origem portuguesa do navegador já não é consensual entre os historiadores, mas a estátua em Point Loma mantém o escudo com as quinas e continua a olhar para o Pacífico, oceano batizado por Fernão de Magalhães, indiscutivelmente português, tal como português era Estêvão Gomes, que cartografou a Costa Leste dos atuais Estados Unidos.

Leonídio Paulo Ferreira
Sebastião Bugalho

O grande swing

Hilary Mantel, provavelmente a maior escritora do século XXI britânico, introduz o leitor ao seu primeiro romance histórico (A Place of Greater Safety, 1992) da seguinte forma: "Tudo o que lhe parecer particularmente improvável é provavelmente verdade". Mantel, que se instituiu literariamente através de retratos ficcionados de momentos de rutura (a Revolução Francesa, no livro citado; o anglicanismo de Henrique VIII, na trilogia Wolf Hall), partiu esta semana deste mundo, não se inibindo de deixar lições a quem nele permanece. Também nós, não há dúvida, atravessamos um tempo de transformações, ainda que sem a sorte de virmos a ser narrados pela pena de Hilary Mantel.

Sebastião Bugalho
Daniel Deusdado

Ao juiz: 186 volumes BES explicados em 5 minutos

Era uma vez uma criança abandonada às portas da Misericórdia de Lisboa, corria o santo ano de 1850, de nome posto em batismo José Maria, acrescentado depois de "Espírito Santo" por alturas do Crisma. Muito pobre e lutador, montou bem cedo, pelos 20 anos, uma lojinha de câmbios e lotaria espanhola para as bandas da Calçada do Combro, reinava ainda D. Carlos I. Tão bem-sucedido foi que, ainda novo, ficou rico. E depois banqueiro, mudando-se então para a mais vetusta Rua Augusta, ali por volta da entrada do século XX.

Daniel Deusdado
António Araújo

Paraíso perdido

Há coisas de pasmar neste mundo. Uma delas, das maiores delas, são as moai e as ahu de Rano Raraku. São gigantes, chegam a ter mais de 20 metros de altura, mais do que um prédio de cinco andares, e a mais pesada de todas atinge as 270 toneladas. Encontram-se no pedaço de terra mais remoto do mundo, longe de tudo, a distâncias astronómicas: a 3700 quilómetros a Oeste da costa do Chile, a 2000 quilómetros a Leste das ilhas de Pitcairn, na Polinésia. Há milhares de anos, houve seres humanos que percorreram essa distância, a bordo de pirogas mais que frágeis, sem bússolas, nem instrumentos de navegação, indo parar ali, no meio do nada, o zero absoluto num oceano imenso. Sabermos isso é coisa que ainda hoje desafia a razão e o entendimento. O que mais nos inquieta, e ao mesmo tempo fascina, é alcançar o motivo, o propósito que animou os protagonistas de tal epopeia, o que os terá feito aventurarem-se assim, mar adentro, sem a mínima certeza de que, por mais que navegassem, iriam encontrar terra firme (e que nessa terra viveriam melhor do que no lugar de onde partiram).

António Araújo
João Lopes

A imagem que repousa

Regresso a Jorge de Sena. E cito os versos com que termina um poema de 1950 dedicado ao pintor Pierre Bonnard: "A vós só cores convergem os sentidos / - só cores, não uma, não esta sobre aquela, / mas esta, aquela, todas, / presença fervorosa em gradações conjuntas: / a vossa idade calma de existir, / de estar pousado sobre a terra humana / como coisa alada que repousa." O poema pertence ao livro Pedra Filosofal, datado desse mesmo ano, há poucos meses reeditado pela Assírio & Alvim, com prefácio de Joana Meirim.

João Lopes
Leonídio Paulo Ferreira

Quando a etiqueta fascista não faz mossa

Duas novidades podem sair das eleições italianas deste domingo: a primeira mulher a chefiar um governo em Itália e também a primeira vez que a liderança do país recai num líder de inspiração fascista desde o final da Segunda Guerra Mundial. Curiosamente, tem sido só a segunda novidade a merecer título, como se uma primeira-ministra num grande país europeu se tivesse tornado banal, depois das Damas de Ferro britânica Margaret Thatcher e alemã Angela Merkel, até porque com Liz Truss o Reino Unido vai agora na terceira e, com Élisabeth Borne, a França na segunda. Contudo, a insistência em catalogar Giorgia Meloni como a reencarnação de Benito Mussolini, feita por alguma imprensa internacional, mas sobretudo pelos seus adversários de esquerda, acabou por não afetar as intenções de voto nas sondagens e, hoje, nas urnas, o partido Irmãos de Itália pode obter um quarto dos votos, o que somado aos resultados previsíveis das outras forças de direita a põe na calha para ser primeira-ministra.

Leonídio Paulo Ferreira
Donald P. Kaberuka

Investir na saúde de África

Houve uma altura, não há muito tempo, em que um diagnóstico de VIH era uma sentença de morte. A SIDA, juntamente com a tuberculose e a malária, matou milhões de pessoas e sobrecarregou os sistemas de saúde em todo o mundo, especialmente em África. Mas o mundo deu as mãos e lutou. O Fundo Global de Luta Contra a SIDA, Tuberculose e Malária, criado em 2002, é uma história de sucesso sem paralelo. A cooperação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, o sector privado, a sociedade civil e as comunidades afetadas salvou 44 milhões de vidas, e a taxa de mortalidade combinada destas três enfermidades foi reduzida para mais de metade.

Donald P. Kaberuka
Rui Diogo

Desejo sexual, conforto e ciúmes: um difícil equilíbrio histórico e evolutivo

Há umas semanas estive em Portugal, e como costume quando estou em Portugal pediram-me para falar da evolução do... sexo. Foi precisamente o tema que falei no excelente TEDXOPorto 2022, e também em várias entrevistas, incluindo para o programa "Sociedade Civil" da RTP2. Frequentemente, mas nem sempre, os jornalistas que me entrevistam acham que eu vou defender que a monogamia, ou casamento monogâmico é algo "errado", ou obsoleto. Mas, como veremos em baixo, isto não é nada o que eu digo, como resultado dos dados empíricos que compilei para os meus últimos livros sobre este tema. Ou seja, por um lado sim, mostro, com dados empíricos científicos, que em relação à evolução humana, é um pouco "contra-natura". Os primatas são quase todos poligâmicos, e os seres mais próximos de nós, os chimpanzés, têm um modelo polimacho-polifêmea, em que tanto os machos como as fêmeas têm vários parceiros sexuais (geralmente do sexo oposto, mas não sempre, pois a homossexualidade está presente em quase todas as espécies de mamíferos, e os bonobos - uma das duas espécies de chimpanzés - participam frequentemente em relações homossexuais). Similarmente, os povos caçadores recoletores que existiram antes da agricultura em todo o globo, e os que existem hoje em várias regiões do planeta, em geral também são poligâmicos, ou ao menos não tem uma imposição cultural tão forte da monogamia, a qual é em grande parte uma construção social que apareceu sobretudo depois da agricultura.

Rui Diogo
Viriato Soromenho Marques

Da esperança à resistência

O Instituto de Ciências Sociais (ICS-UL) promoveu duas jornadas de reflexão sobre a primeira Conferência das Nações Unidas, realizada em Estocolmo, há 50 anos. Foi a ocasião para recordar, com olhar crítico e preocupações de futuro, os contributos pioneiros dessa conferência para uma consciência planetária sobre a crise global do ambiente. Os seus impactos em Portugal foram especialmente analisados, evocando-se personalidades marcantes como José Correia da Cunha ou Gonçalo Ribeiro Telles. O que me parece mais notável, contudo, é o contraste entre 1972 e 2022.

Viriato Soromenho-Marques
Rosália Amorim

O país não tem dono, mas tem de ter cuidadores

A Constituição da República Portuguesa faz 200 anos. Em 1822, a economia estava em colapso. Citando João Cotrim de Figueiredo, líder do Iniciativa Liberal, no seu discurso, ontem, no Parlamento, "evidência com que não aprendemos", no fundo, "não aprendemos com a história". Ainda assim, a Constituição mudou Portugal, disso não tenhamos quaisquer dúvidas. Deixámos de ser súbditos e passámos a ser cidadãos com direitos e com deveres, claro. O avanço não foi perfeito, nem para os mais pobres nem para as mulheres, mas foram erguidos pilares fundamentais para o estatuto de cidadania. O conceito de soberania popular e a proteção dos direitos fundamentais têm uma marca de água com dois séculos. Na prática, significou a primeira regeneração da nação Portugal.

Rosália Amorim
Rita Alves Feio

Os adultos precisam de ser cuidados?

Sim! Focamo-nos nas crianças e nos idosos como populações que precisam de ser cuidadas, protegidas e capacitadas mas, na verdade, precisamos disso ao longo da vida. Os estudos dos últimos anos demonstram que a população em idade ativa está cada vez mais doente e com poucos recursos para lidar com as exigências atuais em que vivem. Se a escola tem um impacto muito grande no desenvolvimento e proteção da criança, as organizações ocupam esse espaço nos adultos. Com a agravante de que as organizações vivem das pessoas e se estas não estão saudáveis a organização também perde potencial. Segundo dados da Ordem dos Psicólogos Portugueses, em 2020, o desgaste dos profissionais e o burnout em Portugal era alarmante.

Rita Alves Feio