Cartoon Carrilho

Pedro Cruz

Agora não dava muito jeito…

Desde 1985 até hoje - antes disso vivemos quase dez anos em PREC - os sucessivos governos, fossem minoritários, maioritários, de coligação ou de entendimentos parlamentares, sempre garantiram a aprovação de orçamentos. Fosse com abstenções táticas, como Marcelo líder do PSD fez nos tempos de Guterres, fosse com o queijo limiano, com a ajuda de deputados eleitos pela Madeira ou, simplesmente, com a formação de maiorias de ocasião, negociadas caso a caso.

Pedro Cruz
Luís Filipe Castro Mendes

Pavana por uma infanta defunta

Habituei-me a viver longe do meu país todas as grandes e pequenas crises políticas que atravessámos. A informação chegava-nos lá fora como que a preto e a branco, sem espessura e com uma diluída gravidade - e isto mesmo com todos os modernos e instantâneos meios de comunicação de que passámos a dispor. Essa distância afasta-nos da própria comunidade dos nossos amigos e da nossa vivência em comum do que acontece. Quando voltei a viver em Lisboa, entendi como ser de qualquer forma estrangeirado nos afasta impercetivelmente até mesmo daqueles com quem temos mais em comum.

Luís Castro Mendes
Guilherme de Oliveira Martins

Camioneta-fantasma...

Em 1945, quando muitos portugueses alimentavam a esperança de que o fim da guerra permitisse uma abertura política no sentido democrático, o padre Joaquim Alves Correia (1886-1951), missionário do Espírito Santo, que ganhara a alcunha de Padre Larguezas, em virtude do sucesso obtido com o seu livro A Largueza do Reino de Deus (1931), acreditava sinceramente numa sociedade aberta, baseada no respeito mútuo e no pluralismo. E escreveu no dia 23 de outubro de 1945 nas páginas do República um texto que deu brado, intitulado, significativamente, "O Mal e a Caramunha", sobre a chamada "Noite Sangrenta", cujo centenário passou há dias. Nesse 19 de outubro de 1921, a que Raul Brandão chamou de "noite infame", foram assassinados barbaramente por um grupo de amotinados, sem razões claras nem mandantes conhecidos, o primeiro-ministro António Granjo, o fundador da República almirante Machado Santos e o oficial que liderara a revolta da Marinha em 1910, Carlos da Maia, primo por via materna de Antero de Quental. Até hoje essa viagem da camioneta-fantasma por Lisboa a semear o terror está envolta em mistério (ajuste de contas com o sidonismo?), mas foi dos momentos que mais contribuíram para a queda da República.

Guilherme d'Oliveira Martins
João Melo

Misoginia(s)

A discriminação das mulheres no mundo árabe (nuns países mais do que em outros) tem sido um dos tópicos centrais da abordagem de políticos, intelectuais, jornalistas e cidadãos comuns no chamado Ocidente (como se a Terra não fosse redonda...) na sequência da recente retirada americana do Afeganistão e do regresso ao poder dos talibãs. Em parte, tal justifica-se pelo facto de se há forças que levam a discriminação das mulheres até ao grau zero da barbárie, uma delas são os talibãs. Mas será que faz sentido a tendencial simplificação do islamismo produzida pelo pensamento ocidental, a pretexto desse e outros factos?

João Melo
Rosália Amorim

Orçamento Totobola: 1, X, 2

Lembra-se do anúncio, no início dos anos 1990, alusivo ao velhinho "Totobola 1, X, 2"? Qual jogo de sorte, o Orçamento do Estado tem também várias apostas possíveis em cima da mesa. Vejamos: 1 - ganha o PS e o Orçamento do Estado passa; X - o PS empata com o Bloco de Esquerda e o PCP e é obrigado a digerir os golos dos aliados/adversários; 2 - o PS perde e o país vai mesmo ter eleições antecipadas? Como se diz em linguagem futebolística, "prognósticos só no fim do jogo". Assim sendo, o melhor é assinalar cruzes nos três quadradinhos: 1, X, 2.

Rosália Amorim
André Martins

Os caminhos para o desenvolvimento da península de Setúbal  

A criação da NUT III para a península de Setúbal, como forma de garantir mais investimento neste território da Área Metropolitana de Lisboa, tem sido um dos temas que mais se têm destacado no debate político regional. A ascensão deste debate só pode ser entendida como o reconhecimento da profunda discriminação a que sucessivos governos votaram este território e o assumir do erro que o PSD, no governo, cometeu, em 2013, ao extinguir esta unidade territorial, e a omissão do governo PS por não ter ainda apontado soluções concretas para o problema.

André Martins
Paulo Baldaia

Malditos pobres que teimam em ser pobres

Um governo que se diz de esquerda e existe há seis anos apoiado por socialistas e comunistas está no seu estertor preso à dura realidade de não ter sido capaz de mudar estruturalmente a vida dos pobres para que os seus descendentes não tenham de continuar a ser pobres. Reduziu-se a taxa de abandono escolar, o que é um ótimo sinal, mas falta conseguir o passo seguinte que é melhorar a qualidade do emprego para pessoas que chegam ao mercado de trabalho com melhores qualificações.

Paulo Baldaia
Leonídio Paulo Ferreira

Há muito Japão além de Murakami

Haruki Murakami tornou-se um fenómeno em Portugal desde que cá chegou Norwegian Wood e por isso não surpreenderá que o novo livro, uma coletânea de contos intitulada Primeira Pessoa do Singular, se transforme num campeão de vendas. Confirma a notoriedade da cultura japonesa entre nós, seja a nível popular, como é o caso do manga e do anime, seja num plano mais erudito, basta pensar na retrospetiva sobre Akira Kurosawa que no ano passado esteve no lisboeta Nimas ou o ciclo dedicado a mestres desconhecidos do cinema japonês programado para o Cinema City Alvalade em novembro e depois para o Porto.

Leonídio Paulo Ferreira
Joana Amaral Dias

Maior e vacinada me confesso

Fiz um curso intensivo na primeira década do século XXI intitulado: "Os políticos mentem e os cientistas ainda mais". Deixem-me contar-vos essa história. Activista desde os 19 anos, comecei a minha vida política pouco antes da invasão do Iraque, em 2003. Era deputada e a oposição a essa sangria valeu-me uns encontros complicados com a polícia. Durão Barroso era primeiro-ministro, coligado com Paulo Portas. Depois de ser mordomo dessa terrível guerra, selada na Cimeira das Lajes, nos Açores, com José Maria Aznar e Tony Blair, Barroso passou a presidente da Comissão Europeia, depois a presidente da Goldman Sachs. Hoje é presidente da Aliança Global para as Vacinas. A justificação internacional e oficial apresentada foi a existência de armas de destruição em massa. Lembram-se? George W. Bush decidiu invadir o Iraque e Colin Powell validou a operação com uma inesquecível intervenção nas Nações Unidas: "Temos relatos em primeira mão de fábricas de armas biológicas", afirmou esse responsável máximo da diplomacia americana. Durão Barroso também o garantiu na Assembleia da República. Portas jurou ter visto provas insofismáveis. Só que nenhum viu, porque elas nunca existiram. Não foi nenhuma alucinação colectiva, paranóia ou profissão de fé. Foi tão-só e apenas uma mentira colossal destinada a milhões de cidadãos do mundo inteiro. A mortandade prosseguiu mais nove anos. Custou biliões de dólares e milhares de vidas. Seguiu-se uma guerra civil. Eis do que os políticos são capazes.

Joana Amaral Dias
Ivo da Rocha

A Sangrenta Revolta de Setembro de 1895 em Goa

Esta revolta em Goa dos soldados nativos e dos Ranes, em setembro de 1895, iniciou-se por obra e graça do então administrador do concelho das Ilhas, capitão Gomes da Costa (mais tarde, general e iniciador em Braga da Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926) que, primeiro, abusando de poderes, pôs-se a perseguir e a mal tratar um clérigo pio, devoto e santo, o bispo Francisco Xavier Alvares e, logo a seguir, foi o iniciador e instrumento da rebelião dos soldados nativos maratas e, finalmente, foi a causa da sangrenta revolta dos Ranes de Satari.

Ivo da Rocha
António Araújo

Uma dívida moral

Foi um escândalo em Roma, e meteu portugueses. "Casavam-se, macho com macho, durante a missa, com o mesmo cerimonial com que fazemos os nossos casamentos, faziam penitência em conjunto nas festas religiosas, liam o mesmo evangelho das núpcias, e depois deitavam-se e habitavam uns com os outros", assim descreveu Montaigne, de passagem por Itália, um estranho caso ocorrido na Cidade Eterna, corria o ano de 1578. Alertada por mil rumores, a polícia romana irrompeu em força na igreja de San Giovanni a Porta Latina e prendeu 27 indivíduos que aí viviam em permanente orgia homoerótica. Aberto o processo, entre os condenados à morte encontrava-se um português, Marcos Pinto, natural de Viana do Alentejo, que vivia em concubinato com um adolescente espanhol, de apelido López, ainda que partilhasse o leito com outros membros desta bizarra confraria, que chegava a celebrar casamentos de homens com homens, muitos séculos antes de se ousar sequer falar disso.

António Araújo
Anselmo Borges

Crer num Deus imoral?

Apalavra fé vem do latim fides, donde deriva também fiel, fidelidade, confiar, fiador, confiança, confidência. Crer vem de credere, donde deriva também credo, crença, crente, acreditar, credor, crédito. Até etimologicamente, ter fé não significa, portanto, em primeiro lugar aceitar um conjunto de afirmações doutrinais ou dogmas. A fé é, antes de tudo, a entrega confiada a Deus, Fonte originária de tudo quanto existe. Entregar-se-lhe confiadamente como Sentido último de toda a realidade e da existência própria. Como um homem se entrega confiada e amorosamente a uma mulher, como um amigo confia num amigo.

Anselmo Borges
Viriato Soromenho Marques

Obediente a uma lei maior

O acolhimento do diplomata Aristides de Sousa Mendes no Panteão Nacional é um acontecimento cuja importância não pode ser reduzida a uma justa, mesmo que tardia, reparação da República para com um seu funcionário longamente ostracizado. Com efeito, o Estado português há muitas décadas beneficia do prestígio que a heroica desobediência do nosso cônsul em Bordéus, quando em junho de 1940, a escassos dias da capitulação da França perante a Alemanha hitleriana, em colisão direta com as ordens de Lisboa, decidiu emitir inúmeros vistos, em ritmo acelerado, que salvaram a vida a milhares de refugiados, sobretudo mas não exclusivamente judeus. Salazar poderia depois da guerra terminada, com um gesto que nem sequer feriria o culto do moderno ídolo da "razão de Estado", ter retirado o cônsul da situação de indigência material em que a sua expulsão da carreira pública o colocou. Teria sido um gesto que até beneficiaria o regime, mas pelos vistos iria causar uma brecha narcísica insuportável para o então presidente do Conselho. Foi apenas com Mário Soares, em 1987, que o Leviathan luso começou a emendar a mão.

Viriato Soromenho-Marques
Bernardo Ivo Cruz

Internacionalizar a economia precisa de uma PPP

Portugal é uma economia aberta e integrada no vasto mercado europeu, onde o movimento das pessoas, dos bens, dos capitais e dos serviços, dentro de um conjunto de regras comuns e com um mínimo de barreiras, se faz livremente das margens do Atlântico às fronteiras da Rússia. Portugal integra-se igualmente no mercado global que, sem prejuízo para as recentes dificuldades provocadas pela crise financeira de 2008, pelas desconfianças populistas de 2014 e pela pandemia de 2020, tem permitido historicamente atingirmos um nível de crescimento económico e de desenvolvimento social mundial significativo, nomeadamente em continentes e países que estavam afastados das áreas mais desenvolvidas do planeta, contribuindo para retirar milhões de pessoas da pobreza. E, numa economia devidamente regulada e competitiva, os consumidores - cada um de nós - têm acesso a melhores bens e serviços a menores preços.

Bernardo Ivo Cruz
Victor Ângelo

Um perigo disfarçado de Lei e Justiça

Conheço a Marzena há mais de 15 anos. Foi pouco depois da sua chegada a Bruxelas e de começar uma nova vida, a servir a dias nas casas da média-burguesia belga. Viera da Polónia profunda, a dois passos da Bielorrússia - tem, aliás, familiares que vivem num par de aldeias do outro lado do arame farpado, polacos como ela, mas apanhados pelas mexidas feitas às linhas de fronteira no pós-guerra, pelas gentes de Estaline. Com o tempo, viu chegar à Bélgica muitos milhares de outros compatriotas, que hoje trabalham na construção civil, nos serviços domésticos, nas fábricas ou nas múltiplas lojas que, entretanto, foram abrindo um pouco por toda a parte. O dinheiro que estes imigrantes transferem regularmente para a terra natal tem sido um dos fatores da modernização económica da Polónia. O outro está ligado às diferentes vantagens decorrentes da entrada do país na União Europeia em 2004.

Victor Ângelo
Raúl M. Braga Pires

Kadhafi – dez anos

Assinalou-se nesta semana dez anos sobre a morte do coronel Muammar Kadhafi. Figura peculiar a todos os níveis, de tal forma que se tornou no "Samora Machel" da anedota magrebina e árabe. De tal forma que nunca ninguém acreditou numa África sem fronteiras e com moeda única, mas esta ideia promovida por este excêntrico ganhava logo a perigosidade de ser realizável. Kadhafi virou-se para África, precisamente após os outros novos-ricos do Golfo terem percebido o perigo que este representava. Porquê? Porque não se ficava pelas palavras, era um tipo de acção. E em África, depois deslumbrou, tendo sido o principal financiador da reestruturação da Organização de Unidade Africana para União Africana.

Raul M. Braga Pires
Sebastião Bugalho

Sir David Amess (1952-2021). Um cidadão exemplar

Em cinco anos, dois deputados do parlamento britânico foram assassinados por motivações políticas. Jo Cox, do partido trabalhista, foi baleada e esfaqueada até à morte por um neonazi na semana que antecedeu o referendo que levou ao Brexit. O autor do crime foi, na altura, acusado de terrorismo e homicídio, condenado a prisão perpétua. David Amess, do partido conservador, sofreu idêntico destino faz hoje uma semana, esfaqueado por um radical islâmico à saída de uma igreja, no Essex. O autor do crime foi ontem acusado de terrorismo e homicídio "por razões ideológicas e religiosas".

Sebastião Bugalho