Cartoon Carrilho

Shri Kanwal Sibal

A Alteração da Lei da Cidadania Indiana

A Índia alterou a sua Lei de Cidadania de 1955 em dezembro de 2019 para permitir que pessoas pertencentes às religiões hindu, sikh, jainista, budista e cristã que emigraram ilegalmente para a Índia ao longo dos anos, vindas de três países islâmicos vizinhos, nomeadamente, Paquistão, Bangladesh e Afeganistão, adquirissem a cidadania indiana de forma relativamente rápida. A exclusão dos muçulmanos desta alteração foi criticada pela oposição política da Índia, por setores da sociedade civil, grupos de estudantes de esquerda e outros, por ser inconstitucional, enfraquecer o secularismo da Índia e corroer a democracia indiana.

Shri Kanwal Sibal
Ricardo Paes Mamede

Pobres os economistas que não sabem de política

Peçam a um economista escolhido ao acaso que vos indique um exemplo de sucesso entre os países da zona euro. Com grande probabilidade falará da Irlanda, cujo PIB é hoje quase o dobro do que era antes da crise (o português é quase igual). A seguir perguntem-lhe sobre os motivos desse sucesso. Dirá, com certeza, que os irlandeses aceitaram fazer as reformas estruturais necessárias para dar a volta à crise, aceitando cortes drásticos nos salários e mantendo os impostos sobre as empresas a níveis mínimos. Uma história de sucesso, portanto. Isto é, mais ou menos.

Ricardo Paes Mamede
Henrique Burnay

O triunfo dos poucos

Rui Tavares contou, há duas semanas, no Público, uma história deliciosa sobre a ida de Natália Correia aos Estados Unidos da América em 1950. Na altura encontrou-se com Norman Thomas, líder dos socialistas americanos, a quem pediu apoio para a oposição portuguesa a Salazar. Norman Thomas levou a poetisa portuguesa a um subúrbio operário, mostrou-lhe as casas com carro à porta, jardim à volta e eletrodomésticos lá dentro e explicou-lhe que num ambiente assim o socialismo não florescia.

Henrique Burnay
Ferreira Fernandes

Marega no país que o merece

Sou do país em que, ainda há meses, uma varina, no Lavadouro da Afurada, frente à cidade do Porto, abanava as ancas e o avental, suspirava "ó o Marega...", e gritava: "Coisa mai linda não há!" E eu, sinceramente admirado: o Marega, lindo? A varina rapou do jornal O Jogo e beijou-o todo na fotografia da capa. Sou o miúdo que passeava com a mãe pela Avenida dos Aliados, 1958. Cruzou-se connosco um anjo negro vestido como um príncipe, reconheci-o. Empanquei, vidrado: Miguel Arcanjo, o defesa central do clube que nem era o meu, mas o do meu pai, o Porto. Ele pôs-me a mão na cabeça, a minha mãe sorriu-me e sorriu-lhe, eu continuava nas nuvens. Mas ainda disse: "Ele também é de Angola...", a minha mãe não lia o Ídolos do Desporto. E ficaram a falar da nossa terra, eles; eu guardando no cabelo o afago.

Ferreira Fernandes
Anselmo Borges

A morte medicamente assistida e a eutanásia

Não é por acaso que este texto tem por título "a morte medicamente assistida e a eutanásia". É que, em primeiro lugar, nestes debates de vida e de morte, é preciso ser claro e não induzir em erro as pessoas de forma manhosa: morte medicamente assistida é uma coisa, eutanásia é outra... O grande filósofo Hegel lembrou a urgência de conceitos claros, pois "de noite todos os gatos são pardos" e, no meio da confusão, ninguém se entende, e, nessas circunstâncias, em problemas que têm a ver com o limite, o mais provável é cair no abismo.

Anselmo Borges
Adriano Moreira

O Conselho de Segurança

A Segunda Guerra Mundial, cujo fim foi anunciado no dia 8 de maio de 1945, no Jornal francês Le Combat, usando a expressão - "esta imensa alegria coberta de lágrimas" - tudo porque a imagem da guerra descrevia um balanço monstruoso, para o qual a Europa recordava trinta milhões de mortos, a que faltava acrescentar os mal identificados mortos dos campos de concentração que tinham especialmente sido organizados para executar a existência global do povo judeu, uma ideologia racista que cobria todo o passado desse povo que perdera o território Estado que fora seu, mantendo a lembrança da destruição de Massada pelos romanos.

Adriano Moreira

O conselho de segurança

A Segunda Guerra Mundial, cujo fim foi anunciado no dia 8 de maio de 1945, no jornal francês Le Combat, usando a expressão "esta imensa alegria coberta de lágrimas", tudo porque a imagem da guerra descrevia um balanço monstruoso para o qual a Europa recordava trinta milhões de mortos, a que faltava acrescentar os mal identificados mortos dos campos de concentração que tinham especialmente sido organizados para executar a existência global do povo judeu, uma ideologia racista que cobria todo o passado desse povo que perdera o território Estado que fora seu, mantendo a lembrança da destruição de Massada pelos romanos. Carecia somar o ativo e passivo do povo russo, a destruição de bairros inteiros de Londres, e ainda o desastre marítimo de navios, portos e vias navegáveis, um dos capítulos mais dramáticos que historiava as batalhas do Atlântico, que tinham sido uma das razões que determinaram a entrada dos EUA na guerra que finalmente limitaria as capacidades da Alemanha: triunfo marítimo, esmagamento com o bombardeamento aéreo, e finalmente o triunfante desembarque terrestre. Infelizmente a participação da Rússia não correspondia aos objetivos comuns dos restantes vencedores, e por isso vivemos dezenas de anos com duas meias Europas, duas meias Alemanhas, duas cidades de Berlim, até ao derrube do Muro. A necessidade de fortalecer a Meia Europa ocidental não impediu visões que orientavam a separação, e assim acontece com De Gaulle, que, empunhando a sua cruz de Lorena, não desejava que o Reino Unido, um dos libertadores da França invadida e ocupada, pertencesse à política de defesa. Só no dia 1 de janeiro de 1973 a Europa dos Seis se tornou a Europa dos Nove, com a entrada do Reino Unido, Dinamarca e Irlanda, pronta para mais futuras adesões. Um dos acontecimentos mais significativos da por vezes difícil presença do Reino Unido na União em crescimento verificou-se quando, em 3 de dezembro de 1979, a primeira-ministra Margaret Thatcher, analisando a situação financeira, tornou célebre a sua breve frase: "I want my money back." Brevemente, tendo hostilidade da evolução europeia, foi levada à demissão. Quando recentemente, no dia da saída dos deputados do Reino Unido do Parlamento Europeu, erguiam a sua bandeira no desfile, não garantiam que ela continuaria a representar a união dos territórios, designadamente os que tendem a manter-se no projeto europeu. Por seu lado, os EUA, que na Primeira e na Segunda Guerra Mundial mantiveram o interesse das vitórias mas não a veneração da aliança, mantêm uma memória que talvez influencie a política atual do seu governo. Em 1923, a chamada doutrina Monroe impedia a ingerência das antigas potências coloniais no território do continente americano, tendo o presidente Theodore Roosevelt declarado que os EUA assumiam a polícia desde o Rio Grande à Terra do Fogo. Nesta data, feliz com o Brexit do Reino Unido, o presidente absolvido pelo Senado ignora os deveres em que meditavam Correia da Serra e Jefferson, assume as intervenções inquietantes quanto à utopia da ONU, ou simplesmente às regras da diplomacia global, e encontra no princípio, sem definição prévia de conteúdo, America First, a verbalização das suas patrióticas emoções para competir designadamente com a Coreia do Norte, com o Irão, com o Iraque, para negociar com a China de Xi Jinping ou a Rússia de Putin, aceitando lonjuras do desastre de países como Cuba, México, Venezuela, alguma desatenção com o Canadá, com a França e até esquecimento de boa regra para com a monarquia inglesa, quando a visitou, com feliz espera pelo Brexit. Definitivamente, este conceito verbal da America First é difícil que não venha a produzir, como explicou John Micklethwait e Adrian Wooldridge, "a corrida global para reinventar o Estado", ou a imposição da novidade segura de Mark Mazower para "governar o mundo", ou, como tentou George Friedman, organizar programa para "Os próximos 100 anos". Por difícil que pareça, não é tranquilo ter um governante que considere um "triunfo" o facto de o Tribunal Penal Internacional publicar um acórdão assumindo que não investigará crimes contra a humanidade porque nenhum Estado coopera. Não é inquietante que o populismo seja a metodologia da eleição interna do dirigente da mais poderosa potência, mas seria útil procurar uma "governança" para o "globalismo". Não é aconselhável que um povo que organizou o território-sede da maior soberania do mundo esqueça a carta do chefe índio Seattle (1854), em que escreveu: "De uma coisa temos a certeza: a terra não pertence ao homem branco; o homem branco é que pertence à terra." Lembrando o excelente livro de Soromenho-Marques sobre A União Europeia, talvez fosse oportuno que o Conselho de Segurança assumisse avaliar o risco de a utopia da ONU ser uma doutrina abandonada.

Marisa Matias

Sai um offshore

Passou praticamente despercebida a notícia de que a União Europeia colocou nesta semana as ilhas Caimão na lista dos paraísos fiscais. A razão foi o Brexit, e a leitura não poderia ser mais clara. A União Europeia protege e continuará a proteger os seus paraísos fiscais, o que significa que nada mudará nas chamadas políticas de "otimização fiscal" por muito que se acumulem casos atrás de casos. As ilhas Caimão jogaram um papel fundamental nos escândalos associados aos Panama Papers, mas como ainda eram território europeu nada foi feito. Este é um sinal muito importante da falta de vontade em atuar contra o crime financeiro. Se dúvidas houvesse, o recente caso do Luanda Leaks aqui estaria para desfazê-las. É por demais evidente o papel que teve o offshore de Malta, um dos paraísos fiscais europeus, e as consequências são, para já, nulas.

Marisa Matias
Viriato Soromenho-Marques

Quem salvará Sodoma?

O cinema é a arte filosófica por excelência. Uma espécie de estética total, que permite visualizar e dramatizar conceitos e ideias, fazer a razão e o entendimento ganharem rosto, voz e movimento. Quatro filmes recentes atingem o centro nevrálgico da angústia ética da nossa contemporaneidade: O Caso de Richard Jewell, de Clint Eastwood; Dark Waters, de Todd Haynes; Uma Vida Escondida, de Terrence Malick; J'Accuse, de Roman Polanski. O fio que entrelaça esses filmes, pensados e produzidos quase em simultâneo, é o de todos eles celebrarem exemplos reais de grandeza e coragem moral. O advogado Watson Bryant, erguendo-se em defesa de um pobre segurança que estava a ser imolado pela máquinas policial e mediática como bode expiatório do atentado terrorista nos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996). O causídico Robert Bilott, que arrisca tudo para defender as vítimas de um gigantesco crime ambiental, dolosamente cometido e prolongado pela inimputável empresa química DuPont. Franz Jägerstätter, um anónimo camponês austríaco, que se recusa a prestar o juramento de fidelidade a Hitler, pagando com a vida, em 1943, por esse ato que já lhe mereceu a beatificação pela Igreja Católica (2007). O major Marie-Georges Picquart, que ao assumir o comando de um serviço militar de informações se apercebe da conspiração antijudaica no seio das altas patentes militares, no famoso caso Dreyfus (1894-1906). Intimado a calar-se, Picquart, com imensa bravura, tudo faz até conseguir resgatar a vítima inocente da sua agonia perpétua na Guiana Francesa.

Viriato Soromenho-Marques
Maria Antónia Almeida Santos

Sobre a boa morte

Tudo o que envolve a relação entre liberdade e vida é sensível, exigente e complexo e a despenalização da eutanásia - da boa morte - não é exceção. Eu aceito que é possível encará-la à luz das nossas experiências e crenças. Mas não aceito que se projete uma conceção individual (ou de um grupo) no coletivo da sociedade, tendo em vista a obrigatoriedade de um e apenas um entendimento nesta matéria. O debate em torno da eutanásia não é de agora e já vai longo. Só isso já ajudaria a esvaziar de sentido o referendo de que se fala agora e só agora, com o intuito único de travar todo o processo legislativo em curso.

Maria Antónia Almeida Santos
Maria do Rosário Pedreira

Mães e filhas

Já não fui a tempo de brincar com os Nenucos, que se babavam, choravam lágrimas de verdade, davam passinhos, diziam mamã; mas lembro-me dos bonecos chorões dos anos 1960, que tinham um corpo maleável, cabelo a sério (e não apenas pintado na cabeça) e uma data de acessórios irresistíveis, como biberões, babetes e até uma alcofa. Lá em casa, brincávamos muito aos pais e às mães - e decerto replicávamos o comportamento dos nossos pais pensando que estávamos a educar os nossos filhos como bem entendíamos. A brincadeira constituía, de resto, uma espécie de estágio para o futuro, tendo em conta que então se esperava que as meninas se casassem e constituíssem família. Não foi o meu caso, mas conheço quem tenha aprendido a mudar fraldas com bonecos.

Maria do Rosário Pedreira
Ferreira Fernandes

A morte não é para comícios

Os referendos têm um efeito perverso. Mais do que nos convencerem das boas ideias da nossa causa, confirmam-nos as más da outra. São comicieiros. Com os referendos, no fim da discussão, as convicções dos outros revelam-se sempre andar pelas ruas da amargura... Hoje, em Portugal, quando a discussão do referendo sobre a eutanásia ainda vai no adro, e ainda sem saber se haverá referendo, logo a discussão se encafuou na sacristia. Adro e sacristia, está certo, a petição pelo referendo tem sido dinamizada pela Igreja Católica.

Ferreira Fernandes
Mirko Stefanovic

O Plano Americano para a Paz no Médio Oriente

O plano de paz americano para o Médio Oriente, apresentado ao público algumas semanas atrás, é uma contribuição completamente nova para a teoria da negociação e o papel aperfeiçoado do chamado mediador ou "intermediário". Desde a resolução da Assembleia Geral da ONU de 29 de novembro de 1948, que foi o primeiro plano de paz para a questão israelo-palestiniana, muitos planos foram apresentados pelos principais mediadores e nenhum dos quais foi totalmente implementado. A verdadeira paz entre israelitas e palestinianos nunca foi estabelecida e a contínua violência foi apenas pontuada por períodos de calma.

Mirko Stefanovic
Filipe Teles

Os ventos fortes da Suécia

As tempestades podem aproximar-nos das cidades. Os ventos fortes que se fazem sentir no norte do continente, prejudicando uma parte significativa dos voos e dos maiores aeroportos, acabaram por resolver o anunciado problema de chegar à Suécia sem garantia de ligação para Linkoping. Há ventos que sopram no sentido correcto, felizmente. Chego a esta cidade do sul escandinavo com a mesma sensação de visitas anteriores: nada de absolutamente distintivo me aguarda. Uma chegada rápida ao hotel, por percursos incaracterísticos e poucas referências para fixar.

Filipe Teles