Cartoon Bandeira

Filipe Teles

Os hipsters do bairro judeu de Cracóvia

Kazimierz - o antigo bairro judeu de Cracóvia - tornou-se, agora, um lugar onde cada pontapé numa pedra faz aparecer um hipster. Mas o coração do bairro permanece. Na rua Szeroka, que se abre como uma praça onde vários restaurantes de comida kosher, ou apenas de inspiração judaica, somos recebidos com música klezmer ao vivo e não é difícil encontrar o hummus perfeito. A Praça Nova - Plac Nowy - é o verdadeiro coração do bairro, conhecido desde sempre como o lugar certo para street food e onde se pode experimentar a melhor zapiekanka da Polónia. Importa não esquecer o edifício redondo que é conhecido pela forma que tem: Okraglak (edifício redondo, seria escusado explicar).

Filipe Teles
João Céu e Silva

O mundo seria maior sem pontes

Falar de pontes pode parecer um debate estéril, mas sem elas o mundo seria maior e hoje em dia queremos tudo à distância de um dedo. O que diriam os milhares de pessoas que vão passar o fim de semana ao Algarve se não tivessem a Ponte 25 de Abril para os pôr em casa em poucos minutos e fossem obrigados a ir até Cacilhas e atravessar o rio num ferry, com filas pelo meio ou ir por Vila Franca de Xira e fazer o único bocado de autoestrada que então existia em Portugal?

João Céu e Silva
Ferreira Fernandes

Portugal é coiso? Ou Portugal não é coiso?

Vamos lá saber: Portugal é racista ou Portugal não é racista? Então, já agora: Portugal é gatuno ou Portugal não é gatuno? Enfim, para dizer tudo e por atacado: Portugal é ou não é? Eis do que não vou falar nesta crónica. Não vou alimentar o exercício de jornais e redes sociais que preferem a certeza imprecisa do sim ou sopas. Própria do carimbo definitivo, só para açular a conversa. Quando a verdade é mais copulativa: sobre quase tudo, Portugal é e não é. Própria da vontade de encontrar soluções.

Ferreira Fernandes
Maria Antónia de Almeida Santos

Não me estou nas tintas para a Constituição

PremiumA aprovação dos cinco projetos para a despenalização da eutanásia trouxe o consenso necessário para continuar o processo legislativo - ainda longo - que lhe corresponde. Mas não só. Sendo algo comum no Parlamento, no sentido em que tantos projetos (das mais variadas índoles) são também discutidos, esta aprovação em particular, por abordar algo tão sensível e complexo, reforça e ilustra também a legitimidade do legislador e a saúde da própria democracia representativa.

Maria Antónia de Almeida Santos
Marisa Matias

Hanau

Em junho do ano passado, o presidente da província de Kassel sofreu um ataque à porta de sua casa pela sua política de apoio a refugiados. No dia 9 de outubro do ano passado, em Halle, um alemão, de 27 anos, disparou várias vezes à porta da sinagoga da cidade. Seguiu para o cemitério hebraico e disparou, continuou para um restaurante de kebab e disparou. No final, duas pessoas morreram, no que poderia ter sido um massacre. Há cerca de uma semana foi detida uma célula de 15 extremistas alemães que planificavam um atentado em larga escala: um ataque articulado a várias mesquitas no país. Esta semana, foi o horror que se viu em Hanau. Um alemão, de 43 anos, matou nove pessoas e feriu gravemente cinco, antes de se matar, assim como à sua mãe, na sua própria casa. Antes do atentado, publicou um vídeo no Facebook onde detalhava o que ia fazer. As vítimas tinham em comum o facto de serem imigrantes, curdos na sua maioria, um jovem bósnio e uma mulher polaca. Entre as vítimas, estava ainda uma mulher grávida.

Marisa Matias
Maria do Rosário Pedreira

Mascarada

Contaram-me que o poeta e jornalista Fernando Assis Pacheco e a sua família adoravam o Carnaval e - disfarçados com perucas, chapéus e roupas espalhafatosas ou trapalhonas - faziam verdadeiros "assaltos" a casa de amigos e conhecidos que, frequentemente, tardavam a perceber quem tinham à frente. E que uma vez, ficando a saber que em Mérida havia um Carnaval famoso, para lá rumaram com a mala cheia de trajes e adereços, andando mascarados pelas ruas da cidade.

Maria do Rosário Pedreira
João Taborda da Gama

Se a cidade

Por entre os bancos, por entre a turbulência, as mãos dela (e se houvesse palavras para descrever mãos, mas não há) agarradas ao telemóvel, as unhas longas, tratadas mas como se não estivessem, o rolo da câmara, e ela a escolher que fotografias apaga, que fotografias deixa. O dedo seleciona o que fica e o que parte. Por vezes é muito fácil, faz cinco, seis de uma vez, noutras demora mais, hesita, anda para cima, volta abaixo. Quando para numa foto, antes de a aumentar, olha para o lado, para o namorado, para ver se ele está a ver, é discreta, faz bem a coisa, parece treinada.

João Taborda da Gama
Viriato Soromenho-Marques

Médicos e doentes

Não, este não é um artigo sobre a despenalização da eutanásia, mas pode ajudar no lento processo de reflexão a montante, imprescindível para formar uma opinião madura sobre qualquer assunto. Por convite do médico José Poças e do bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, tive a missão de apresentar em Setúbal um livro coordenado pelo primeiro: A Relação Médico-Doente: Um Contributo da Ordem dos Médicos, Lisboa, By the Book, 2019, 755 pp. Trata-se de uma obra muito extensa, rica na diversidade do seu conteúdo - basta referir que para ele contribuíram 81 autores, alguns deles fora do campo médico - e orientada para um alvo concreto: a OM mobilizou-se para uma tarefa visionária iniciada em Espanha, a saber, apresentar à UNESCO uma candidatura da Relação Médico-Doente como Património Imaterial da Humanidade! Mesmo que este objetivo, requerendo uma grande coligação internacional de associações e personalidades, não venha a ser atingido, este livro é um bem em si próprio pelas muitas janelas que abre para o mundo intenso, doloroso e comovente dos laços que a doença cria entre quem precisa de ser cuidado e quem presta esse socorro.

Viriato Soromenho-Marques
Leonídio Paulo Ferreira

O dia em que os soldados brasileiros subiram à colina para dar coça nos nazis

Gritou lá de cima "Castelo é nosso" o tenente-coronel Emílio Rodrigues Franklin, faz nesta sexta-feira 75 anos. O grito foi em português, pois o assalto decisivo à posição nazi no norte de Itália coube à Força Expedicionária Brasileira (FEB), 25 mil militares vindos do outro lado do Atlântico para ajudarem os Aliados a derrotar a Alemanha. Monte Castelo, tomado a 21 de fevereiro de 1945, será uma das vitórias da FEB, junto com outra, em abril, em Montese, novamente em território italiano, novamente contra os nazis, nazistas como se diz no Brasil. Os brasileiros combatiam integrados no IV Corpo do Exército dos Estados Unidos.

Leonídio Paulo Ferreira
Shri Kanwal Sibal

A Alteração da Lei da Cidadania Indiana

A Índia alterou a sua Lei de Cidadania de 1955 em dezembro de 2019 para permitir que pessoas pertencentes às religiões hindu, sikh, jainista, budista e cristã que emigraram ilegalmente para a Índia ao longo dos anos, vindas de três países islâmicos vizinhos, nomeadamente, Paquistão, Bangladesh e Afeganistão, adquirissem a cidadania indiana de forma relativamente rápida. A exclusão dos muçulmanos desta alteração foi criticada pela oposição política da Índia, por setores da sociedade civil, grupos de estudantes de esquerda e outros, por ser inconstitucional, enfraquecer o secularismo da Índia e corroer a democracia indiana.

Shri Kanwal Sibal
Ricardo Paes Mamede

Pobres os economistas que não sabem de política

Peçam a um economista escolhido ao acaso que vos indique um exemplo de sucesso entre os países da zona euro. Com grande probabilidade falará da Irlanda, cujo PIB é hoje quase o dobro do que era antes da crise (o português é quase igual). A seguir perguntem-lhe sobre os motivos desse sucesso. Dirá, com certeza, que os irlandeses aceitaram fazer as reformas estruturais necessárias para dar a volta à crise, aceitando cortes drásticos nos salários e mantendo os impostos sobre as empresas a níveis mínimos. Uma história de sucesso, portanto. Isto é, mais ou menos.

Ricardo Paes Mamede
Henrique Burnay

O triunfo dos poucos

Rui Tavares contou, há duas semanas, no Público, uma história deliciosa sobre a ida de Natália Correia aos Estados Unidos da América em 1950. Na altura encontrou-se com Norman Thomas, líder dos socialistas americanos, a quem pediu apoio para a oposição portuguesa a Salazar. Norman Thomas levou a poetisa portuguesa a um subúrbio operário, mostrou-lhe as casas com carro à porta, jardim à volta e eletrodomésticos lá dentro e explicou-lhe que num ambiente assim o socialismo não florescia.

Henrique Burnay
Ferreira Fernandes

Marega no país que o merece

Sou do país em que, ainda há meses, uma varina, no Lavadouro da Afurada, frente à cidade do Porto, abanava as ancas e o avental, suspirava "ó o Marega...", e gritava: "Coisa mai linda não há!" E eu, sinceramente admirado: o Marega, lindo? A varina rapou do jornal O Jogo e beijou-o todo na fotografia da capa. Sou o miúdo que passeava com a mãe pela Avenida dos Aliados, 1958. Cruzou-se connosco um anjo negro vestido como um príncipe, reconheci-o. Empanquei, vidrado: Miguel Arcanjo, o defesa central do clube que nem era o meu, mas o do meu pai, o Porto. Ele pôs-me a mão na cabeça, a minha mãe sorriu-me e sorriu-lhe, eu continuava nas nuvens. Mas ainda disse: "Ele também é de Angola...", a minha mãe não lia o Ídolos do Desporto. E ficaram a falar da nossa terra, eles; eu guardando no cabelo o afago.

Ferreira Fernandes
Anselmo Borges

A morte medicamente assistida e a eutanásia

Não é por acaso que este texto tem por título "a morte medicamente assistida e a eutanásia". É que, em primeiro lugar, nestes debates de vida e de morte, é preciso ser claro e não induzir em erro as pessoas de forma manhosa: morte medicamente assistida é uma coisa, eutanásia é outra... O grande filósofo Hegel lembrou a urgência de conceitos claros, pois "de noite todos os gatos são pardos" e, no meio da confusão, ninguém se entende, e, nessas circunstâncias, em problemas que têm a ver com o limite, o mais provável é cair no abismo.

Anselmo Borges
Adriano Moreira

O Conselho de Segurança

A Segunda Guerra Mundial, cujo fim foi anunciado no dia 8 de maio de 1945, no Jornal francês Le Combat, usando a expressão - "esta imensa alegria coberta de lágrimas" - tudo porque a imagem da guerra descrevia um balanço monstruoso, para o qual a Europa recordava trinta milhões de mortos, a que faltava acrescentar os mal identificados mortos dos campos de concentração que tinham especialmente sido organizados para executar a existência global do povo judeu, uma ideologia racista que cobria todo o passado desse povo que perdera o território Estado que fora seu, mantendo a lembrança da destruição de Massada pelos romanos.

Adriano Moreira