Cartoon Bandeira

Capoulas Santos anunciou que lidera o Governo do boi

1. Se alguma dúvida havia sobre qual a camisola de Capoulas Santos, ela ficou demonstrada no caso "carne de vaca" da Universidade de Coimbra. Num momento em que Bolsonaroé vexado mundialmente como chefe da Bancada do boi no Congresso brasileiro (com as consequências que estão à vista na Amazónia), o ministro da Agricultura sai da caverna para anunciar ao mundo o seu incómodo pela diminuição do consumo de carne de vaca numa instituição pública pois, como se sabe, as metas da descarbonização são boas para todos, em abstrato, mas depois não se destinam a ninguém em particular. E Capoulas, que já tinha brilhado ao tergiversar sobre a limitação do herbicida glifosato na União Europeia, volta à liça, em contramão com a história.

Daniel Deusdado

Ser e estar numa cidade

240 minutos. É este o tempo para 4.000 pessoas percorrerem o centro de Barcelona. "Vão, vejam, comprem e regressem". Aproximadamente 240 minutos, 4 horas. Sempre mais de 4000 pessoas. Há navios de cruzeiro com maior capacidade. E há sempre mais do que um navio a atracar multidões no meio das Ramblas. Estiveram em Barcelona? Objetivamente sim. E poderão riscar mais uma linha na lista de cidades e países visitados. Mas convém repetir a pergunta: "estiveram em Barcelona?".

Filipe Teles

A "geringonça" salvou a Segurança Social?

O PSD e o CDS propunham no programa eleitoral conjunto para as eleições de 2015 a seguinte modificação na Segurança Social: "Introdução, para as gerações mais novas, de um limite superior para efeitos de contribuição, que em contrapartida também determinará um valor máximo para a futura pensão. Dentro desse limite, a contribuição deve obrigatoriamente destinar-se ao sistema público e, a partir desse limite, garantir a liberdade de escolha entre o sistema público e sistemas mutualistas ou privados."

Pedro Tadeu

PAN (fleto)

Há um mérito que já ninguém pode retirar ao PAN: colocou o ambiente, os direitos dos animais e as alterações climáticas na agenda política nacional. E não é de agora. Começou há quatro anos, quando André Silva conseguiu ser o primeiro deputado do partido a ser eleito para a Assembleia da República e foi conseguindo, ao longo da legislatura, impor algumas das propostas que o partido Pessoas Animais e Natureza tem na sua agenda. Mas o grito do ipiranga do PAN promete ser este ano. Não há político que queira atacar esta agenda, nem jornalista que ouse ignorar o crescimento nas sondagens do partido dos animais. Que o PAN vai crescer eleitoralmente, disso, não tenho dúvidas. Se esse crescimento tem substância, é outra discussão.

Anselmo Crespo

O entorpecimento da humanidade face ao grande embuste global

1. O problema começou muito antes das acções criminosas dos palhaços Trump e Bolsonaro (o primeiro rasgando o Acordo de Paris, de 2015, que Obama assinara, tal como a União Europeia; o segundo a destruir conscientemente a Amazónia - ambos por motivos aparentes de desenvolvimento económico dos respectivos países, e que se lixe o mundo como um todo). O principal objectivo deste Acordo é "travar" o aquecimento global obrigando a medidas que não o deixem chegar aos 2º C, mantendo-o preferencialmente em 1,5º C, e entrando em vigor a partir de 2020.

Miguel Graça Moura

A salto

Um dia desapareceu. Não fez avisos, não deixou carta, nenhuma explicação. Simplesmente deixou de aparecer na loja de tecidos do velho tio que, mais por piedade, o acolhera. António atendia às vezes ao balcão e até encantava as senhoras da boa sociedade provinciana, mas quando a conversa passava para os tecidos a coisa descarrilava. António não distinguia um tweed de um algodão, uma seda de um linho fino, ou de uma chita barata. E o pior, invetivava o tio, irrepreensível no seu fato de bom corte, era que António não queria aprender. O jovem olhava-o com um olhar sonhador, dizia "sim, meu tio", e calava-se.

Filomena Naves

Um debate com muita contabilidade e pouca inspiração

António Costa ganhou o debate desta segunda-feira? Duvido. Rui Rio? Idem. É bem provável que ambos tenham perdido - porque não o jogaram no campo certo. Este era um debate generalista para convencer indecisos, desinteressados, os que estão a equacionar não votar, que não sabem em quem votar, que não veem nenhum interesse em votar. São esses que vão decidir as eleições. Os que podem dar ou tirar a maioria ao PS, os que podem não tornar a provável derrota numa vergonha para o PSD.

Catarina Carvalho

O dinheirinho europeu

Nos dias seguintes à notícia da nomeação de Elisa Ferreira para a pasta dos fundos europeus, só faltou surgirem pelo país fora pequenos altares à Santinha do Feder, com imagens de Elisa Ferreira sob uma nuvem de rotundas e pavilhões gimnodesportivos. A nomeada merece os elogios e a pasta tem importância, mas a dependência nacional destes dinheiros, que podem ser muito úteis, tem um lado grave. E a convicção de que a comissária nos vai beneficiar também não nos fica muito bem.

Henrique Burnay

Francisco em África para o mundo

1. O Papa Francisco voltou a África. Numa viagem de contrastes: por um lado, Moçambique e Madagáscar, dois dos países mais pobres do mundo - Moçambique, com 70% dos 28 milhões de habitantes a viver abaixo do limiar da pobreza, é o décimo mais pobre; Madagáscar é o quinto mais pobre -, e, por outro, a República de Maurício, onde a economia cresce cerca de 5% ao ano, é uma ilha onde fazem férias turistas ricos. Francisco levava na bagagem objectivos essenciais: uma paz duradoura, o cuidado com o meio ambiente, o diálogo inter-religioso, um mundo globalizado justo. Numa visita multitudinária, em todo o lado foi recebido em festa e júbilo, com danças e tambores, como só os africanos sabem fazer.

Anselmo Borges

A ameaça ecológica

A preocupação dominante, mesmo não confessada, dos responsáveis que não esquecem o critério aristocrático que ainda inspirou a distinção concedida aos titulares do direito de veto no Conselho de Segurança tem sido a ameaça dos emergentes em relação à manutenção desse princípio. Os observadores tentam, sem concordância, conseguir um critério de identificação dos tais emergentes, onde não falta a inclusão da China, da União Indiana, até do Brasil, ou da África do Sul.

Adriano Moreira

Uma opinião sustentável

PremiumDe um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

Maria Antónia de Almeida Santos

Bullitt

Dez minutos alucinantes. A perseguição automóvel nas ruas de São Francisco, com a duração exacta de dez minutos e cinquenta e três segundos, é a mais lendária da história do cinema e, quando recordamos Bullitt, é sempre dessa sequência que falamos. Realizado em 1968 pelo britânico Peter Yates, com Steve McQueen no papel principal, o filme parecerá a muitos uma vulgar fita policial, terrivelmente datada, até grotesca. No entanto, Bullitté muito mais denso do que parece, e sobre ele têm sido escritos autênticos tratados em várias línguas, como um, bem volumoso, da autoria dos espanhóis Luis Aragón e Iván Gómez (Bullitt. Un Policía Llamado Steve McQueen. Historia, Análisis, Mito, 2016). Bullitt, sem receio de exagero, é uma obra essencial para compreender a masculinidade contemporânea, as relações homem/mulher, os casamentos e os divórcios, a moda, o sexo, os acidentes de viação que vitimam os adolescentes, até as discussões recentes sobre a malfadada "ideologia de género". Porquê? Por causa do cool.

António Araújo

Os deuses das moscas

PremiumCom a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.

Maria do Rosário Pedreira

Palavras

PremiumNa sua apresentação no início desta semana, Ursula von der Leyen congratulou-se: "Esta Comissão é tão diversa como a Europa." Referia-se, claro está, às pessoas que iria propor para o novo Colégio. A frase proferida é quase um tratado e encaixa perfeitamente no resto do aparato apresentado, mas a Europa é - por boas e por más razões - muito mais diversa do que esta Comissão. É composta por culturas e origens diferentes, por idiomas diversos, por múltiplos credos. Há na Europa uma concentração obscena de riqueza nas mãos de poucos que convivem com milhões de pessoas que vivem ainda na pobreza. Diversidade existe sim, mas ela não está espelhada, nem de longe, na atual Comissão. Estão representadas as diferentes nacionalidades e línguas? Sim. Há paridade de género? Sim. Mas a Europa não é toda branca e de classe média-alta. Muito menos vive toda numa "caixa" cada vez mais isolada do meio onde se insere. Ao afirmar que a Comissão era tão diversa quanto a Europa, Von der Leyen tornou invisíveis milhões de europeus e de europeias.

Marisa Matias

Notas do Japão (III)

PremiumÚltimos desejos para os últimos dias em Tóquio é visitar essas duas marcantes instituições nipónicas do período pós-Showa: a Bershka e o Starbucks. A Bershka porque já se sabe que que não tem o mesmo que lá em Portugal, oh pai menos, oh pai nem venhas, oh pai o que é que tu sabes disso, nunca deves ter entrado numa Bershka. Claro que também não foram sensíveis ao argumento de estarmos em Tóquio, o poder de compra aqui ser diferente, a valorização do iene face ao euro, tudo isto é irrelevante, não por as minhas princesas serem insensíveis às grandes dinâmicas do comércio internacional, que até são, mas porque a ida à Bershka não é para comprar, é só para ver. Claro que é só para ver, incluindo ver em braille, mas nunca é só para ver. Porque vamos lá chegar e vai haver aquelas calças - e eu não tenho calças - e aquele top - e eu já não tenho tops nenhuns -, coisas que só há nesta Bershka, do outro lado do mundo, na cidade mais cara do mundo. Mas o que é isso a comparar com a desgraça de não ter calças e as aulas estarem a começar.

João Taborda da Gama

Envelhecer, entre Almodóvar, o espelho e o SNS

Quando é que começamos a pensar que gostávamos de ter menos uns anos? Em que fase a vida nos parece crescer para trás e encurtar para a frente? Algumas pessoas responderão a estas perguntas com negativismo, acentuando a inadaptação a novos tempos. Outras terão ideia contrária: por vezes percebemos que os desafios a que estamos sujeitos precisavam de mais tempo para os resolvermos do que o que vamos ter. E é nestas duas ideias que se traçam, não só a personalidade de quem vai envelhecendo, como as tendências sociológicas que determinam a forma como olhamos para os mais velhos - e, nelas, as políticas que se seguem a este respeito.

Catarina Carvalho

Kurt Eisner, a injustiça de um esquecimento

PremiumHá muitos anos que considero ser a Alemanha o único país da UE que tem uma política pública de memória séria em relação aos aspetos mais sinistros do seu passado. Em Berlim, para além de tudo o que já existia, é possível visitar num bunker musealizado a exposição Hitler - Como Foi Possível. Em Munique, na cidade que o partido nazi considerava como a sua "capital", existe um excelente Centro de Documentação sobre o Nazismo, de grande valor educativo. Contudo, as recentes eleições estaduais nos estados da Saxónia e de Brandeburgo, em que os neonazis da AfD obtiveram, respetivamente, 27,5% e 23,5% dos votos, mostram que alguma coisa está a falhar. É verdade que no plano federal o sucesso da AfD é bem mais modesto, e que uma parte desse sombrio êxito se liga à herança anterior a 1989, contudo importa ir mais fundo.

Viriato Soromenho-Marques

A falsa polémica sobre o Nosso Modo de Vida

A futura presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs novos nomes aos diversos pelouros do seu governo. Acabou em polémica. Em geral costumo gostar da imaginação ao serviço dos nomes. Se os nomes dos condomínios de luxo são quase sempre pretensiosos (Varandas das Buganvílias...), já os das operações da PJ costumam ser bem esgalhados: chamar Cartas Fora do Baralho a um vulgar desvio de correspondência deram ao caso um não sei quê de poético. O angolano José Vieira Mateus da Graça, quando virou escritor, rebatizou-se Luandino Vieira, o que fez de uma sua condição fundamental, ser luandino (luandense), também sua identidade pública e reconhecida. Para muitos, o nome é acaso, mas outros exigem-lhe mais, um real significado.

Ferreira Fernandes

Alta velocidade, PANdemónio e Elisa no sítio certo

1. E de repente, parece haver um consenso sobre a ferrovia. À esquerda já existia mas Rui Rio também veio anunciá-lo pelos sociais-democratas, uma espécie de sacrilégio. O velho PSD abanou, de que foi exemplo José Miguel Júdice: no seu comentário semanal na SIC Notícias tratou de desfazer o líder do seu ex-partido. E, como se notou por Júdice, interessa pouco o que está em causa. Conta a tática. É um "investimento público colossal e o PSD não devia apoiar algo assim". Ora, talvez para Júdice só faça sentido apoiar grandes empreitadas com parcerias público-privadas que, entretanto, pagamos a peso de ouro até à eternidade (o caso da Brisa e das outras concessões de auto-estradas são flagrantes). Comboios? Que desgraça...!

Daniel Deusdado

A Amazónia e o manejo florestal

A Amazónia com seus 4,8 milhões de quilómetros quadrados do território brasileiro composta por nove estados ( Pará, Maranhão, Rondónia, Roraima, Mato Grosso, Amazonas, Amapá, Tocantins e Acre) sempre foi alvo da cobiça internacional pela imensurável riqueza que possui. Atualmente, vive dias negros com os incêndios descontrolados que assolam o imenso espaço, ameaçando o clima em todos os aspetos. Os governantes dos países Pan Amazónicos: Peru, Bolívia, Venezuela, Colômbia, a Guiana, a Guiana Francesa e o Suriname, preocupados, estudam alternativas visando precaverem-se do horrível desastre ecológico.

Anete Costa Ferreira