Cartoon Bandeira

Os Berardos vão votar. E tu?

Pode haver razões que justifiquem a opção pela abstenção e é preciso dizer que essa é também uma opção de liberdade. Mas se não vamos votar porque acreditamos que nada muda, que tudo está garantido, estamos a cometer um erro de palmatória. Votar faz diferença? Faz.Faz diferença porque nos indignamos com as falências de bancos, com a corrupção de alguns políticos, com a situação dos precários, com o mercado de arrendamento, com a falta de condições para ter uma vida condigna. Faz diferença votar.

Hugo Carvalho

Como se educa sem "nãos"?

"O meu filho não aceita um não!" é uma expressão muito comum entre os pais. Na maior parte das vezes, ouço-a como um lamento. Como se os pais me quisessem dizer que os seus filhos deveriam ser mais cooperantes do que aquilo que são na forma como deviam parar, quase sem protestarem, diante dos nãos dos pais. Ora, um não é sempre uma circunstância de conflito entre duas pessoas - assumida por uma delas - que "chocam de frente" quando cada um dos seus dois sins não coincidem. Um não é uma reacção a um dado comportamento de um filho [...]

DN Life

A derrota do filho do papá, do netinho da avó e do bisneto prodígio

Há duas formas de olhar para o resultado das eleições indianas: ver Narendra Modi como o grande vencedor ou ver Rahul Gandhi como o grande derrotado. E sem tirar mérito ao atual primeiro-ministro, cuja fama de bom gestor vem dos tempos de ministro-chefe do Gujarate, é cada vez mais óbvio que a força de um apelido, a pertença a uma dinastia, já não chega para alguém triunfar na Índia. Isto mesmo que o candidato se chame Rahul Gandhi e seja filho de Rajiv Gandhi, neto de Indira Gandhi e bisneto de Jawaharlal Nehru, o primeiro-ministro que proclamou a independência em 1947, grande amigo do Mahatma Gandhi.

Leonídio Paulo Ferreira

Aprender a relaxar é uma ferramenta para a vida

Ainda o avião não descolou e já um senhor na fila de trás respira de forma ofegante. Com as mãos ao peito e um olhar assustado, inspira e expira a toda a velocidade. Preocupados, os passageiros ao seu lado perguntam em que podem ajudar, ajudam-no a tirar a gravata e fazem soar a campainha, pedindo socorro desenfreadamente. O assistente de bordo aproxima-se e, com uma voz melodiosa, pede repetidamente para o passageiro se acalmar. Alguém traz água e incentivam-no a beber pequenos goles. E é então que, entre a água que se entorna, uma senhora que grita "eu também tenho [...]

DN Life

Mon chéri

"Nestas serras o esquecimento está cheio de memória." A cem quilómetros de Cáceres, na Extremadura espanhola, a placa junto ao miradouro é daquelas que fazem pensar. A vista para as tais serras impressiona. Esta é terra de cereja, é o Vale do Jerte, a área de maior produção de cerejas de Espanha, com mais de um milhão e meio de árvores. E é a terra de um dos maiores massacres da história de Espanha. Mirador de la Memória é o nome daquele ponto de vista pejado de estátuas. Foi idealizado por Francisco Cedenilla Carrasco e é uma homenagem às vítimas da Guerra Civil Espanhola e da ditadura franquista. As imponentes estátuas têm marcas de balas do tamanho de cerejas. Em 2011, três anos depois da inauguração do espaço, pai e filho vieram aqui praticar tiro ao alvo, insatisfeitos com a democracia. Vandalizaram o miradouro a tiros de caçadeira. O Agrupamento de Cooperativas do Vale de Jerte tem mais de 3500 sócios, representa 80% da economia local e chega a uma média anual de 15 milhões de quilos de cereja. Feitas as contas, são cerca de 50 milhões de euros arrecadados por ano, fruto (que melhor palavra?) das vendas para o mercado espanhol e internacional. A Ferrero vem aqui buscar cerejas para as enfiar dentro de um bombom de chocolate inundado por licor. É um dos campeões de vendas da marca em cada Natal. E a cada Natal recorda-se por estas terras o 25 de dezembro de 1937, quando um grupo de 60 guardas civis fuzilou 34 homens no campo de tiro de um quartel de Cáceres, a cidade-museu da Extremadura. Eram professores, sindicalistas, militantes de partidos democráticos. E nem o alcaide da cidade escapou. Nos dias seguintes, a cifra chegou às 196 execuções. No tempo das cerejas, que não se esqueça o passado.

Ricardo Santos

A mosca da cereja que veio do Japão para o Fundão

Com Dum Dum não escapa um. Mata moscas, melgas e mosquitos. Recordo-me da embalagem do spray e do cheiro intenso que iria gasear o mosquedo da quinta dos meus avós. Era presença indispensável no cabaz de compras da minha avó Piedade quando se ia aviar à loja do Ti Chico Ferrador, na estação dos comboios de Castelo Novo, aos pés de granito da serra da Gardunha. No cabaz vinham ainda a cera búfalo, o tulicreme e o pão da "arraia". Era o princípio do verão, o junho do nosso contentamento. As tardes ficavam longas e quentes e as moscas começavam a sua lenta invasão, zumbindo em sonolência molengona a perturbar a sesta. A minha avó gaseava-as com "remédio para as moscas". O meu avô Manel preferia um método mais sustentável. Enrolava o Jornal do Fundão como se fosse um taco de basebol e pumba, sem dó nem piedade, acrescentava vírgulas e pontos finais esborrachando-as na capa do JF . Isto no tempo em que os jornais tinham outra utilidade, ou pelo menos alguma. Depois vieram outros métodos drosomicidas, como os sacos de água pendurados à porta ou os esturricantes aparelhos de néon, mas nunca nada foi tão eficiente como o Jornal do Fundão nas mãos do meu avô. Era junho e o ar cheirava a cerejas, que pintavam as árvores cor de rubi e se depenicavam em malgas com água fresca. Não haverá nunca sabor como o dessas cerejas, as dos meus avós. Eram pequenas mas carnudas, com lábios de beijos ternos. Também gostávamos de cuspir os caroços para o quintal para ver se mais nasciam. Quantas mais se cuspiam, mais nasciam. O princípio dos verões na quinta dos meus avós era o tempo das cerejas e das moscas. Agora as moscas são uma das grandes ameaças ao ouro vermelho do Fundão. A insaciável mosca tem nome de moto japonesa, chama-se Drosophila suzukii e, reza a lenda, veio a esvoaçar do Japão, onde a cereja é fruto sagrado de samurai, de vida breve mas intensa. No Japão, as cerejeiras chamam-se sakuras. Existem mais de 600 tipos de sakura, com flores rosa, branca e amarela. As cerejas japonesas chamam-se sakuranbo e são também um símbolo de amor erótico. Há uma sakura com mais de dois mil anos chamada jindai zakura. Tem mais de dez metros de altura e reza a lenda que foi plantada pelo imperador Takeru. Do Japão, voam charters de turistas para o Fundão para ver as cerejeiras em flor e o nosso "hanami beirão" (cerejeiras em flor). E se os turistas são que nem moscas, parece que as moscas do Japão aterraram no Fundão. A voraz suzukii, também conhecida como mosca-da-asa-manchada ou mosca-do-vinagre, é uma praga que perturba a produção de cereja na Cova da Beira. A glutona nipónica perfura o fruto aurífico, colocando lá os seus ovinhos que geram larvas e se alimentam do fruto da nossa seleção, até ele tombar podre e inútil. Há vários meios de combater o mosquedo, mas nenhum seria tão eficaz como o Jornal do Fundão nas mãos do meu avô ou a metralhadora Dum Dum nas mãos da minha avó.

Rui Pelejão

Porque estão as pessoas a marimbar-se para as europeias?

Sim, eu sei que está farto de ver políticos em arruadas, feiras e mercados. Que já não há paciência para as danças ridículas, para as voltinhas de bicicleta - ou de helicóptero - e para o político que decide tocar bateria, só para garantir que aquela imagem se torna viral. Bem sei que já não se aguentam os discursos inflamados e a reação à reação do outro que disse o que não queria dizer. Eu sei que temos todos bons motivos para não ligar nenhuma às eleições europeias. Mas se o erro de pensar assim não é nosso, as grandes vítimas da abstenção seremos nós.

Anselmo Crespo

Novo grande jogo na Ásia Central: UE versus russos vs chineses

Com quatro milhões de quilómetros quadrados, a Ásia Central ex-soviética quase iguala em território a União Europeia. Seria, pois, de esperar que o novo acordo de parceria entre os cinco países da região e os 28 Estados membros da UE, que será ratificado em Bishkek (Quirguízia) a 7 de julho, representasse uma torrente de oportunidades para ambos os lados. Não é certo que assim aconteça, pois os cinco países centro-asiáticos são atraídos por outros polos de poder, como a Rússia, com a qual têm fortíssima relação histórica, e cada vez mais a China, cujo projeto Uma Faixa, Uma Rota promete investimentos.

Leonídio Paulo Ferreira

'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

Anselmo Borges

A crise política da União Europeia

A Guerra de 1914 surgiu numa data em que a Europa era considerada como a "Europa dominadora", e os povos europeus enfrentaram-se animados por um fervor patriótico que a informação orientava para uma intervenção de curto prazo. Quando o armistício foi assinado, em 11 de novembro de 1918, a guerra tinha provocado mais de dez milhões de mortos, um número pesado de mutilados e doentes, a destruição de meios de combate ruinosos em terra, mar e ar, avaliando-se as despesas militares em 961 mil milhões de francos-ouro, sendo impossível avaliar as destruições causadas nos territórios envolvidos.

Adriano Moreira

Ui, o André Ventura!

Esta semana correu bem. Confirmou-se a radiografia que nos fazem e fazemos de nós: pegamos de cernelha. Vocês sabem, lá fora mata-se o touro, caça-se imigrantes ou vota-se por isso... Já nós somos um povo uno, sem guerras internas vai para dois séculos, somos, enfim, uns suíços que ainda por cima não são maçadores. Nesta semana, uma anunciada extrema-direita morreu na praia como uma alforreca. Nem era uma man-of-war, daquelas de tentáculos com poderes urticantes, era, afinal, só gelatina.

Ferreira Fernandes

Eles e nós, também no discurso europeu

Há um subdiscurso nestas eleições europeias que se queixa da falta de atenção para as questões que esta votação pode influenciar. É um discurso de certa forma elitista, que corre entre jornalistas, políticos e nas redes sociais onde estes se movimentam e peroram. Mas tem razão. Não, estas eleições não são uma antecâmara das legislativas. Não vão definir a cor do cartão que será passado ao governo. Nada disso. Estas eleições definirão quem vai mandar no Parlamento Europeu e, de certa forma, influenciará o tipo de União que será a europeia, daqui para a frente.

Catarina Carvalho

Aos 16

Rezam os Estatutos do Pessoas-Animais-Natureza, mais conhecido como PAN ou o partido dos animais, no artigo sétimo, dedicado às "Companheiras e Companheiros de Causas", que "todas e todos os cidadãos de nacionalidade portuguesa ou residentes em Portugal, de idade igual ou superior a 14 anos e menor que 18 anos, que pretendam colaborar com o PAN, podem solicitar o estatuto de companheira ou, nome bonito (adjetivo masculino, não confundir com o tunídeo, et pour cause), de Companheiros e Companheiras de Causas (CCC) - e calculo que nos comícios adaptem a toada da JS e digam é cê, é cê, é cê, é cê-cê-cê.

João Taborda da Gama