Cartoon Bandeira

Rui Raposo

Vinho de Vidigueira – Um Vinho do outro Mundo

Efetivamente, no concelho de Vidigueira a Vitivinicultura sempre esteve presente, assumindo uma importância inquestionável, no que concerne à economia local e à cultura das suas gentes. O Município de Vidigueira tem vindo a trabalhar, arduamente, na promoção e divulgação do vinho do Concelho de Vidigueira, como um produto turístico, promotor de desenvolvimento económico, com a vista ao alargamento a novos mercados, não só nacionais, mas internacionais.

Rui Raposo
Leonel Gonçalves

O Arquivo do ​Diário de Notícias e​m questão

. Desde há vários anos que as alterações na propriedade do DN têm conduzido a interrogações sobre o Arquivo do jornal, especialmente entre pessoas ligadas à comunicação social. No almoço de confraternização, que os antigos empregados do DN realizam todos os anos, no dia do aniversário do jornal, o tema tem sido sempre largamente abordado, como, aliás, já tinha sido a questão do edifício da Avenida da Liberdade, que motivara até a aprovação de um documento. E eis que surge agora um Requerimento, assinado por dois antigos Presidentes da República e figuras prestigiadas da comunicação e da cultura, solicitando a classificação urgente do Arquivo do DN. Esta designação, usual na Imprensa, compreende a Biblioteca, Hemeroteca, Filmoteca, Fototeca e um conjunto de obras de arte.

Leonel Gonçalves
Sofia Colares Alves

Recuperar com sustentabilidade

Estamos a viver uma crise provocada por um risco que não pudemos identificar, prever e preparar atempadamente. A crise da Covid-19 adquiriu moldes desconhecidos e imprevisíveis para todos e está a provocar sofrimento que é urgente minorar. Outras crises se avizinham e uma delas é, não só, previsível, como exige uma ação urgente para evitar catástrofes no futuro próximo. Estou a falar, naturalmente, da crise climática cujo combate é prioridade da Comissão Europeia através do Pacto Ecológico Europeu.

Sofia Colares Alves
Margarita Correia

E ainda bem!

A variação é uma característica das línguas. Todas as línguas variam em função de tempo, geografia, condição social ou contexto de uso. Todas as línguas apresentam variação, com exceção de línguas como o latim e o grego clássico, que hoje já não variam porque são línguas mortas, mas que tiveram variedades distintas em épocas, lugares e contextos distintos. A língua portuguesa não é diferente das demais línguas vivas e, como tal, apresenta variação. E ainda bem!

Margarita Correia
João Lopes

Para acabar com o cinema em Portugal

Por princípio, evito comentar a actualidade cinematográfica em função da minha própria experiência enquanto jornalista e crítico. Ainda assim, perante a carta das empresas distribuidoras de cinema, associadas da FEVIP, dirigida ao ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, permito-me dar conta de um ponto de vista pessoal: considero o cinema dos EUA uma importantíssima área de produção, certamente com muitos contrastes e diferenças de valor; na prática, ao longo das décadas da minha actividade profissional, desde as atribulações temáticas e estéticas dos anos 70 até ao presente, sempre encontrei na produção americana - dos grandes estúdios aos mais remotos independentes - muitos dos títulos mais fascinantes do cinema de cada época.

João Lopes
António Araújo

Uma educação sentimental (2)

Eu não sou eu. Evelyn Waugh não era ele, porventura por perseguir o sonho de ser Charles Ryder, a personagem principal da sua obra-prima, Brideshead Revisited/Reviver o Passado em Brideshead. A história de uma família e de uma casa, e de um homem no meio de tudo aquilo. Como ele, Evelyn, ao observar o declínio e a queda dos Lygon, senhores de Madresfield Court. O patriarca dos Lygon, Lord Beauchamp, tivera uma trajectória fulgurante, abandonando o Partido Conservador, a que seu pai pertencia, para se tornar um dos mais activos representantes dos liberais na Câmara dos Lordes. Aí, interveio sobre os mais diversos assuntos, do comércio livre ao tabagismo juvenil, passando pela vivissecção dos animais ou pelo trabalho feminino. Foi governador da Nova Gales do Sul e, durante o seu mandato como chanceler da Universidade de Londres, esta tornou-se o primeiro estabelecimento de ensino superior a abrir as portas às mulheres, além de conceder apoios para que os alunos de menores recursos continuassem a estudar. Antes disso, Beauchamp fora eleito em 1895 mayor de Worcester, o primeiro nobre inglês a ser escolhido pelo voto para um cargo público desse género. Tornou-se um membro activo do London Board of Education e manteve a tradição, iniciada pelo seu pai, de realizar uma feira agrícola anual em Madresfield, a mesma que aparece no enredo de Brideshead Revisited e na série televisiva com o mesmo título.

António Araújo
Henrique Burnay

Não basta haver muito dinheiro europeu

Há duas grandes diferenças entre o anúncio de Merkel e Macron, feito na segunda-feira passada, e o que a Comissão Europeia tinha antecipado e deverá ser, finalmente, apresentado esta semana: falaram os patrões e disseram quanto estavam dispostos a gastar. Ou, se quisermos ser mais diplomáticos, falaram os principais acionistas e deram um número. Sendo que um deles, a França, até tem mais fraquezas internas que muitos dos acionistas minoritários, mas é a França.

Henrique Burnay
Paulo Rego

Arquivar a histeria

O súbito imperativo ético de salvar o arquivo do Diário de Notícias - aliás, do Global Media Group (GMG) - dos seus proprietários, é uma narrativa que roça a patetice, com tiques ideológicos caricatos e um profundo desrespeito por uma empresa que há décadas investe no tratamento e preservação de um espólio que, de facto, é património nacional, venha ele a ser classificado - ou não. A inaudita histeria, caída de um bloco aos trambolhões, envolve uma mão cheia de veneráveis - outros, candidatos a tal - que pedem ao Estado a classificação do arquivo, alegando estar este em perigo. Uns, quiçá, bem intencionados; todos mal informados por quem os expõe a uma notória falta de senso. A verdade dos factos, a qualidade da informação, a liberdade de expressão, o direito de resposta, da ética do negócio... património tão ou mais importante que o do arquivo, atira-se às urtigas, com uma leveza, essa sim, constrangedora. Cabe-me agradecer ao presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, que em conversa comigo - à época, administrador executivo do GMG - disponibilizou o Arquivo Sophia de Mello Breyner para guardar mais de 150 anos de História da imprensa portuguesa. Pois é... Aos agentes da campanha, que a tratam de forma inquinada, sabendo que o espólio estará seguro, em local climatizado, e certificado, pergunto onde está a origem - e o verdadeiro objetivo - do melodrama. Estivesse o arquivo a submergir às cheias do Douro, a arder numa qualquer fogueira de vaidades, corroído em desgraça... eu próprio alertaria o Estado. Talvez até me aliasse aos peticionários; ou melhor, a um crowdfunding... Durmam em paz os arautos da desgraça. Não há drama algum com o arquivo. Percebam, a propósito, que o GMG já provou estar disponível para partilhar esse valor, que é seu, mas que o país merece; está mais que interessado em digitalizá-lo, para consulta fácil e eficaz; quer oferecer gratuitamente o acesso a quem precisa - investigadores e estudantes - e, até, rentabilizá-lo, junto de quem pode, para investir na valorização dos documentos. De resto, há instituições interessadas nisso; tratando o tema com recato, e sem agendas que não lhes pertencem. Vejo isso, de forma lata, como parte da independência dos Média, da responsabilidade social, da liberdade empresarial... diria mesmo, simplificando, do bom senso. Escrevo a título meramente pessoal; naturalmente, com a consciência de quem representa um acionista de referência. Esclareço: não tenho nada contra a preocupação com o arquivo, aplaudo o reconhecimento do seu valor; e nunca me oponho a debate público algum. Julgo, até, ser merecida a classificação patrimonial, desde que não ponham em causa os legítimos interesses do proprietário, nem o empurrem para agendas fora de tempo, desfocadas e desvirtuadas. O primeiro compromisso de todos e cada um dos grupos Média, nesta altura, é com a valorização das suas marcas, a defesa do jornalismo e do seu papel insubstituível, num contexto muito difícil para a indústria, o país, e o mundo em geral. Esse é o património que me foca dia e noite. Acho, no mínimo, caricato - e esclarecedor - que se acene o fantasma da falência, erguendo a salvação do arquivo como farol da salvação civilizacional. Não se preocupem. Há quem esteja empenhado em tudo o que verdadeiramente importa, antes daquilo que nunca esteve, nem está, em perigo. O arquivo está guardado; bem tratado - e tem dono. Outros, como o arquivo fotográfico do Comércio do Porto, estão em Vigo ao deus dará. Mas como já nada aí se joga, já ninguém se lembra de jogar ao património... Deixo uma nota à direção do jornal Público, que respeito, profissional e pessoalmente. Primeiro, não publicam esclarecimentos enviados pelo Pedro Tadeu, diretor do arquivo em causa, contrapondo a visão desinformada da redação - e suas fontes; a seguir, negam publicar o direito de resposta, a pretexto do tamanho previsto na lei e outros argumentos ainda menos compreensíveis. Sempre em frente, até ao abismo, ainda exigem a indignação como único lugar da expressão... É um péssimo serviço a todos nós. Mas, em primeira mão, aos vossos leitores, que merecem pensar por si próprios, com acesso a todos os dados e fontes informadas. O jornalismo, de facto, é uma atitude. Não é um formalismo, nem uma narrativa... muito menos um referendo corporativo. Não tenho responsabilidades editoriais no GMG. Tenho-as no Plataforma, que está a relançar-se, com novo site, nova direção e novos modelos. Cometeremos erros, tentaremos corrigi-los; ouviremos sempre toda a gente; por maioria de razão, profissionais com o mesmo calibre. A concorrência, legítima e saudável, não pode excluir o sentido de urgência, que nos é comum, na defesa difícil e complexa da afirmação do jornalismo. Se falhamos na nossa essência, os leitores não precisam de nós; bem podem "papar" petições nas redes sociais. O arquivo GMG está bem - e recomenda-se. Muita coisa tem de mudar nos Média. Faço parte de uma geração que tem de se reinventar; não estou isento de erros nem rejeito responsabilidades. Veremos quem cá fica a defender o jornalismo. Os outros andam aí... mas o interesse é outro.

Paulo Rego
Luís Nuno Rodrigues

A gripe, o presidente Wilson e a ordem internacional

Em 1918 e 1919, o mundo conheceu uma fortíssima pandemia de gripe que seria designada por "gripe espanhola". A pandemia teve fortes efeitos e repercussões nos vários níveis da atividade humana e em diversas regiões do globo. Mais pessoas morreram devido à gripe do que à I Guerra Mundial, que tinha começado em 1914. E quando os líderes das potências vencedoras da I Guerra Mundial se sentaram à mesa das negociações, em Versalhes, para definir as condições da paz, os efeitos da gripe continuavam a fazer-se sentir e o vírus acabou por condicionar a evolução das conversações.

Luís Nuno Rodrigues
Rogério Casanova

O naufrágio de Saleiro

Quando descrevemos uma série de televisão como "má", o que queremos dizer é que se trata de uma série de televisão em que algumas coisas mal feitas acontecem. O número de coisas mal feitas pode ser maior ou menor, mas o veredicto é sempre probabilístico e não binário, e uma das consequências da histórica migração de recursos (criativos e económicos) para o sistema de produção televisiva nos últimos 15 anos é que esse intervalo probabilístico se tornou cada vez mais reduzido. A acumulação de talento técnico e de orçamentos milionários impede preventivamente o aparecimento de séries muito más - tal como dificulta (por motivos apenas aparentemente paradoxais) o aparecimento de séries muito boas; a adesão generalizada a uma fórmula de efeitos visuais e narrativos funciona como rede de segurança, mas também como telhado invisível.

Rogério Casanova
Anselmo Crespo

Quarteto dos 3 Políticos Marcelo e Costa

Se formassem uma banda, desafiariam até os ouvidos menos sensíveis, mas só ouvia quem queria. Mas como são quatro dos mais relevantes protagonistas políticos do país, o caso é mais sério. Nas últimas duas semanas, António Costa, Rui Rio, Marcelo Rebelo de Sousa e Mário Centeno montaram um verdadeiro festival de jogadas políticas. Lembra-se do Quarteto dos 3 Irmãos Pedro e Paulo? No palco principal, hoje temos o Quarteto dos 3 Políticos Marcelo e Costa.

Anselmo Crespo
Viriato Soromenho-Marques

Hamilton ainda não se avista

A nossa insaciável necessidade de boas notícias, perante o espetáculo de uma União Europeia (UE) que se arrasta à beira de uma crise em aceleração, levou algumas boas almas por essa Europa fora a saudar o projeto de um fundo de recuperação, apresentado em videoconferência pela chanceler Angela Merkel e pelo presidente Emmanuel Macron, a 18 de maio, como sendo um "momento Hamilton" europeu, uma quebra por Merkel do seu tabu contra uma "união de transferência".

Viriato Soromenho-Marques
Marisa Matias

Globalização infetada

A globalização neoliberal, tal como a conhecemos, determina que as relações sociais são definidas pelo mercado, mas não de qualquer forma. Não basta simplesmente integrar as regras do comércio, importa eliminar todos os obstáculos à livre competição de interesses no mercado. Para se sobreviver neste mundo globalizado, é preciso ser-se mais competitivo do que o vizinho, quer se trate de uma pessoa, de uma empresa ou de um país. A solidariedade social deixa de ser a norma e, se cada pessoa é vista como um "recurso", os cidadãos passam a ser consumidores ou clientes.

Marisa Matias
Maria Antónia de Almeida Santos

O vírus do nosso descontentamento

"A pandemia acabou com a ideia de que os responsáveis políticos sabem o que fazem." A frase é do ex-presidente Barack Obama e vai fazer história, como outras que tem proferido. É algo enigmática e é bastante mais do que apenas uma crítica velada a Donald Trump. A crítica tem toda a razão de ser. Alguém que, sabendo que padece de obesidade mórbida, recorre à hidroxicloroquina como se fosse canja de galinha (pensando que se não fizer bem, mal não fará) não sabe, de facto, o que faz. Infelizmente, não é o único e o mundo da lusofonia também tem os seus exemplos. Jair Bolsonaro tenta replicar os modos de atuação de Trump e radicalizar a tradicional influência cultural, política e religiosa que os EUA têm no Brasil. A semelhança nota-se até nas demissões polémicas, de que a atriz Regina Duarte é exemplo recente, digno até das suas telenovelas, mas sem final feliz.

Maria Antónia Almeida Santos
Adriano Moreira

Os riscos globais

A agressão a que a humanidade está submetida, com esta situação amargurante da pandemia, implica talvez assumir a responsabilidade, somando avisos que tiveram uma evidência, fácil de compreender, que tornou perigosamente desafiantes os riscos avaliados, designadamente, desde 1989. O problema da igual dignidade dos povos sempre pareceu, na realidade internacional, mudar de designação a hierarquia das comunidades e o sentido plural que ganhara a expressão "protetorado", o principal deles afastando a ideia de relação entre um Estado e uma colónia, mas sendo antes um conceito de proteção do crescente desenvolvimento social, económico e político, que tornaria a independência possível.

Adriano Moreira
Ferreira Fernandes

A felicidade vai desabar sobre os homens, vai

Eu falava com um amigo brasileiro. Brincava com ele, um bocadinho com aquela mania de que é possível brincar com tudo... Eu brincava sobre um assunto, o presidente deles, convencido de que, sendo entre amigos, não havia acinte. E este, de facto, não me era cobrado pelo meu amigo. Mas vi-o triste. Percebi então o sentido daquela frase feita: não se fala de corda em casa de enforcado. Eu brincava sobre o calhau, aquele que não é só ególatra como Trump, mas burro, burro, como só ele, Jair Messias Bolsonaro.

Ferreira Fernandes
Leonídio Paulo Ferreira

Alguém que não goste de Jacinda?

A primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, deve andar entre os líderes mais populares do mundo, mesmo governando uma pequena nação dos antípodas. A sua ideia de uma semana de trabalho de quatro dias para dar oportunidade à população de conhecer o próprio país foi recebida com aplauso geral, e muita gente gostava que não fosse algo só para os kiwis, o petit nom dos cinco milhões de neozelandeses. Com o país fechado para evitar a covid-19 - uma luta tão bem-sucedida que na sexta-feira houve um caso depois de quatro dias sem notícias de novos infetados -, a intenção é salvar a indústria turística nestes tempos de pouca vontade de fazer voos transcontinentais.

Leonídio Paulo Ferreira
Daniel Deusdado

Erradicar o vírus é impossível. Libertem as praias

Sucesso é ter zero casos? Pois, ouvindo-se as notícias, parece. Podem fechar-se indefinidamente países para não entrar a covid? A Nova Zelândia tem dinheiro para isso. A Madeira e os Açores, com o seu "sucesso" de zero casos novos, podem fazer o mesmo?Quantos meses conseguem viver sem qualquer turismo? Se o vírus não vai desaparecer, é preciso aprender a viver com ele e deixar a imunização acontecer, sempre de forma controlada. Mas a vida tem de seguir aos poucos.

Daniel Deusdado
Margarita Correia

As migrações, a escola e a língua 

Consultei o site da Direção-Geral de Educação e surpreendi-me com a quantidade de materiais sobre o ensino de português como língua não materna. Quem era professor no inícios dos anos 90 lembra-se certamente da quantidade de meninos que não falavam português ou para quem o português não era a língua falada em casa, que subitamente surgiram nas salas de aulas, filhos de imigrantes sobretudo de países da ex-esfera soviética. A questão foi tema de discussão, de investigação. Para os professores era muito perturbador não saber o que fazer com aquelas crianças (a que chamaremos, "visíveis), como as apoiar, como as integrar. A presença de meninos não falantes de português nas escolas não era nova, porém. Durava há décadas, mas até então não se havia prestado atenção ao facto, até porque os meninos, a que chamaremos "invisíveis", que não falavam português ou não o tinham como primeira língua, eram ou filhos de imigrantes de países de língua oficial portuguesa e, portanto, haveriam de saber português, ou filhos de emigrantes e, portanto, também haveriam de saber português. O destino de muitos "meninos invisíveis" estava praticamente traçado à partida. Quase todos oscilavam entre ser envergonhados, inseguros, e acusados de não participar, de perturbar as aulas. Muitos reprovavam consecutivamente, em silêncio, até desistirem da escola. A maioria nunca dominou a língua escrita e nem a norma padrão do português. Raros foram os que frequentaram ou concluíram cursos superiores. Quase todos acabaram por não concluir sequer o ensino obrigatório, por não adquirir competências que lhes permitissem ter bons empregos e aspirar à mobilidade social. Os "meninos visíveis" eram em tudo contrários aos seus antecessores. Bem comportados, intervinham nos trabalhos da aula, rapidamente ganhavam confiança, em si mesmos e dos professores. Quase todos se integravam na comunidade escolar e muitos eram elogiados pelo bom comportamento, sentido de responsabilidade, trabalho árduo, apesar das evidentes dificuldades linguísticas. A maioria aprendeu a dominar com mestria a língua escrita e a norma padrão. Raros foram os que reprovaram ou desistiram, ou que não frequentaram cursos superiores. Para a maioria das famílias dos "meninos invisíveis", a origem não era fator de orgulho, os filhos sempre constituíram um problema sem solução e a escola que eles frequentavam um lugar inóspito, incompreensível, intimidante. As famílias dos "meninos visíveis" ostentavam a sua identidade, a língua e cultura maternas (ao ponto de as ensinar fora do espaço escolar), consideravam os filhos a sua principal prioridade e o seu sucesso escolar inevitável, e a escola um parceiro, um espaço familiar. Hoje, Portugal é um país multilingue e multicultural, casa ou refúgio de gentes diversas; delas e das suas crianças, felizmente. O país progrediu muito sobretudo a partir dos anos 80, também em termos de educação. Os "meninos invisíveis" ganharam visibilidade à boleia dos "visíveis". . A comunidade escolar tem mais meios para apoiar estas crianças. Os professores estão hoje mais conscientes, recetivos e bem preparados para acolher o multilinguismo e a multiculturalidade dos alunos, e para ensinar português de formas diferentes A escola portuguesa não é perfeita e nunca o será, mas é hoje mais igualitária, inclusiva e apta. E a língua portuguesa vai-se tornando mais forte, porque língua e educação são duas faces da mesma moeda, a do desenvolvimento humano.

Margarita Correia