Cartoon Bandeira

António Araújo

A conquista do inútil

Ele há mesmo coincidências, ou coisa que o valha, pois, que eu saiba, existem não um, nem dois, mas nada menos do que três livros com o título A Conquista do Inútil ou Os Conquistadores do Inútil. Um, académico, de Jean Kempf, sobre os fotógrafos dos conflitos americanos na viragem do século XXI; outro, porventura o mais conhecido (e até cá publicado, na magnífica colecção de literatura de viagens da Tinta-da-china), de Werner Herzog, sobre a atribulada rodagem do filme Fitzcarraldo nos confins da Amazónia; e o último, de Lionel Terray, sobre os heróis que primeiro escalaram os grandes picos, dos Alpes aos Andes, da Patagónia ao Anapurna.

António Araújo
Joana Amaral Dias

Há mais verdade num meme

Quem odeia o Nord Stream (NS)? Os EUA. Quem ditou sanções às construtoras do Nord Stream? Os EUA. Quem afirmou que o Nord Stream será bloqueado logo que seja considerado necessário? Os EUA. Quem sabotou então o Nord Stream? A Rússia? Num outro meme escarnece-se ainda: a Rússia investiu milhões no NS, navegou despercebidamente em águas hipervigiadas e, logo no dia em que os EUA testavam drones subaquáticos, pronto: destruiu o seu próprio gasoduto! Enfim, sem ser rir, há quem responda que à Rússia não bastaria apenas fechar a torneira porque só assim, rebentando tudo, lançaria o caos, esquecendo-se, inclusive, que estes pipelines eram o mais poderoso instrumento de pressão de Putin contra as sanções da UE.

Joana Amaral Dias
Sebastião Bugalho

A nossa Truss

Devo um agradecimento a António Costa. Esta semana, graças à sua bem-disposta prestação parlamentar, a minha hesitação sobre a escrita deste artigo esfumou-se. Desde a ascensão de Liz Truss a primeira-ministra que ponderava dedicar esta coluna à comparação entre a circunstância dos governos português e britânico e dos seus respetivos partidos. Ambos, afinal, estão no poder há muito tempo; talvez demasiado, para o seu próprio bem. À primeira vista, ensaiar um paralelo entre eles - os socialistas portugueses e os conservadores ingleses - poderia parecer descabido. À segunda, nem por isso. E o sr. primeiro-ministro fez por prová-lo no debate de quinta-feira.

Sebastião Bugalho
Pedro Patacho

Um Estado digno não pode sufocar as escolas de Ensino Especial

Com voluntarismo populista, que ignorou a realidade das escolas públicas, apagou-se, da terminologia docente, a adequada expressão Necessidades Educativas Especiais. Em sua substituição, apresentou-se uma categorização com três tipos de medidas: universais, seletivas ou adicionais. Com isto, anunciou-se uma escola pública inclusiva, onde todos, independentemente da gravidade dos seus problemas, teriam lugar. Não é verdade. Porque um lugar sem meios, nem recursos, para responder às necessidades não inclui - exclui.

Pedro Patacho
José Mendes

Putin vai tremer

Não foi tão apoteótico como em março. Mas os tiques propagandísticos continuam lá, bem entranhados no modus operandi de Vladimir Putin. Esta semana, depois de assinar os tratados de anexação de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia, algo equivalente a cerca de 15% da Ucrânia, o presidente russo apresentou-se num palco perto do Kremlin, onde decorreu um concerto musical, e presenteou os milhares de pessoas aí presentes com as mensagens de propaganda que pensa fazerem dele um líder mítico: "A vitória será nossa!", "Bem-vindos a casa!", "A Rússia não abre só as portas de sua casa às pessoas, ela abre o seu coração".

José Mendes
Daniel Deusdado

Porquê Santarém? Por que não Santarém?

Indo direto à conclusão: esta semana percebeu-se que Santarém está na lista das possíveis localizações do aeroporto para enganar meninos. Soubemos que os "Engenheiros" já escolheram Alcochete, o mesmo os "Economistas". Santarém, liderado por um tipo com uma ideia (portanto um idiota, em linguagem nacional) anda por aí a fazer perder tempo a toda a gente. A Barraqueiro aparece envolvida, mas saltará logo que o poder sinalize a aventura como aposta inoportuna. Ainda assim, é intrigante: porque tratam tão mal a startup do dr. Brasão?

Daniel Deusdado
Shiv Kumar Singh

Gandhi e os princípios hoje

A grandeza de um mestre não é só por causa dos seus ensinamentos, mas sim também devido aos seus discípulos e seguidores. O mestre ou um grande inspirador para as grandes figuras da humanidade como Nelson Mandela, Martin Luther King, Desmond Tutu de muitos outros foi Mohandas Karamchand Gandhi (2 de outubro de 1869, Porbandar, Índia - 30 de janeiro de 1948, Nova Deli, Índia) que é mais conhecido por Mahatma Gandhi. O título de Mahatma foi-lhe concedido por outro grande humanista e universalista e primeiro prémio Nobel da Literatura fora da Europa, Rabindranath Tagore, em 1913.

Shiv Kumar Singh
Joana Petiz

Ultrapassados pela direita

Seis anos da geringonça socialista carregada às costas pela extrema-esquerda e oito meses de maioria absoluta depois, como está a Saúde? Somamos meses de Urgências caóticas, com sucessivas demissões nas direções hospitalares por falta de meios, de condições e de profissionais para cuidar dos que recorrem ao SNS. Vê-se zero organização ou planos a médio-longo prazo para resolver problemas acumulados nesses anos em que a preocupação da tutela se manteve ancorada na certeza soviética de que a Saúde tem de ser pública, inflexível no fim das unidades geridas em PPP - que funcionavam bem para os doentes e para o Estado -, pondo em risco acordos com privados e setor social que serviam aqueles a quem o SNS não conseguia acudir. A resposta ao que era urgente foi esperar três meses para nomear um CEO e dar-lhe a tarefa de refazer a prazo o que antes se implodira. Pelo caminho, tentou-se impor aos profissionais a escolha entre hospitais e privado e agrilhoar um número deles ao serviço público. A solução da esquerda nunca foi melhorar as condições para que tivessem vontade e capacidade de ficar pelo SNS.

Joana Petiz
Raúl M. Braga Pires

Burkina Faso: Um golpe inoportuno!

O golpe deste 30 de setembro no Burkina Faso, em nada difere do de há oito meses do Tenente-Coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, agora derrubado pelo Capitão Ibrahim Traoré, sendo aqui que reside a diferença, na patente mais baixa, no que também se pode qualificar de geração mais nova. Mas isso é da vida! No que nada difere é na justificação para o golpe, já que o recém-criado Movimento Patriótico para a Salvação e Restauração (MPSR) acusa a Junta de Damiba não conseguir estancar o problema do jihadismo e falta de segurança, precisamente o que Damiba invocou há oito meses para derrubar o Presidente Roch Kaboré, reeleito para um segundo mandato em 2020.

Raul M. Braga Pires
Victor Ângelo

Os avanços da extrema-direita europeia: um novo normal?

Em abril, num total de 199 lugares, Viktor Orbán passou a contar com 135 eleitos no Parlamento húngaro. Nas Legislativas de junho, o partido de Marine Le Pen saltou de 8 para 89 deputados. Há cerca de três semanas, o partido ultradireitista Democratas Suecos conseguiu 20,5% dos votos e a coligação conservadora de que faz parte obteve a maioria na Assembleia Nacional da Suécia. Agora, em Itália, a extrema-direita e os seus aliados conseguiram eleger cerca de três vezes mais deputados e senadores que o centro-esquerda. O partido de Giorgia Meloni, o grande vencedor destas eleições, passou de 4% dos votos em 2018 para 26%. Esse partido, Fratelli d"Italia, foi o mais votado, apesar de as suas raízes serem de inspiração fascista.

Victor Ângelo
Raúl M. Braga Pires

"Islamizar" a Democracia!

Há muito que penso sobre isto, sobre a imposição de um modelo político estanque concebido fora e imposto dentro. Ainda no contexto do Curso de Estudos Africanos que hoje termina no Instituto Universitário Militar, a Professora Edalina Rodrigues Sanches, do ISCTE-IUL, referiu, na sua comunicação da passada terça-feira, a necessidade de "africanizar a democracia", a partir da sugestão do cada vez mais respeitado economista-diplomata bissau-guineense Carlos Lopes. Foi nesse momento que "me caiu esta ficha" que me permite voltar à Tunísia, por exemplo, para tentar explicar, de novo, porque é que o recente processo de transição constitucional neste país magrebino entra na normalidade islâmica, mas também na anormalidade ocidental e, por isso mesmo, foi alvo de críticas, bem como se projectou no Presidente (PR) Kais Saied um novo Ben Ali.

Raul M. Braga Pires
António Capinha

Putin Apocalypse Now?

Esta sexta-feira é suposto que Putin fale no Parlamento russo para anunciar oficialmente a anexação dos territórios ucranianos ocupados de Donetsk, Lugansk, Zaporijia e Kherson. Trata-se de tentar na secretaria o que o líder russo tem perdido no terreno. Anexações ilegais, não-reconhecidas pela comunidade internacional, feitas à margem do Direito Internacional em territórios que apenas estão parcialmente ocupados por Moscovo. E muito vazios de população.

António Capinha
Miguel Romão

A nossa Polícia Judiciária

Nesta semana houve pelo menos uma boa notícia: o reforço da capacidade da Polícia Judiciária (PJ), com a entrada em funções de quase 100 novos inspetores. E, especialmente, o planeamento de novas entradas para os próximos anos, da forma como qualquer recrutamento para serviços públicos deveria ser feito, aparentemente com previsão, tempo e cuidado. Nada disso se deve, infelizmente, creio, a nenhum político ou a nenhuma política, apesar da necessidade da sua condescendência e da sua vontade de correr para a fotografia. Imagino que se deva sobretudo a Luís Neves, o diretor Nacional da PJ, e à sua direção, alguém que não só sabe o que faz como sabe como fazer.

Miguel Romão
Leonídio Paulo Ferreira

Fé na América

Os portugueses são juntamente com os polacos os europeus que mais fortemente identificam os Estados Unidos como o grande ator geopolítico global, opinião partilhada por dois terços da população, segundo o relatório Transatlantic Trends 2022, agora divulgado. Portugal foi um dos 14 países inquiridos neste estudo do German Marshall Fund of the United States e da Bertelsmann Foundation, que contou com o apoio da FLAD. À pergunta sobre qual o mais influente ator nos assuntos internacionais, 67% dos inquiridos portugueses responderam os Estados Unidos, só abaixo dos inquiridos americanos (86%) e canadianos (68%) e em igualdade com os polacos. Nos restantes países europeus da NATO que participaram, esta identificação dos Estados Unidos como ator mais forte varia entre os 66% na Lituânia e os 56% em Itália.

Leonídio Paulo Ferreira
Mark Cliffe

A maior ameaça do risco climático está nos extremos

Há muito que os cientistas alertam que as alterações climáticas afetarão adversamente os padrões do clima e as condições de vida em todo o mundo. Esses avisos estão agora a transformar-se numa realidade dolorosa. Pior ainda, o leque de resultados possíveis provou ser cada vez mais uma situação de alto-risco: eventos climáticos extremos, como ondas de calor, tempestades severas e inundações, são mais prováveis do que as estatísticas normais poderiam prever.

Mark Cliffe
Pedro Marques

Mudar a contratação de professores

Não conheço ninguém da minha geração a quem um professor não tenha marcado o percurso de vida de um modo significativo. É, sem sombra de dúvidas, uma profissão que transforma a sociedade e que tem de ser valorizada. Decisiva para a continuação dos bons resultados da escola pública no reforço das qualificações e combate ao abandono escolar. Penso que a proposta do governo de alteração do processo de colocação de professores dá passos na direção certa.

Pedro Marques
Isabel Capeloa Gil

A Ponte

O tempo é de incerteza, mas a falta de aspiração endémica do país, também não ajuda. Uma inflação galopante, a ameaça de um conflito à escala global, a que se somam as alterações climáticas, e as micro-desgraças do dia a dia, parecem apenas demonstrar que, quando a alma é pequena, nada vale a pena. Compensamos o desânimo com o refúgio à sombra do manto acolhedor do Estado, que transforma magros apoios em alavancas perenes de um sistema social, político e económico reconciliado com a mediocridade. E que torna esses apoios justamente estruturantes da atividade económica num país onde, há décadas, nada se passa sem o beneplácito do poder político. A maior conquista deste sistema endémico é, podemos dizê-lo, uma colonização do ânimo e da subsequente capacidade de aspirar.

Isabel Capeloa Gil
Leonídio Paulo Ferreira

Já não se brinda a Estaline

Estive há umas semanas em Gori, a cidade de Estaline. Ainda lá está a casa onde nasceu e também o museu que lhe é dedicado, afinal estamos a falar do homem que liderou a União Soviética durante três décadas. Georgiano, de seu nome de batismo Iossif Vissarionovitch Djougachvili, começou por ser chamado Sosso em criança, Koba no início das atividades revolucionárias e finalmente Estaline, ou "homem de aço", quando se começou a aproximar do topo do aparelho comunista, que acabaria por tomar apesar da desconfiança de Lenine, o homem que transformou o Império Russo no primeiro país comunista do mundo.

Leonídio Paulo Ferreira
João Melo

As eleições no Brasil também nos dizem respeito

É já no próximo domingo, 2 de outubro, que os brasileiros serão chamados às urnas para escolherem o presidente da República, assim como os novos senadores, deputados federais e estaduais e governadores. A escolha do primeiro é o que mais tem mobilizado a atenção da opinião pública internacional. O facto justifica-se, desde logo, pela importância do Brasil, pois, afinal, trata-se do maior país da América Latina, o maior país de língua portuguesa e uma das principais economias do mundo, fazendo parte do grupo de potências do chamado Sul Global.

João Melo
Ana Paula Laborinho

OPI ANA PAULA LABORINHO -- Salvar o nosso futuro

Para o mundo diplomático, o mês de setembro é marcado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, acompanhada de forma longínqua por grande parte dos cidadãos. Este ano a guerra da Ucrânia dominou as intervenções dos líderes mundiais, com presenças e ausências escrutinadas pela comunicação social e pelos debates públicos. Para nós, portugueses, não nos pode ser indiferente o trabalho do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, limitado na sua intervenção pela vontade dos países, mas conseguindo usar todos os meios para superar barreiras quase intransponíveis, como recentemente aconteceu com o transporte de cereais da Ucrânia ou a libertação de civis do complexo de Azovstal. É um esforço silencioso e muito lento, de que gostaríamos de ver mais resultados, mas a diplomacia requer tempo, muita resiliência e discernimento.

Ana Paula Laborinho
Francisco George

Pobreza - Doença - Pobreza

É preciso falar sobre pobreza. Pois, são muitos os portugueses que estão em risco de pobreza ou de ficarem na condição de socialmente excluídos. Estimativas já de 2022 calculam que são mais de 2,3 milhões de pessoas. O equivalente 22% da população. Uma dimensão incompreensível em regime democrático. Inadmissível. Intolerável. Quase 50 anos depois da Aclamação da Democracia, ninguém pode aceitar tal magnitude da pobreza. Nem concordar com a sua persistência. Nem ser indiferente a tanta desigualdade.

Francisco George