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Pedro Tadeu

O jornalismo sobre a covid-19 é corrupto?

Um dos anúncios está titulado assim: "Procuro ENTREVISTADOR/REPÓRTER". A seguir, vem o texto: "Assegurar a elaboração de reportagens, entrevistas, num tema específico relacionado com saúde, desenvolvendo investigação, reportagens e entrevistas." São pedidas: carteira profissional de jornalista, licenciatura ou mestrado na área, competências vídeo, capacidade de análise e comentário e, ainda, "seleção, revisão e preparo definitivo das matérias jornalísticas a serem divulgadas".

Pedro Tadeu
Rosália Amorim

Venha de lá a primavera!

Um inverno duro, chuvoso, rigoroso, fechado. Os portugueses já sonham com uma primavera que traga boas notícias, desconfinamento e alguma estabilidade. A primavera é tempo de confiança e esperança, de reenergizar e de renascer e, por vezes, assinala pequenas grandes revoluções. Não será uma "primavera árabe" (expressão criada para designar a onda de protestos que marcou os países árabes a partir do final do ano de 2010) a que é esperada para já em Portugal, mas um reinício no campo social, económico e político.

Rosália Amorim
Guilherme de Oliveira Martins

O Campo de Ourique

Luís Alves Dias foi a alma da Livraria Ler de Campo de Ourique, uma das lojas lisboetas com história. Costumava dizer que o bairro é o nosso Quartier Latin. Tinha razão. A memória de muitas personagens ilustres dá cor à ideia. Mas a história tem algo mais que se lhe diga. Nos mapas anteriores ao terramoto, grande parte dos terrenos do atual bairro eram chãos rústicos de quintas com searas e olivais, além das olarias e da fábrica de telha e tijolo... Chamava-se Campo de Pousos. O centro da urbanização foi o quartel, iniciado em 1758 - com camaratas, casa da pólvora e logradouros. A instalação de um campo de manobras deveu-se a D. Lourenço de Lencastre e Noronha, descendente do conde dos Arcos, 5.º marquês das Minas. Era um centro de mercenários, pois não havia serviço militar obrigatório. É o mais antigo edifício militar de Lisboa construído de raiz. A designação deve-se à invocação pelo marquês das Minas do milagre de Ourique - presente nas quinas de Portugal.

Guilherme d'Oliveira Martins
Afonso Camões

A nova Arca de Noé

Cansados da pandemia e tolhidos pelo confinamento, atiramos a cabeça às nuvens e sonhamos com a próxima viagem. É nesse espírito que a União Europeia acelera a criação de um "passaporte sanitário" para salvar a campanha de verão. Eufemismos à parte, o "certificado digital verde", como prefere chamar-lhe António Costa, visa facilitar a livre circulação no contexto da covid-19 e atestar se o seu portador foi vacinado, se tem anticorpos ou deu negativo em teste recente.

Afonso Camões
Marcelo Rebelo de Sousa

A pandemia em quatro palavras

Passa agora um ano sobre o começo da pandemia em Portugal. Tendo vindo de fora, tendo começado mesmo fora da Europa, chegou à Europa e depois a Portugal. Quatro palavras muito breves nesta solicitação que me foi dirigida por um conjunto de órgãos de comunicação social que aceitei por uma razão muito simples. Porque um deles é o Jornal de Notícias que cobre a região norte e centro-norte do continente e foi aí que começou, precisamente, a pandemia. Há, portanto, uma razão que é uma razão justificativa forte para a escolha deste órgão de comunicação social e do grupo em que se integra.

Marcelo Rebelo de Sousa
Rosália Amorim

Um ano de um novo (a)normal

Portugal assinala hoje um ano de pandemia. Quando surgiu o primeiro caso de covid-19 no país caíram por terra as convicções de que "o vírus chinês" não chegaria a terras lusitanas. Essas conceções ruíram, e com elas a economia, a sociedade - onde se inclui a saúde e a educação - e a política, tal como as conhecíamos até março do ano passado. Encetou-se então uma nova era. As posições políticas extremaram-se, os populismos engordaram e o centrão uniu-se em autodefesa.

Rosália Amorim
Margarita Correia

Da literacia em todos os domínios do saber

Alexandre Quintanilha concluiu uma brilhante intervenção parlamentar, durante a discussão do estado de emergência (a 25/02), sentenciando: "Promover o conhecimento e a literacia em todos os domínios do saber será sempre a forma mais eficaz de lutar contra a insegurança, o medo e a mentira." Não se pode estar mais de acordo com a totalidade da intervenção, que tanto enobreceu a sessão, nem deixar de perfilhar os princípios expressos nesta frase lapidar. A expressão "literacia em todos os domínios do saber" pode, porém, suscitar alguma estranheza, visto que, pela forma da palavra "literacia", associamo-la geralmente apenas a leitura, literatura, língua escrita. De resto, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (2001) terá sido o primeiro dicionário português a registar "literacia", atribuindo-lhe dois significados ("capacidade de ler e escrever" e "condição ou estado de pessoa instruída").

Margarita Correia
Henrique Burnay

A construção do interesse europeu

A Europa precisa de reforçar as suas capacidades de defesa e assumir maiores responsabilidades pela sua segurança, declararam os chefes de Estado e de governo da União Europeia, no final do Conselho Europeu da semana passada. Ao mesmo tempo, três antigos primeiros-ministros europeus sugeriram, num editorial publicado num daqueles jornais que só se leem em Bruxelas, que a Alemanha cancelasse o projeto Nord Stream 2 (o gasoduto que a ligará à Rússia) e que os restantes europeus indemnizassem os alemães pelos custos dessa decisão, fundamental para o que defendem dever ser a política europeia face a uma das suas maiores ameaças: a Rússia.

Henrique Burnay
Javier Solana

Construir de base uma coligação de democracias

Por todo o mundo, a democracia está em retrocesso. Em 2020, o Índice de Democracia, publicado pela Economist Intelligence Unit (EIU) desde 2006, caiu para o nível global mais baixo de sempre. Este desenvolvimento não pode ser atribuído exclusivamente às restrições impostas devido à pandemia, pois as classificações estão em queda livre desde 2015. Portanto, não é surpreendente que, no seu primeiro discurso de política externa como presidente dos Estados Unidos, Joe Biden tenha acentuado a necessidade da salvaguarda dos valores democráticos em todo o mundo.

Javier Solana
Damasceno Dias

As narrativas e a aprendizagem

Nos tempos que correm, com a fratura que se tem sentido na manutenção da cultura organizacional, sobretudo neste período em que as relações se estabelecem de forma remota, as narrativas podem ser contributos preciosos para os diagnósticos que visem captar informações acerca de normas e valores organizacionais, como ferramentas de gestão para envolver as pessoas no processo de endogenização do conhecimento, e como meios para ajudar as pessoas a visionar realidades futuras potenciais das interpretações criativas do passado. Ligando situações do passado, do presente e do futuro, as narrativas são capazes de produzir condições liminares entre realidades atuais e as possibilidades futuras, construindo uma ponte entre a realidade que ajuda as pessoas a lidar com a ambiguidade e a mudança e, assim, ajuda a criar condições estruturais novas e a reorganizar o nosso campo percetivo.

Damasceno Dias
Rosália Amorim

Vacinar, sim. Defraudar expectativas, não

O que mais desejamos, além do fim da pandemia? Uma vacina. Rápida, eficaz, indolor. Os atrasos das farmacêuticas na entrega das vacinas à Europa trouxeram desânimo. Os adiamentos surtiram um efeito terrível em termos sociais e económicos. Agora, numa tentativa de reatar a confiança - e acreditando que, desta vez, as produtoras de vacinas vão cumprir com as entregas - , a União Europeia informou ontem que estima que em meados de março "tudo vai funcionar normalmente" na produção e na distribuição de vacinas contra a covid-19 nos Estados membros. Pela voz da comissária da Coesão e Reformas, Elisa Ferreira, soubemos que "a expectativa é que dentro de duas, três semanas, tudo vá funcionar normalmente com os níveis de produção e de distribuição muito mais fortes do que até agora". A comissária acredita que à medida que se alcance a "velocidade de cruzeiro" os países terão de concentrar-se na "capacidade" de administrar as vacinas à população, porque irão "chegar, chegar e chegar". A Europa deu luz verde a três vacinas, mas já admite recorrer também à fórmula russa, desde que se sujeite à verificação da Agência Europeia de Medicamentos.

Rosália Amorim
Jorge Gonçalves

O engasganço metropolitano

A notícia passou despercebida, mas um jornal de circulação nacional de 28 de janeiro de 2021 trazia um artigo intitulado "Península de Setúbal vê-se novamente arredada do acesso aos fundos comunitários" onde se informava que estes municípios, designados muitas vezes como a Área Metropolitana de Lisboa-Sul (AML-S), sentiam que o próximo quadro de financiamento comunitário os irá mais uma vez prejudicar porque não tiveram a possibilidade de, em tempo útil, se voltar a constituir em NUTIII (a NUT é uma unidade territorial, com vários níveis, adotada na UE para fins estatísticos e também para efeitos de financiamento comunitário). Separar-se-iam, neste caso particular, do resto da AML e, assim, poderiam fugir à condição de território desenvolvido aos olhos da União Europeia.

Jorge Gonçalves
Ana Leal de Faria

O Ensino da História em Jorge Borges de Macedo

No centenário do nascimento de Jorge Borges de Macedo (JBM), recordo o professor que foi e para quem o ensino da história implicava uma responsabilidade que ultrapassava as pesadas exigências críticas e científicas da investigação histórica; envolvia uma outra forma de responsabilidade, sobretudo humana, pelo que considerava não ser lícito falar do seu ensino ao de leve, por meras conjeturas, ou inspirado por novidades mal avaliadas, palavras com que iniciou a conferência "O Ensino Liceal da História e as Exigências Universitárias" (1969), apresentada no Liceu Pedro Nunes.

Ana Leal de Faria
Fernando Alves

Beija-flores no Instagram

Vadiando no minguado ecrã em que o mundo é plano mas cheio de abismos, encontrei o sorriso de Paulo Bonino, 93 anos, antigo vendedor de jacarandás e locutor de muitas rádios, fotógrafo do vasto Espírito Santo, por terra e ar. A história de meio século da cidade portuária de Vitória foi captada por ele, lá do alto. Poucos lhe pedem meças na tão invocada "visão de helicóptero", mesmo se a mulher o proibiu de voar em tal engenhoca. "Já num teco-teco", conta Bonino, "ela nunca reclamou". Mergulho o torpor peripatético a pique pelos abismos, arredondo-me no desmesurado mundo que o sorriso de Bonino abarca. O que me prende ao nome e ao sorriso, em incerta prosa de gazeta, é uma legenda: "Paulo Bonino, fotógrafo de beija-flores."

Fernando Alves
Rogério Casanova

Deixar a Britney em paz

2007 foi um ano especialmente produtivo no subgénero de fenómeno moderno conhecido nos tablóides de língua inglesa como celebrity meltdown. Como todas as categorias culturais inventadas, esta tem as suas regras e protocolos informais, os seus estatutos, o seu panteão, o seu bestiário de imagens representativas - e 2007 preenche muitos dos espaços no formulário: Amy Winehouse foi hospitalizada pela primeira vez; Paris Hilton e Kiefer Sutherland dormiram uns dias na prisão por conduzirem alcoolizados; Lindsay Lohan passou grande parte do ano a entrar e a sair de clínicas de reabilitação; Alec Baldwin insultou a filha de 11 anos num telefonema gravado; Pete Doherty foi expulso de casa por não pagar renda, e fotografado a intoxicar pinguins no jardim zoológico de Londres. Um ano atarefado, cujo mote fora dado em Fevereiro, quando Britney Spears invadiu um salão de cabeleireiro (numa cidade chamada Tarzana) e rapou o seu próprio cabelo enquanto câmaras a filmavam pela janela. Quando, dias depois, agrediu um paparazzo com um chapéu-de-chuva, o incidente pareceu quase um anticlímax.

Rogério Casanova
José Mendes

O risco dos especialistas

As crises têm o condão de destapar ativos que, de outra forma, permaneceriam na sombra, longe dos holofotes e, frequentemente, longe das decisões. A história está pejada de exemplos, um pouco por todo o mundo. Em Portugal, temos ainda bem viva a romaria de especialistas de economia que se atropelavam nas páginas dos jornais ou nos estúdios de televisão e de rádio durante a crise da dívida pública de há dez anos. Desde o ano passado, repete-se a revelação de novo exército de especialistas, agora versados em pandemias, vírus, confinamentos e até desconfinamentos.

José Mendes
Sebastião Bugalho

A vacina portuguesa contra a covid-19

Talvez nenhum episódio tenha antecipado o momento nacional que vivemos como o da greve dos motoristas das matérias perigosas, no final do verão de 2019. Se recuarmos e lhe oferecermos a devida atenção, facilmente o reconhecemos. Ver o governo do Partido Socialista, sustentado ainda em toda a esquerda, vergar um sindicato com a ajuda das Forças Armadas foi uma irónica vénia de António Costa a um certo ator de Hollywood, cuja carreira terminou na Casa Branca. Igualmente cómico é recordar o desnorte do governo, perante um país em risco de ficar sem combustível nas gasolineiras, admitindo não ter dado pelo e-mail onde constava o aviso de greve na mesma semana em que inaugurava a Agência Portuguesa do Espaço, o que terá tornado Portugal a primeira potência espacial no planeta com problemas em abrir o correio eletrónico.

Sebastião Bugalho