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Bayer-Monsanto não se livra do cancro no glifosato

O jornal francês "Le Figaro" noticiava há dias, na primeira página do seu suplemento económico, um acontecimento relevante para as bolsas europeias. Pelos vistos, há um problema com essa potência mundial alemã chamada Bayer. E tudo começou pela estratégia, aparentemente ousada, de adquirir a norte-americana Monsanto, uma das empresas mais contestadas em questões ambientais. O reflexo aí está: a compra custou aproximadamente 560 mil milhões de euros há pouco mais de um ano, mas, por causa dos processos judiciais contra a Monsanto - ligados aos efeitos secundários no uso do herbicida "Roundup" (glifosato) -, a cotação bolsista da Bayer já desvalorizou 30 mil milhões de euros.

Daniel Deusdado

Uma piscina em Braga

Que querem? Quando me lembro do longínquo dia 12 de agosto de 2006 em que voei num avião da Red Bull, o que de imediato me vem à memória é uma piscina azul. Foi a primeira coisa que vi depois de descolar da pista do aeródromo de Braga e de conseguir voltar a mim, depois da abrupta apresentação às insuportáveis forças G. Quando vislumbrei a piscina, o aviãozinho fazia o pino nos céus comigo lá dentro e eu vi azul no meio de castanho. Estranhei a piscina ali tão azul e eu sentada no céu, com a barriga virada para terra. O retângulo aquático era uma espécie de alvo, (felizmente) improvável, como tudo o que se passa dentro da chapa com asas que voa como uma mosca furiosa.

Marina Almeida

Voar ou o Euromilhões ao contrário

Aperto o cinto, fecho os olhos, agarro-me aos braços da cadeira e tento apagar o cérebro (o que no meu caso é quase impossível, dado o nível de overthinking que o encharca). Isto acontece em todas as descolagens e aterragens. Ao mínimo solavanco, sobressalto-me de tal forma que o vizinho do lado, conhecido ou desconhecido, dá sinal de contágio. O medo tem esse efeito. Durante a viagem vou de olhos postos no ecrã com o aviãozinho, a ver em que ponto da rota estou e o tempo que falta para chegar. De tempos a tempos, observo, perscrutante, o estado de espírito da tripulação. Nem as refeições nem o chá, café ou laranjada me distraem.

Catarina Pires

O novo ambientalismo

Entre os 75 deputados dos verdes que se sentam no Parlamento Europeu, apenas 6 vêm da Europa de leste (ou central, como os próprios preferem), recorda um artigo do Politico da semana passada, para daí concluir que os verdes ainda têm um longo caminho para fazer entre os países que aderiram à União Europeia em 2004 e depois. Onde as condições económicas são mais duras e as necessidades mais básicas, o ambiente não vem no topo da lista das prioridades dos eleitores, obviamente.

Henrique Burnay

Contei à minha filha que os nossos impostos salvaram mestre Gregório

Foi o Estado, fomos todos nós, que salvámos os sete pescadores do barco atuneiro "Sete Mares" que naufragou ao largo da Madeira. O avião da FAP que os avistou e a lancha NRP Hidra que, apoiada pelo navio-patrulha NRP Tejo, os resgatou sábado foram os protagonistas, e as duas tripulações os heróis do dia, mas o essencial é que o salvamento não foi fortuito, mas sim resultado de um esforço coletivo do qual todos nos devemos orgulhar.

Leonídio Paulo Ferreira

Francisco: a Europa, a Amazónia, as migrações

1. O Papa Francisco deu no passado dia 9 uma longa entrevista ao diário italiano "La Stampa" sobre os temas anunciados no título. Dada a sua importância, fica aí uma síntese, acrescentando algumas reflexões pessoais, referentes concretamente à possibilidade da ordenação de homens casados, um dos temas na agenda dos trabalhos do próximo Sínodo para a Amazónia, a realizar em Roma no próximo mês de Outubro, e ao problema imenso e dramático das migrações.

Anselmo Borges

Última crónica antes das férias

Eis-nos por fim em AGOSTO. O mês da agenda em branco. O mês do luxo maior que é decidir não fazer nada, nem sequer decidir. Todos os anos chego a AGOSTO como a uma praia donde só regresso em setembro. O ócio de agosto tem sido sempre para mim o tempo mais produtivo do ano. Todos os planos adiados, todos os trabalhos desmobilizados por uma onda de preguiça, todas as decisões procrastinadas: é por não fazer nada em agosto que este é o mês mais fértil. "O ócio é o trabalho do poeta", dizia Sophia, em AGOSTO somos todos poetas em trabalho (no resto do ano seremos poetas em férias). Na sua crónica do fim de semana passado, no Expresso, José Tolentino Mendonça, aka arcebispo arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano, escrevia também sobre férias e lembrava um belo verso de Ruy Belo: "Somos crianças feitas para grandes férias."Orla Marítima é o título do poema, está lá AGOSTO inteiro e sobra muito, acaba com o verso "Sabemos agora em que medida merecemos a vida", superlativo absoluto sintético do poeta Ruy, belíssimo. São dele também dois versos dos mais tristes que conheço em língua portuguesa: "É triste no outono concluir/ que era o verão a única estação". Estes versos têm assombrado a minha vida e a cada novo verão me desafiam a celebrar deles o reverso. Não há dia mais feliz no ano do que o dia em que chegamos à casa de férias e abrimos as portas e as janelas, estendemos as toalhas, prendemos a cama de rede às árvores, tiramos dos armários os jarros para a água fresca e as fruteiras para todas as frutas da estação: os pêssegos, as ameixas, os alperces, os figos, as amoras... Tiramos da mochila os livros que hão de ser deixados a meio, sempre muito mais do que os que hei de ler a remoer "como é que nunca tinha lido isto?", por sua vez muito mais do que aqueles que acabo por reler todos anos, da preferida prateleira, nem que seja só uma página, já amarelecida, os imprescindíveis. Há um filme que gostamos de rever todos os anos, faz parte do ritual das férias, os miúdos já acedem com benevolência: As Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati. Coreografia amável das férias de uma burguesia emergente na França dos anos cinquenta, desarrumadas pelo adorável, distraído e desastrado senhor Hulot. Cronicamente o revemos, antecipando o riso nas cenas que já sabemos de cor como passagens de um evangelho tresmalhado a que sempre regressamos com alegria. As sessões de cinema nas tardes de calor são um hábito familiar. Depois do almoço, quando está demasiado calor para fazer o que quer que seja, até dormir a sesta, fecham-se as portadas, liga-se a ventoinha e é tempo de um grande clássico do cinema. Lawrence da Arábia, Rio Bravo, Vertigo... Uma delas foi inesquecível, ficou para a nossa história familiar. Foi no ano em que me casei, a família estava toda de férias, era 15 de agosto, feriado, fazia um calor insuportável e decidimos ver o tradicional filme. Eu estava entusiasmado porque tinha descoberto um épico de que nunca tinha ouvido falar, com excelentes atores: Malcom McDowell, Peter O´Toole, Helen Mirren... John Gielgud. Guião de Gore Vidal. O realizador não conhecia. O filme era Calígula, uma produção de 1979. Prometia. Sentámo-nos a ver. O filme começa com uma cena de sexo explícito. A que se segue outra e mais outra. A família manteve a compostura em silêncio, aguardando o desenlace. Não havia desenlace, não no sentido habitual. Aquilo continuava sem que a ação progredisse, no sentido em que a ação progride nos filmes de ação. Aquilo não era um desses filmes de ação. A minha mãe, habituada a ver muito cinema nos seus 80 anos de vida, rompeu o silêncio: "Isto não passa disto?" Eu ainda balbuciei: "É o Calígula, ele era... há o resto da história, isto deve ser só o princípio... É com o John Gielgud, o Sir..." Aquilo estava cada vez pior. Sir John Gielgud tinha acabado de cortar os pulsos ou, pelo menos, a sua personagem, Nerva. Nesse momento entra na sala a minha mulher dinamarquesa, recém-chegada à família, que acaba por fazer a pergunta: "Are you watching porn?" Era de facto a pergunta que todos tínhamos na cabeça. Respondi que era uma tradição familiar latina, no feriado de Assunção de Nossa Senhora, as famílias reunirem-se em casa depois da refeição principal e sentarem-se a ver um filme pornográfico. Passado o choque cultural, vi o filme depois, sozinho, em fastforward, já que eram quase três horas, para ver se melhorava. Não melhorava. O melhor de tudo é o making of que vem no DVD. Nele se percebe tudo. O produtor era o dono da revista Penthouse e o realizador, Tinto Brass, era um realizador de filmes porno. O Gore Vidal aparece a dar a caução cultural. Mas acabou por se incompatibilizar com o realizador. Posições irreconciliáveis. Precioso. Ao nível de Ed Wood e do Plano 9 do Espaço Sideral, mas noutro género. Nas férias de família, a partir desse dia, só clássicos. Dos que já vimos várias vezes. A indústria pornográfica continua próspera e alastrou hoje para fora do cinema. A realidade está cada vez mais obscena. Os novos imperadores do mundo protagonizam terríveis produções multimédia multirredes, nas quais somos involuntários e voluntários figurantes. Gostava de os esquecer por umas semanas em AGOSTO, mas não sei se será possível. Não podemos ignorar. Ouço o Chico Buarque a cantar Vai Passar, mas não sei desta vez como vai passar. Escrevemos posts em vez de postais. Logo vêm mijar no post os fanáticos, cada vez mais, a delimitar novo território ocupado. A coisa no Brasil está preta, meus caros amigos. Um pouco por todo o lado. Aqui na terra estão discutindo futebol. E golas. Bola e gola. Menos mal. Enquanto isso, a liberdade no mundo está dia a dia mais ameaçada. Bolsonaros bolçam barbaridades. O mundo está uma orgia de Calígulas. O John Gielgud bem pode cortar os pulsos outra vez. É aqui que eu acabo a crónica e vou. Boas férias para todos.

Nuno Artur Silva

É preciso uma solução para Jammu e Caxemira

Precipita-se uma crise humanitária e de direitos humanos na região de Jammu e Caxemira ocupada pela Índia (IOK), presentemente submetida a recolher obrigatório e severo bloqueio. Os serviços de internet foram bloqueados e não é permitido o acesso aos jornalistas. A região sofre já a severa falta de bens alimentares e medicamentos. As pessoas estão impedidas de sair das suas próprias casas, as empresas foram fechadas e as ruas estão vazias.

Sarfaraz Gohar

"Corta!", dizem os Diáconos Remédios da vida

É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).

Ferreira Fernandes

Os índices dos níveis da cadência da normalidade

PremiumÀ medida que o primeiro dia da crise energética se aproximava, várias dúvidas assaltavam o espírito de todos os portugueses. Os canais de notícias continuariam a ter meios para fazer directos em estações de serviço semidesertas? Os circuitos de distribuição de vox pop seriam afectados? A língua portuguesa resistiria ao ataque concertado de dezenas de repórteres exaustos - a misturar metáforas, mutilar lugares-comuns ou a começar cada frase com a palavra "efectivamente"?

Rogério Casanova

O voluntariado

A voracidade das transformações que as sociedades têm sofrido nos últimos anos exigiu ao legislador que as fosse acompanhando por via de várias alterações profundas à respetiva legislação. Mas há áreas e matérias em que o legislador não o fez e o respetivo enquadramento legal está manifestamente desfasado da realidade atual. Uma dessas áreas é a do voluntariado. A lei publicada em 1998 é a mesma ao longo destes 20 anos, estando assim obsoleta perante a realidade atual.

Margarida Balseiro Lopes

Um retrato de mulher

Estamos a deixar passar na Europa quase em branco o centenário do assassínio de Rosa Luxemburgo (1871-1919). É um esquecimento que diz mais sobre nós e o nosso tempo do que sobre a economista, ativista política, filósofa e muitas outras coisas, cujo lugar e grandeza peculiares estão bem protegidos numa vastíssima obra publicada, ainda que não suficientemente estudada. Embora tenha vivido a maior parte da sua curta vida em Berlim, Rosa nasceu na Polónia russa, originária de uma família judia abastada, cedo se revelou cosmopolita e poliglota (incluindo um domínio perfeito do alemão, russo e polaco). Foi das primeiras mulheres doutoradas pela Universidade de Zurique, entregando-se desde os 15 anos a uma militância socialista, inspirada por um sentimento de perigo e urgência que a eclosão da I Guerra Mundial mostraria ser inteiramente justificado.

Viriato Soromenho-Marques

Hong Kong prova de fogo obrigatória de ganhar para Xi

Primazia do Partido Comunista, defesa da unidade nacional, prosperidade económica. São estas as três grandes prioridades da liderança chinesa, por esta ordem decrescente, e a solução vinda de Pequim para acabar com os protestos em Hong Kong passará pelo peso que cada uma tiver na decisão final de Xi Jinping. Sim, de Xi, porque os protestos, os abaixo-assinados e as greves na antiga colónia britânica transformaram-se rapidamente da recusa de uma lei de extradição para a China continental em desafio aberto ao próprio presidente da república e secretário-geral do PC, o mais poderoso desde Mao Tsé-tung. E isto a poucas semanas das celebrações dos 70 anos do triunfo da revolução comunista, a 1 de outubro.

Leonídio Paulo Ferreira