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Grandes temas Mobile World Congress 2019: o 5G

Opinião de Eduardo Fitas, Vice-Presidente da Accenture Portugal e responsável para área de Comunicações, Media e Tecnologia. Os fornecedores de serviços de comunicação enfrentaram outro ano difícil com estagnação ou declínio de receitas tradicionais e com a intensificação da concorrência, especialmente de fora do setor. O Mobile World Congress que começa na próxima semana em Barcelona será palco de debate sobre a forma como a indústria pode investir e transformar os seus negócios para conseguir ser bem-sucedida. Uma clara oportunidade será, no setor B2B, aproveitar o 5G para reposicionar a industria de comunicações como líder na transformação e facilitador no [...]

DN Insider

Arnaldo, Rui e os tuítes

PremiumArnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.

Catarina Carvalho

Pobreza

PremiumA essência da pobreza aniquila o futuro", escrevia Orwell. Um quarto da população europeia vive numa situação de risco de pobreza. São 120 milhões de pessoas, doze "países" iguais a Portugal. Falamos de pessoas que vivem na região mais rica do mundo. Este facto não tem comovido as instituições europeias que, nos últimos trinta anos, recuaram, e muito, em relação ao que haviam traçado como estratégia. Aos defuntos Programas Europeus de Combate à Pobreza seguiu-se um objetivo de reduzir a pobreza até 2010. Ninguém lhe prestou atenção e esse objetivo não saiu do papel.

Marisa Matias

Há vacina para as fake news?

Premium A internet foi das mais admiráveis invenções tecnológicas da história da humanidade, com o seu contributo para a democratização no acesso ao conhecimento e na partilha da informação. A imagem da mensagem na garrafa que navegava pelos mares foi já ironicamente substituída na cabeça de todos pela hashtag # . A comunicação torna-se cada vez mais instantânea, com o chat , as redes sociais e as aplicações, em que o indivíduo consegue partilhar experiências e estados de espírito e projetar aquela identidade com que se sente virtualmente confortável...

Maria Antónia de Almeida Santos

13-0221 TCX

PremiumHá dois verdes em Lisboa que só conseguem esquecer os daltónicos de alma, o verde-Estefânia e o verde-Pinóquio. São, à sua maneira, dois verdes de cura, dois verdes que curam. Mas até quando? Na Estefânia um verde-after-eightcobre paredes e aquecedores, corredores. De memória até diria que são dois verdes, mas como confiar na memória construída nas esperas num hospital, aumentada nuns pontos, apagada noutros. Quem terá escolhido estes verdes? Alguma consultoria sobre espaços hospitalares, uma equipa de cromos (do grego khroma, cor) diretamente de São Paulo, ou de Miami, uma paleta de cores e alguém disse, entre pistácio (código Pantone13-0221 TCX) e esmeralda fica aquele, e apontou para uma parede ao fundo do corredor onde um trabalhador - os homens das obras são sempre trabalhadores e o contrário - pintou quatro retângulos das quatro latas que os senhores da consultoria pediram para comprar, uma homenagem ao retângulo inspirada em Josef Albers. Mas depois acabou-se um dos verdes e o outro espaço levou com outro verde (mais abacate?), não sei o que Albers diria desta interação de cores.

João Taborda da Gama

O assalto à Casa Branca

Premium O filme de Adam McKay, Vice, sobre a sinistra figura de Dick Cheney, o poderoso vice-presidente de G. W. Bush, Jr., é um trabalho notável. Essa película provoca no espectador o duplo efeito de purificação moral e alargamento intelectual que caracteriza as obras de arte duradouras. A excelente atuação de Christian Bale - um ator capaz de transformar a dolorosa metamorfose do seu corpo num quase mágico instrumento de representação - permite-nos um momento de reconciliação reflexiva, capaz de vencer a atual e repulsiva fenomenologia dos EUA. O realizador McKay e o ator Bale devolvem-nos o espaço da meditação e das categorias que a miséria moral e o analfabetismo grotesco de Trump permanentemente dificultam. A sátira inteligente e muito bem documentada de Vice é um gesto de libertação racional, recordando-nos as raízes causais do trágico e ameaçador circo em que os EUA se transformaram.

Viriato Soromenho-Marques

Desperdícios

PremiumUma escritora irreverente (e de direita, já agora) disse num almoço que, antes do 25 de Abril, quem comia bem eram os pobres, pois podiam deliciar-se com um entrecosto enquanto os ricos eram desgraçadamente alimentados a soufflés e empadões. Perdoe-se-lhe a desfaçatez com o sentido de humor. Efectivamente, eram tempos em que se trocavam os punhos e os colarinhos das camisas para durarem mais um ano e Salazar mandava virar os fatos do avesso quando começavam a ficar coçados do direito. Em nossa casa - e vivíamos sem austeridade - éramos, no mínimo, sete à mesa e, como tal, praticava-se essa cultura de aproveitamento que produzia refeições incríveis com as sobras da véspera: fatias recheadas com carne, passadas por ovo e farinha e depois fritas; pastelão com frango desfiado; pudim de peixe; batatas e tomates no forno com picado - enfim, um sem-número de receitas que evitavam desperdício alimentar e faziam jus à expressão "economia doméstica". Além disso, bebia-se água da torneira (refrigerantes às refeições?); lanchava-se pão com manteiga (as bolachas estavam guardadas numa lata e eram distribuídas com parcimónia); comia-se sobremesa apenas aos domingos; e, uma vez por outra, lá se levava para a escola uma sombrinha de chocolate dentro da bolsa do guardanapo de pano com o nome bordado. Também por isso, quando havia festas, sabiam melhor os pãezinhos de leite com fiambre, as sanduíches de queijo em triângulos, os suspiros, a mousse, os petit fours, o pudim flã e aquele bolo com cobertura de glacé no qual se espetavam as velas.

Maria do Rosário Pedreira

O muro, o espelho, e um mundo sem presunto

PremiumNo princípio da década de 90, quando a queda de uma parede na Alemanha lançou o mote para passar certificados de óbito a toda e qualquer abstracção, era comum encontrar nas páginas culturais artigos preocupados com o futuro das histórias de espionagem: o que aconteceria, perguntavam estas fukuyamices menores, aos enredos clássicos sobre agentes soviéticos, passaportes forjados, toupeiras, traições e postos de vigia em Berlim, agora que a Guerra Fria terminara? O The New York Times chegou ao ponto de falar com John le Carré, perguntando-lhe essencialmente o que é que tencionava fazer à sua vida. Le Carré foi-se safando, e a história de espionagem também, com um catálogo novo de brinquedos - multinacionais corruptas, traficantes de armas, terroristas islâmicos -, mas já na altura era óbvio que a história de espionagem especificamente ancorada na Guerra Fria também trataria de sobreviver ao fim da Guerra Fria. Não só porque a mitologia que estabelecera era demasiado apelativa, mas porque o intervalo temporal que permite a qualquer fenómeno ser reciclado pela nostalgia é cada vez mais curto.

Rogério Casanova

O Banco de Portugal está preso a uma história que tem de reconhecer para mudar

PremiumTem custado ao Banco de Portugal adaptar-se ao quadro institucional decorrente da criação do euro. A melhor prova disso é a fraca capacidade de intervir no ordenamento do sistema bancário nacional. As necessárias decisões acontecem quase sempre tarde, de forma pouco consistente e com escasso escrutínio público. Como se pode alterar esta situação, dentro dos limites impostos pelas regras da zona euro, em que os bancos centrais nacionais respondem sobretudo ao BCE? A resposta é difícil, mas ajuda compreender e reconhecer melhor o problema.

Pedro Lains

E uma moção de censura à oposição?

PremiumNos últimos três anos, o governo gozou de um privilégio raro em democracia: a ausência quase total de oposição. Primeiro foi Pedro Passos Coelho, que demorou a habituar-se à ideia de que já não era primeiro-ministro e decidiu comportar-se como se fosse um líder no exílio. Foram dois anos em que o principal partido da oposição gritou, esperneou e defendeu o indefensável, mesmo quando já tinha ficado sem discurso. E foi nas urnas que o país mostrou ao PSD quão errada estava a sua estratégia. Só aí é que o partido decidiu mudar de líder e de rumo.

Anselmo Crespo

O RAP e a diretora condenada ao nosso riso

Há uns anos, surpreendi-me com uma cena de Herman José. Pareceu-me comédia tipo Mister Bean ou Jerry Lewis, disparatada. Feita pelos melhores, como os citados, é um género superior - e Herman, com o menino Nelito, por exemplo, a escavacar o cenário, sabe também ir por aí. Ora, naquela noite, Herman apresentava uma distribuição de prémios televisivos, função que tornava demasiado perigoso o desvario. Daí a minha surpresa pelos pinotes e o atirar-se para o chão do humorista.

Ferreira Fernandes

Caxemira: questão não é Índia retaliar, mas sim com que fúria

O problema de Caxemira, cuja soberania é disputada por potências nucleares, começa pelo seu simbolismo, com o K inicial (em inglês) a ser a terceira letra do nome inventado para pátria dos muçulmanos da Índia ainda na era colonial britânica, esse Paquistão (Pakistan) ou "País dos Puros" nascido finalmente em 1947. Já para a União Indiana, a moderna Índia também independente desde 1947, Caxemira é a prova da diversidade, pois é o único estado que tem maioria muçulmana num país esmagadoramente hindu, mas orgulhoso de ser pátria de outras religiões, de sikhs a cristãos.

Leonídio Paulo Ferreira