Após décadas a empurrar a transição energética com a barriga, os líderes europeus decidiram acelerar as metas desta transição. E desataram a fixar metas e datas para elas. Este calendário é irrealista no que tange ao curto prazo, sendo o setor dos transportes um bom exemplo no qual as autoridades europeias continuam a aprovar roteiros e calendários eivados de wishful thinking a roçar o pensamento mágico. Nos últimos dez anos, os combustíveis representaram 40~42% do mix energético de Portugal, não sendo tal muito diferente noutras economias europeias..É, por isso, compreensível a pressão para a substituição dos veículos com motores de combustão interna a gasolina ou gasóleo por veículos "verdes". Nestes, a alternativa preferida pela indústria automóvel é claramente a dos veículos elétricos (EV). O anterior presidente da VW, numa entrevista à revista The Verge teve a honestidade intelectual de vir reconhecer que as ambiciosas metas que a companhia havia fixado para EV na Europa [em estrito cumprimento das metas e prazos fixados por decisões políticas] necessitavam ser revistas de forma mais realista. E explicou porquê: "Temos de comprar todas as máquinas. Temos de construir as fábricas. Temos de encontrar as localizações. Temos de formar as pessoas. Temos de garantir o fornecimento e qualidade das matérias-primas." "É um desafio enorme", acrescenta. "Não é só dizer: vamos desligar os carros com motores de combustão interna. [Cumprir as metas ambiciosas da UE na redução de emissões no setor automóvel] é simplesmente impossível." Mas há um outro aspeto essencial para o qual já em dezembro de 2021 o CEO da Stellantis, Carlos Tavares, chamava a atenção - o elevado custo dos EV: "O que foi decidido é impor à indústria automobilística a eletrificação que traz 50% de custos adicionais em relação a um veículo convencional". Custos "além dos limites do que a indústria automobilística pode sustentar", que não terá como repassá-los, "porque a maior parte da classe média não vai conseguir pagar." Carlos Tavares tem vindo a reiterar isto em sucessivas intervenções públicas, das quais a última foi em Portugal, aquando do anúncio da fábrica de EV da PSA em Mangualde..Não devia ser necessário que nos relembrassem isto. A maioria dos consumidores europeus (a proibição pretendida pelo Parlamento Europeu de compra de veículos novos não-"verdes" após 2035 não é só para a classe média...) vive com salários baixos; em Portugal, vive com um salário inferior ao médio de €1100 (em 2021). Esperar que a maioria dos consumidores vá substituir em pouco mais de uma década os atuais veículos com motor a combustão interna por EV de custo elevado - €50 000+, mas mais elevado ainda quando aparecerem carros com autonomia intercidades - e com custos incertos de carregamento e/ou de substituição das baterias, é não apenas peregrina mas, como referiu C. Tavares, "vai criar tensão social"..Não seria mais sábio ter um calendário mais realista para a transição energética nos transportes, em vez de se continuar a reiterar manifestas promessas de amanhãs que cantam?.Consultor financeiro e business developer www.linkedin.com/in/jorgecostaoliveira