Breve história da morte do futebol

Depois de um merecido período de férias para recuperar da sua fatigante carga laboral, a ideia de que o VAR está a matar o futebol regressou recentemente ao activo. O Europeu chegou e partiu sem sobressaltos, e portanto sem exigir a sua comparência, mas a retoma dos campeonatos nacionais veio mostrar mais uma vez quão importante para a saúde pública é a repetição diária dessa luminosa opinião.

Em 1889, o engenheiro inglês John Alexander Brodie, fervoroso adepto do Everton, fartou-se dos golos controversos validados contra o seu clube e decidiu usar a inovação tecnológica para proteger a verdade desportiva: depois de 16 anos consistindo apenas num par de postes, a baliza passaria a ter também uma trave e uma rede. Apesar do cepticismo de um meio naturalmente resistente à mudança, a federação inglesa aceitou testar o novo equipamento num jogo do Nottingham Forest, dois anos mais tarde. Um jornal local do dia seguinte mantinha-se céptico: nenhum dos três golos marcados durante o jogo ofereceu dúvidas, não foi possível testar a eficácia das "redes", e a modernice parecia apenas um preciosismo sem sentido.

Mais de um século depois, durante a Charity Shield de 1992, o guarda-redes do Leeds recebeu o primeiro atraso com os pés de um colega - e bombardeou prontamente a bola para a bancada, num claríssimo acesso de pânico. O comentador da BBC promoveu de imediato o debate de ideias: "Acho que vimos aqui um exemplo perfeito desta nova regra: vai mesmo tornar o jogo melhor? Quando vemos os guarda-redes pressionados desta maneira? Obrigados a atirar a bola para fora? Acredito que não."

Acreditava que não, e não acreditava sozinho. A alteração da regra sobre os atrasos para o guarda-redes foi tudo menos pacífica. Howard Wilkinson, treinador do Leeds campeão, queixou-se de uma alteração "arbitrária", decidida por "burocratas" e sem consultar "jogadores e treinadores", que, garantiu, estavam maioritariamente contra algo que iria fomentar o "futebol negativo" e o "chutão para a frente". Alan Hodgkinson, guarda-redes histórico do Sheffield United, afirmou que o único propósito da nova lei era "humilhar" a sua profissão.

Um dos mais comuns equívocos nas discussões sobre o VAR é a ideia de que se está perante uma guerra existencial sem precedentes, e não perante a corriqueira tradução contemporânea de impulsos antiquíssimos. Nos anos 90, muitas vozes de jornalistas, adeptos e treinadores (incluindo Brian Clough) garantiram que o modelo intensivo de transmissões televisivas da recém-criada Premier League iria ser a morte do futebol, opinião que era uma intrigante reciclagem do pânico moral dos anos 30 sobre as transmissões radiofónicas: a BBC Radio chegou a interromper os relatos em directo durante alguns meses, em 1931, em resposta aos receios generalizados de que em breve os estádios ficariam desertos. Durante mais de metade dos seus mais de 150 anos de vida, a ideia de que pagar dinheiro aos jogadores iria destruir o futebol foi mais ou menos consensual. Da mesma forma, a introdução de substituições em 1958, ou a abolição do salário máximo em 1961, ou a Lei Bosman nos anos 90 foram acusadas à vez de destruir o espírito do jogo.

Um segundo equívoco é que o VAR, como acontece com qualquer tecnologia, teve efeitos não-intencionais e veio criar problemas novos. Teve, mas não veio. O que aconteceu, e a diferença é bem mais do que uma distinção semântica, é que a tecnologia veio expor contradições e insuficiências nas leis do jogo e na sua aplicação que a ausência de tecnologia tornava mais fáceis de ignorar. "Agora marcam-se foras-de-jogo por 3 centímetros" é uma queixa comum, mas os foras-de-jogo por 3 centímetros não foram uma invenção do VAR. Entre os milhares de foras-de-jogo assinalados ao longo das décadas, muitos deles foram assinalados por 3 centímetros. Ou por 1. Ou por 0. Ou por 15. A diferença é que agora o espectador é informado de que a distância foi essa e pode dedicar-se a um curioso paradesporto: criticar o VAR recorrendo a imagens do VAR. O VAR alterou o tom da discussão em grande parte porque veio revelar uma arbitrariedade que já existia mas, por estar camuflada no hábito, ninguém via. Essa arbitrariedade agora tem nomes: chama-se "3 centímetros" quando antigamente se chamava "isto é um escândalo" ou "este boi é cego".

A tecnologia, no ponto em que está, ainda tem limitações que tornam certezas taxativas sobre "3 centímetros" difíceis de engolir. Mas convém lembrar que essas limitações da tecnologia acabam por mostrar as limitações ainda maiores do ser humano gordo, careca e de meia idade, tentando olhar para dois sítios ao mesmo tempo enquanto corre às arrecuas com uma bandeira na mão a 40 metros do ponto crítico.

A ideia fundacional anti-VAR é que todos os problemas desapareceriam se deixássemos de usar o VAR e tudo voltasse ao passado - o que é um pouco como olhar para qualquer aspecto negativo da vida contemporânea (inevitavelmente moldado pela tecnologia) e acreditar que a solução é destruir os telemóveis. Achar que a capacidade de um desporto como o futebol para continuar a produzir iconografia visual e emocional memorável pode ser prejudicada pela tecnologia revela uma espalhafatosa falta de imaginação, de resto muito comum no modelo de adepto simbolizado por Valdano - o maior expoente vivo da ideia falsa, limitada e parola de que o interesse do futebol se esgota no seu potencial para a nostalgia e para a hiper-romantização. Há algo de profecia que se cumpre a si própria em toda a conversa sobre "matar a emoção", um argumento baseado numa ideia selectiva de "emoção", que pega numa fracção diminuta de todo o espectro emocional e a eleva arbitrariamente acima de tudo o resto, conferindo-lhe uma santidade por decreto. Achar que a justiça não tem o direito a interferir numa celebração espontânea não é ser "romântico", nem ser pró-emoção. É ser a favor de uma emoção específica e contra muitas outras emoções (tensão, incerteza, alívio, vindicação, etc.).

A veemência das respostas anti-VAR pode confundir alguns turistas, mas o fenómeno é mais fácil de compreender quando se aceita que a questão de fundo não é prática nem logística, mas utilitária. A maior utilidade do VAR é a capacidade de atrair e absorver vários tipos de queixas que antes eram distribuídas por dezenas de alvos diferentes. É um plano de consolidação para organizar a emoção mais genuína, antiga, caótica e inerradicável do futebol: a sensação de absoluta impotência ao encarar o abismo entre o nosso investimento emocional no jogo e a completa incapacidade de o influenciar. Parte da rotina de adepto é encontrar maneiras de lidar com esse intervalo colossal: inventar superstições que sustentem a ilusão de que o nosso comportamento fora do campo influencia directamente o que se passa lá dentro. Mas nada funciona, a ilusão é ciclicamente quebrada e o adepto reduzido ao seu estatuto elementar, que é resmungar e esbracejar do lado de fora (do campo ou de vários ecrãs). Para diminuir esse frustrante intervalo, o volume e intensidade do resmungo tem de aumentar desproporcionalmente. A hipérbole torna-se a única expressão adequada. Cada adepto sente essa tumultuosa exaustão subliminar e tende a deslocá-la para os objectos mais visíveis ("o treinador", "a imprensa", "o árbitro", "o sistema"). O VAR é apenas o avatar mais conveniente - por ser a alteração mais recente, mais visível, mais óbvia, e (crucialmente) mais receptiva ao acto de protestar, pois oferece validação instantânea, conferida por milhares de opiniões diárias iguais.

Como em tantas outras coisas, é um problema geracional, e portanto um problema temporal. O que vai ser preciso para que o volume de queixas sobre o VAR diminua é que a geração de transição desapareça. O volume de queixas da geração que crescer habituada ao VAR continuará a ser igual, mas será dedicado a outro assunto: não porque todos os problemas do VAR (que são vários) tenham sido resolvidos, mas porque haverá outra ameaça qualquer ao idílio pastoral da sua infância e às suas memórias formativas - uma ameaça igualmente urgente, igualmente deplorável e igualmente apocalíptica. O futebol continuará bem de saúde e às portas da morte.

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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