Bran(D)cos costumes

Portugal goza de reconhecimento mundial pela sua inovação, embora haja sempre exceções que contrariam a regra. Há temas, como o que me proponho a abordar, em que o nosso país se candidata a ser um eterno late adopter. Demora-se mais do que o expectável para que o coletivo se molde à realidade. E chegar tarde, com laivos de negação acerca do problema, traz custos acrescidos.

Racismo e intolerância. São temas que não o deviam ser, incomodam muita gente, mas é disto que falo. Tudo se coloca em causa quando se identifica alguém pela cor da pele, como sucedeu com a Deputada Romualda Fernandes, ou se insulta uma jornalista e o seu programa de TV. Sendo duas ações distintas, ambas condenáveis, há que diferenciá-las: uma nasce a partir de uma doutrina infundamentável, a outra afigura-se mais como um ato irrefletido.

Posto isto, não bastasse já a vergonha alheia por escrever sobre isto, eis que o cenário se ofusca. Justificar os atos acima descritos com recurso a manobras de desclassificação ou narrativas engenhosas. Explica-se o ato racista com a falta de meios profissionais. O jornalista ofendeu, mas era só uma nota particular. A culpa é da entidade patronal e "máxime" nossa, da sociedade que lhe provoca muito stress, o que o fez enviar a nota sem corrigir a "gaffe".

Até seria rapaz para colocar outras notas, como loira ou morena, mas tal não se verificou. E de facto podia porque no caso concreto haveria muito por onde escolher. Pena foi que a única anotação se tenha destacado pela discriminação racial.

As tentativas de branquear - ainda mais - este tipo de comportamentos são absolutamente inaceitáveis. Dizer-se que lutar contra o racismo é meramente a defesa do politicamente correto é um absurdo. Não condenar o racismo é a banalização dessa doutrina decrépita e aberrante.

Ainda não fez um ano que Lisboa foi declarada uma Cidade Antirracista, numa votação unânime. Nessa altura condenaram-se ataques a escolas, centros de refugiados e saudaram-se todos os que lutam contra o racismo e a xenofobia. Mas há quem hoje consiga esquecer tudo e insista "(...) que o português, apesar da linguagem, depois nos factos não é racista (...)".

Lá fora também chamaram ao Covid-19 "o vírus da China". Consequência: tumultos, vandalização e ataques a comunidades asiáticas. Esse é o resultado da banalização e desculpabilização desses comportamentos.

Conheço a Romualda Fernandes. É uma mulher íntegra, culta, instruída e capaz. Não merecia de forma alguma ver-se envolvida nesta triste ocorrência. Como referi em cima, chegámos tarde mais uma vez. Todavia, mesmo que devagar, há que dizer sem complexos, adendas e agravo: "BLACK LIVES MATTER EVERYWHERE". Nenhuma vida é menos importante que outra.

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