Bolsonaro, o corrupto

Em 2018, o capitão que havia sido expulso do exército brasileiro e deputado que, em 27 de mandato, apenas conseguiu aprovar dois projetos de lei foi eleito presidente da República. Uma das bandeiras que conseguiu a façanha de fazer o cágado subir ao galho mais alto da árvore, para evocar um ditado africano, foi a luta contra a corrupção. Muitos liberais e até progressistas brasileiros participaram entusiasticamente nessa operação. Até hoje, os bolsonaristas mais ferrenho acreditam que Bolsonaro é o grande paladino da luta contra a corrupção, tal como alguns juram que viram Jesus sentado em cima de uma goiabeira.

E, no entanto, os factos que demonstram, mesmo até para os que não querem ver, que Bolsonaro é - sempre foi - sinónimo de corrupção estão aí. Está disponível no Spotify uma série de podcasts sob o título "A Vida Secreta de Jair" com reportagens do canal de notícias brasileiro UOL, que comprova que há mais de trinta anos o atual presidente brasileiro e a sua família gerem um esquema de enriquecimento ilícito que não hesita em usar todos os métodos para atingir os seus fins. A investigação, que durou dois anos, é arrasadora.

O primeiro episódio da série apresenta o início da movimentação financeira de Fabrício Queiroz, agente da polícia e ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, um dos filhos do presidente.

O segundo conta a história da união de Jair Bolsonaro com Ana Cristina Siqueira Valle, a sua primeira mulher; ela é fundamental para entender as origens do esquema ilegal de devolução de salários nos gabinetes da família Bolsonaro (as famosas "rachadinhas", que consistem em pagar salários a uma série de funcionários fantasmas, os "laranjas", salários esses que, na grande maioria, vão parar às mãos de Bolsonaro e dos seus familiares).

O terceiro episódio conta como Fabrício Queiroz assume um papel fundamental junto do clã Bolsonaro e os respetivos gabinetes após o fim do casamento do presidente com a primeira mulher; mostra também os bastidores, as brigas e o relacionamento da família Queiroz com Jair Bolsonaro.

O quarto relaciona todas as histórias da família Bolsonaro e do esquema ilegal de devolução de salários nos gabinetes dos seus integrantes. De igual modo, revela os bastidores da prisão de Fabrício Queiroz e um resumo das provas contra ele e Flávio Bolsonaro. Revela ainda detalhes que comprovam a responsabilidade pessoal do presidente com o esquema.

Não é suficiente? Para Jair Bolsonaro e os seus aliados, não. O Congresso brasileiro, onde detêm uma confortável maioria, graças ao complexo esquema de alianças que são imprescindíveis para o funcionamento do sistema político brasileiro, aprovou recentemente uma série de gastos fora do orçamento que podem chegar à meta impressionante de 300 mil milhões de reais (um pouco mais de 57 mil milhões de euros), o que está a a ser considerado no Brasil como "o maior episódio de corrupção da história republicana" do país. Esse "pacotaço" destina-se a despesas assumidamente eleitoralistas, necessárias para que Jair Bolsonaro possa contrariar o favoritismo do seu principal rival, Lula da Silva.

O objetivo é tentar impedir a todo o custo que Lula vença no primeiro turno, o que, face aos cenários avançados por todas as pesquisas, não impediria a vitória de Lula no segundo turno, mas, pelo menos, daria tempo a Bolsonaro e aos seus aliados para tentarem aquilo em que já estão empenhados: um golpe. Como se sabe, ele é defensor até hoje do golpe militar de 64 no Brasil. Ora, ninguém escapa à sua própria natureza.


Escritor e jornalista angolano
Diretor da revista África 21

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