Bolsonaristas planos e redondos

O físico Ricardo Galvão, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais demitido por Bolsonaro em 2019, depois de quase 50 anos no organismo, por ter divulgado dados sobre o aumento do desmatamento da Amazónia, contou por estes dias que um latifundiário da região lhe disse que não faziam sentido "essas tais de pesquisas espaciais porque a Terra é plana, como diz o governo".

Nem todos os bolsonaristas são terraplanistas - mas todos os terraplanistas brasileiros são, seguramente, bolsonaristas. Aliás, se cruzarmos, de forma simplista, dados recentes, concluímos que a diferença é curta: na sondagem Datafolha para a presidência da República de fins de junho, 28% disseram votar em Bolsonaro; na pesquisa quantitativa A Cara da Democracia, divulgada no domingo pelo jornal O Globo, 20% dos brasileiros afirmaram acreditar que a Terra é plana. Há, portanto, uns 8% de bolsonaristas num estágio menos grave de alucinação coletiva.

Um desses casos é Marcos Pontes. Piloto de caça e engenheiro aeronáutico, Pontes foi selecionado em 1998 para o programa da Nasa e, em 2006, a bordo de um foguete russo, tornou-se o primeiro, e único até agora, astronauta brasileiro a ir ao espaço. Anos depois, entrou na política, decidiu filiar-se ao partido de Jair Bolsonaro e acabou nomeado pelo presidente eleito em 2018 ministro da Ciência e Tecnologia.

Para aceitar pertencer ao mais absurdo dos governos em quase 200 anos de história do Brasil independente, Pontes necessariamente partilhará muitas das ideias de Bolsonaro, como, por exemplo, que a ditadura brasileira só errou por ter morto pouca gente, que o torturador Brilhante Ustra, conhecido por enfiar ratos nas vaginas das prisioneiras, é um herói nacional, que é preferível ver um filho morrer num acidente a suportá-lo casado com alguém do mesmo sexo ou que Jesus Cristo, se já as houvesse há 2000 anos, usaria uma arma de fogo à cintura.

No entanto, por força da profissão, Pontes partilhou alegremente em janeiro de 2020 uma publicação da Nasa com a legenda "Para quem ainda acha que a Terra é plana, veja a segunda foto... kkk", junto a uma bela imagem do nosso redondíssimo planeta. Mal sabia o astronauta onde se estava a meter: os seus seguidores bolsonaristas expuseram em comentários, uns mais polidos, outros mais alarves, a desilusão com o ministro por acreditar nessas balelas comunistas de que a Terra é redonda.

É que a reserva intelectual da extrema-direita brasileira, o escritor Olavo de Carvalho, tendia a acreditar no terraplanismo: "Só assisti a uns vídeos de experiências que mostram a planicidade das superfícies aquáticas, e não consegui encontrar, até agora, nada que os refute", escreveu. E Olavo nunca foi de se deixar enganar: segundo ele, a Pepsi usa células de fetos abortados como adoçante, o verdadeiro autor das letras das músicas Lennon-McCartney foi o filósofo alemão Theodor Adorno e essa tal de covid-19 "não passa de historinha de terror para acovardar a população e fazê-la aceitar a escravidão". Olavo morreu em janeiro deste ano de covid-19.

Aquele latifundiário terraplanista do primeiro parágrafo é um bolsonarista, portanto, plano. E o astronauta do terceiro parágrafo um bolsonarista, digamos, redondo. Mas todos os bolsonaristas, entretanto, são quadrados.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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