Azawad independente, utopia ou mentira colectiva?

Celebrou-se no passado dia 6 o 9.º aniversário da declaração unilateral de independência de Azawad, face ao restante Mali, decretada pelo Movimento Nacional de Libertação de Azawad (MNLA). Trata-se da utopia tuaregue que tem alimentado o ideário das várias confederações tribais dos "homens azuis" que povoam maioritariamente o norte do Mali, desde o período colonial francês.
A luta pela libertação do Mali, neste contexto e período, sempre foi encarada pelos tuaregues como a luta pela libertação do seu território saheliano face ao Mali subsariano, verde na paisagem e negro na demografia.

Em primeiro lugar, e para evitar generalizações, é preciso sermos rigorosos e não colocar os tuaregues todos no mesmo saco. As diferentes confederações tribais, estruturadas numa hierarquia de suseranias tribais e clânicas, distinguem-se pelos diferentes períodos históricos em que foram chegando e assentando arraiais no referido território e em diferentes partes do mesmo, ocupando os vazios existentes, desde o fim da Idade Média até praticamente aos séculos XVII e XVIII. Digo-o desta forma, porque a(s) data(s) do final da fixação destes "ciganos do deserto" não é consensual, criando também este debate atritos entre tribos locais e antropólogos especialistas na matéria. Por exemplo, os Kel Ansar de Tombuktu, que melhor conheço, estabeleceram-se nesta cidade no século XV, tendo tido fixação anterior precisamente na Península Ibérica. O fim de Córdova e Granada ditou a "última perna" do seu êxodo iniciado em Yatrib, a actual Medina na Arábia Saudita entre os séculos VII e VIII.
O selo "Ansar" não deixa dúvidas sobre as suas origens.

Em segundo lugar, referir também que todo o Azawad não é exclusivamente tuaregue, já que também é habitado pelas etnias Songhai, Fula e pelos que localmente são identificados como árabes e mouros.

O MNLA formou-se oficialmente em outubro de 2011, uma evolução do Movimento Nacional de Azawad (MNA), de 2010 e cuja libertação da alçada de Kadhafi, pela morte deste, lhes permitiu a audácia de acrescentarem "Libertação" ao nome, anteriormente proibido por Bamako, a capital do Mali. O MNA composto sobretudo por jovens estudantes tuaregues, os quais se aliaram aos "desertores líbios" e aos homens de Ibrahim Ag Bahanga, um dos últimos heróis das derradeiras rebeliões dos anos 2000 e vítima mortal num misterioso acidente de carro, pouco tempo antes da investida independentista do MNLA no norte do Mali, vindos da Líbia, já não de Kadhafi, em janeiro de 2012.

Quando "reganham" Azawad, têm um apoio considerável, mas nada comparado ao apoio que as rebeliões da década de 1990 tiveram.

Qual foi o erro do MNLA?

Pouco depois desta declaração unilateral de independência, na ânsia de ganharem terreno e posição negocial com Bamako e comunidade internacional, face ao adquirido territorial e à inevitabilidade da utopia consolidada, a independência, aliaram-se à filial do AQMI Ansar Eddine, consolidando nos avanços que faziam um niilismo e uma falta de estratégia equivalente à dos jihadistas com quem se aliaram. Por onde passavam destruíam e matavam, tendo no episódio de Aguelhoc de 24 de janeiro, anterior à referida aliança, mas já em coordenação com o Ansar Eddine, procedido à degola colectiva de cerca de cem soldados malianos. É esta e outras acções antinatura, para um grupo que se diz laico, que levam os franceses a flectirem o músculo e a darem luz verde para o início da Operação Serval, em janeiro de 2013.

Na terça-feira o MNLA e outros malianos do norte não celebraram a consolidação da utopia, mas sim uma mentira colectiva, já que a independência está agora ainda mais longínqua, por via desta gestão danosa.

Politólogo/arabista.
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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