As línguas entre a paz e a guerra

"Vamos começar por sussurrar os nomes,
Vamos tecer juntos o vocabulário da morte."

Sherhiy Zhadan

No Dia Internacional da Língua Materna, 21 de fevereiro, a RTP2 deu destaque a um livro recentemente publicado, Pax English. A Nossa Tribo, da autoria de Rodrigo Moita de Deus, que parte da ideia da Babel bíblica como origem de todos os males. A ideia subjacente é a de que, se falássemos uma única língua, nos entenderíamos melhor, formaríamos uma única tribo e alcançaríamos uma pacífica convivência. O idioma da paz seria o inglês e, neste futuro anunciado, nele se dissolverão todas as sete mil e tal línguas ainda existentes.
Como sublinha Marcelo Rebelo de Sousa no prefácio, trata-se de uma provocação estimulante que nos é lançada por alguém que adora viajar, conhecer gentes e lugares e - digo eu - continua a olhar o mundo a partir da condição de estrangeiro. Facilmente se podem reunir argumentos adversos a esta tese, mas antes de qualquer um, fui buscar à estante do tempo a obra de George Steiner, After Babel. Aspects of Language and Translation (1975) cuja linha de pensamento poderia resumir no título do primeiro capítulo: compreender é traduzir.

Não basta falar ou escrever a mesma língua para nos entendermos, porque as palavras, felizmente, são densas de sentidos como o é a própria Humanidade. Se nos reduzíssemos ao "globish", aquela versão simplificada do inglês reduzida a 1500 palavras (talvez menos) que nos permite dizer algumas coisas, mas se atrapalha em raciocínios um pouco mais complexos, se assim fosse, a condição humana sofreria escassez de pensamento e seria muito pobre a expressar a experiência do universo.

Ao longo dos tempos, as línguas justificaram guerras, mas nem sempre por serem distintas. Basta pensar no momento que vivemos. A Rússia começou por legitimar os seus avanços pelo direito de defender as populações russófonas de Donetsk e Lugansk. Contudo, os testemunhos mostram a convivência entre línguas e culturas, em que sempre foi comum aprender russo e ucraniano, estudar literatura russa e ucraniana.

Falar a mesma língua não chega para construir a paz, não chega para nos entendermos se não houver um esforço para compreender o outro. O exemplo mais dramático está diante de nós: línguas próximas, culturas próximas não conseguiram evitar a guerra, como aconteceu em muitos outros conflitos. As línguas da paz podem ser as línguas da guerra. Ao contrário do argumento monolingue, o respeito pela diversidade linguística é um possível caminho para uma babel ao contrário, em que a pluralidade significa vida em vez de morte. Cada língua que desaparece é uma parte da humanidade que se extingue e com ela uma visão do mundo que nos poderia ajudar a compreender melhor o universo. Na recente conferência realizada em Brasília - CILPE2022 - em que analisámos formas de cooperação entre as línguas portuguesa, espanhola e as línguas originárias, foram surpreendentes algumas contribuições de especialistas, por exemplo, a diversidade linguística das redes sociais, em que cada um comunica na sua língua, aquela em que melhor exprime o seu pensamento e as suas emoções.
Podemos falar a mesma língua e continuar perdidos na tradução, Lost in translation, o filme de Sofia Coppola que nos obrigou a refletir sobre estar perto e tão longe.


Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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