As grandes questões

Caídos do céu e pouco assentes na terra, os nossos agentes políticos têm agenciado demais e politizado de menos. Um país com 900 anos de História, quase 50 de democracia, fundador do Atlântico e do que chamamos Ocidente, olha para si mesmo e para o que o rodeia com a indiferença de um recém-nascido. Desde que nos embalem e alimentem, tudo bem.

Ignorámos a maior crise de política externa da última década ‒ nem uma palavra de António Costa ou Rui Rio sobre a queda de Cabul, transformámos a oportunidade europeia do PRR num cartaz autárquico e rendemo-nos à polarização como modo de fazer política. Pelo caminho fica um sistema partidário à beira do esgotamento e uma sociedade crescentemente órfã de oportunidades.

E como reagimos a tudo isso? É enumerar.

A deputada Joacine Katar Moreira preocupa-se com os painéis do salão nobre da Assembleia da República, acusando as figuras de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral de "prolongarem o Estado Novo". A também não-inscrita Cristina Rodrigues ‒ portadora de uma considerável capacidade de trabalho ‒ pretende obrigar os "influencers" a revelarem os filtros que aplicarem às fotografias publicadas nas redes sociais. O dr. Rio, depois de concentrar em vão os seus esforços na maçonaria, regressou ao negócio das mudanças e insiste na relocalização do Tribunal Constitucional para Coimbra.

O nível de alheamento está, portanto, estratosférico. Perante desafios nacionais evidentes e problemáticas globais decorrentes, os nossos representantes apostam no lúdico e no simbólico, como se tal respondesse a alguma urgência portuguesa.

Quando olharmos para trás e refletirmos sobre a forma como as nossas instituições reagiram à crise pandémica, com a incerteza e a imprevisibilidade que necessariamente a caracterizariam, recordaremos a inaptidão total das nossas lideranças para a ultrapassar.

No sentido literal, vivemos tempos extraordinários; definidores do nosso futuro a médio e longo prazo. A classe política, todavia, mostra-se incapaz de estar à altura desse momento. O recrutamento de um vice-almirante para coordenar a responsabilidade da vacinação foi um flagrante exemplo disso. O primeiro-ministro, com o conforto de uma direita estilhaçada, corre o país anunciando obras que Bruxelas ‒ e depois os contribuintes ‒ pagarão. O líder da oposição, fazendo jus à sua ausência de dimensão, corre atrás do país, promovendo a transferência de um órgão de soberania para uma autarquia de cuja vitória depende a sua sobrevivência no PSD.

A paisagem política portuguesa perdeu, assim, qualquer mistério. É tudo demasiado óbvio, quando não demasiado mau.

Resta-nos sentar numa cadeira e aguardar pela saída do dr. Rio do maior partido da oposição e, depois, pela migração do dr. Costa para um cargo europeu. Até lá, nada mudará e pouco se transformará. É um Portugal cansado de não fazer nada, em que as grandes questões são, inevitavelmente, as mais insignificantes.

Quando o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa terminar, em 2026, teremos todos de nos perguntar se o país está melhor do que quando o Presidente tomou posse.

Estará?

O princípio da resposta começa neste ciclo político.

Colunista

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