António Osório

O ofício de advogado levou-me a ser discreto como poeta. As pessoas preferem, naturalmente, bons profissionais do foro a excelentes poetas." António Osório confessou-se assim a Ana Marques Gastão em entrevista ao DN (24.3.2001). A pequena frase diz-nos tudo sobre o que foi um amigo que tanta falta nos faz. Exímio cultor do seu ofício, viveu a poesia como respirava o ar que nos faz existir. E a sua exemplar poesia foi o modo de exprimir a riqueza do espírito. Ser advogado foi "um serviço, uma entrega, uma fidelidade: advocatus, o que é chamado em auxílio". Com orgulho lembro-o como meu bastonário, exemplo numa profissão tão vulnerável e exigente. Não me cansarei de dizer que, como advogado, foi dos melhores e que a sua memória tem de ser muito lembrada - pelo saber, pelo espírito de justiça, pela compreensão do direito e da lei como sinais de humanidade e da dignidade do ser.

Em longas conversas inesquecíveis, recordava a sua infância, com mãe italiana e pai português: "Todos os dias, minha mãe lia-me os seus livros cuidadosamente arrumados." Ilíada e Odisseia, sempre em italiano. A seguir passou para Dante, com a Divina Comédia. "Explicava-me aquelas estâncias, contava-me as histórias florentinas, as perseguições que sofrera esse poeta que não era herói inferior a Ulisses...". Do pai, ouvia os Contos e as Histórias Maravilhosas da tradição popular, recolhidas pela tia Ana de Castro Osório. E a belíssima toada florentina era completada pelo melhor da língua portuguesa - Camões, Cesário Verde, Camilo Pessanha. E devo a essas charlas, ditadas pela amizade, a invocação circunstanciada, com emoção especial, das raízes familiares. Ele, ainda menino, chorando inconsolável a derrota de Heitor perante Aquiles; a presença do tio Henrique, exímio causídico; Maria Valupi e a Felicidade da Pintura com Miguel Ângelo Lupi; o exemplo de Ana de Castro Osório, cidadã corajosa e pioneira, que permitiu a revelação de Camilo Pessanha e da Clepsydra (que, sem ela, teriam ficado no esquecimento); as afinidades eletivas da Arrábida e de Setúbal dos nossos avós, que me recordou logo que nos conhecemos. "Em torno vinhas, olivais/ irmãos uns dos outros / com tijolos dentro da parede..."

E um dia fui em peregrinação ao túmulo de seu avô, aos pés de San Miniato al Monte, na mágica Florença. Nunca esquecerei tão intensas lembranças de quem "gostaria de ser visto como alguém que encontrou as suas raízes primordiais na Grécia, emigrou para a Sicília quando da Magna Grécia, sente por Roma uma funda admiração, e pertence a uma geração de uma tradição cultural mediterrânica e atlântica, universalista, que abarca o italiano, o francês, o espanhol e o português". E o universalismo era marca muito séria. Com ele encontrei Bashô e a espiritualidade oriental. "Não sigo o caminho dos antigos, busco o que eles buscaram." Era emocionante um encontro com o poeta, que preferia o puro culto da amizade e da memória, como na lembrança de seu pai (e de sua mãe): "Assim te amo agora sem lágrimas, / Que deste modo teus netos / um dia se recordem de mim, / na tua, minha e deles pura ignorância da morte," De facto, nunca ignorou que a poesia é sempre um mistério e uma aproximação ao sagrado, como aliás a música. Daí a relação com a morte, como luta contra a obscuridade. E os mortos, na sua memória querida, ajudam na procura de outra serenidade, como modo de purificação. Assim, João Gaspar Simões leu o poeta "com uma efusão de alívio, o alívio que se sente quando, num quarto muito abafado, alguém abre de súbito uma janela". E Eugénio Lisboa, leitor atento e premonitório de Osório, salienta a surpresa da absoluta claridade, da frescura primordial e da objetividade de Cesário. E assim se entende que "Com os anos / a pouco e pouco / a raiz afetuosa / penetrou / no fundo da terra / até chegar / ao mais pequeno / e mais antigo / veio de lágrimas".

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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