Opinião

Desconfinar a Igreja (1)

Chegam-me vozes a cantar esperança no novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), José Ornelas, bispo de Setúbal. Eu próprio disse a Natália Faria, do Público, quando imediatamente a seguir à eleição me perguntou se a sua escolha constituía garantia de rejuvenescimento: "Neste momento em que, no meu entender, a Conferência Episcopal precisa de um novo impulso, ele será capaz de assegurar o rejuvenescimento necessário. Trata-se de uma figura destacada do ponto de vista intelectual, e, por outro lado, dedicado aos outros e à sociedade. E tem uma gigantesca experiência internacional." Tendo vivido em Roma como superior-geral dos padres dehonianos, presentes em 38 países, conhece o que se passa também no Vaticano e, sobretudo, vive o espírito do Papa Francisco. Anima-o o desprendimento pessoal e uma "Igreja em saída", em desconfinamento, no sentido do abandono de estruturas de poder medieval, como insiste Francisco.

Desconfinados e desmascarados. 2

Na crónica anterior, tentei reflectir sobre o desconfinamento. A crónica de hoje, que não põe de modo nenhum em causa a importância do uso da máscara no contexto da pandemia, tenta ser uma breve reflexão sobre outras máscaras e a necessidade do desmascaramento, outro desmascaramento. Não se dedica a um estudo aprofundado sobre a história e a riqueza cultural da máscara, desde as máscaras das divindades e dos guerreiros, passando pelo teatro, até aos bailes de máscaras e aos carnavais. Aqui, é aquela máscara que colocamos, umas vezes inconscientemente outras conscientemente, para parecermos o que realmente não somos, enganarmos os outros e enganarmo-nos a nós próprios. Temos medo e vergonha de nós, do que verdadeiramente somos? O desmascaramento é particularmente urgente numa sociedade como a nossa: sociedade do parecer, da pós-verdade, do espectáculo e, por isso, da mentira e da ilusão.

Desconfinados e desmascarados

Claro que precisamos da devida "distância social" e do confinamento apropriado e, evidentemente, também e sobretudo, da máscara. Para preservarmos a saúde, a nossa e a dos outros. Podemos contagiar-nos uns aos outros e somos responsáveis uns pelos outros. Quem é cristão tem uma razão suplementar para isso: segundo os Evangelhos, um dos interesses e preocupações maiores de Jesus foi a saúde das pessoas. Por isso, não entendo aquele debate à volta da comunhão na mão ou na boca, havendo quem invoque razões para a comunhão na boca. Sempre fui contra a comunhão na boca, pois só damos de comer na boca às crianças. Agora, ainda mais se impõe a comunhão na mão, por causa da preservação da saúde. Ah!, e para quem continua a propugnar a comunhão na boca: não é verdade que provavelmente há línguas mais sujas do que as mãos?

O contágio da esperança

1. Naquele fim de tarde escuro do passado dia 27 de Março, quando a chuva começava a cair, o Papa Francisco, sozinho, concentrado, em passos lentos, quase alquebrado como se transportasse aos ombros a cruz da Humanidade toda, atravessou, em silêncio, uma Praça de São Pedro deserta e subiu os degraus para uma plataforma fragilmente iluminada e rezou, sozinho. Uma imagem que fica na memória de todos quantos assistiram àquela caminhada lenta, uma das imagens marcantes desta catástrofe. A apontar para a solidariedade mundial de todos e para a esperança. E disse: "Desde há semanas que parece o entardecer, parece o cair da noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo de um silêncio ensurdecedor e de um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem; pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos." Aludindo à imagem do Evangelho, acrescentou: "Fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda." Constatando que "nos demos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários", continuou, sublinhando o que desde a deflagração da pandemia tem sido uma constante sua: "Somos todos chamados a remar juntos, todos carecidos de encorajamento mútuo." "Estamos juntos neste barco", ninguém poderá vencer a tempestade sozinho, "só conseguiremos todos juntos". E incutiu esperança e abençoou o mundo: "Desta colunata que abraça Roma e o mundo desça sobre vós, como um abraço consolador, a bênção de Deus."

A sabedoria de viver. 1

O mais recente número de Philosophie Magazine - Hors-Série: Sagesses du Monde, inverno-primavera 2020, passa em revista as "sabedorias do mundo" e refere concretamente a Índia, a China, o Japão, as Américas e África. Dele retirei alguns provérbios, contos, estórias, paradoxos..., que levam a pensar. Aliás, grandes pensadores europeus, como por exemplo A. Schopenhauer e M. Heidegger, foram beber a essas sabedorias, sobretudo sabedorias orientais, inspiração para a sua filosofia. Nestes tempos dramáticos e sombrios - que vêm interrogar sociedades do imediatismo consumista e alarve, da corrupção pérfida e invasiva, da banalidade imperante, do prazer e do ter que de tudo se querem apoderar corrosivamente - é bom, aproveitando uma Quaresma forçada ou autoimposta, parar e ouvir, no silêncio, a voz da sabedoria e do sentido. É esse o propósito simples do que aí fica, em antologia que organizei.1. A sabedoria 1. 1. "Um dia, um homem veio ver um sábio e perguntou-lhe: 'Mestre, que devo fazer para adquirir a sabedoria?' O sábio não respondeu. Tendo repetido várias vezes a pergunta sem resultado, o homem retirou-se. Mas regressou no dia seguinte e fez a mesma pergunta: 'Mestre, que devo fazer para adquirir a sabedoria?' Não recebeu resposta. Veio de novo no terceiro dia: 'Mestre, que devo fazer para adquirir a sabedoria?' Por fim, o sábio dirigiu-se a um lago e, entrando na água, pediu ao homem que o seguisse. Chegado a uma profundidade suficiente, agarrou-o pelos ombros e manteve-o debaixo de água, apesar dos esforços que ele fazia para se libertar. Ao cabo de uns instantes, o sábio largou-o e, quando o homem voltou, com grande dificuldade, a respirar, o sábio perguntou-lhe: - Diz-me, quando estavas dentro de água, qual era o teu maior desejo? Sem hesitação, o jovem respondeu: 'Ar! Ar! Precisava de ar.' - Não terias preferido a riqueza, os prazeres, o poder? Não pensaste em nenhuma destas coisas? 'Não, Mestre, eu precisava era de ar e só pensava nisso.' - Pois bem - continuou o sábio -, para adquirir a sabedoria é preciso desejá-la tão intensamente como há pouco desejaste ar. É preciso lutar por ela, excluindo toda e qualquer outra ambição na vida. Ela deve ser a única aspiração, noite e dia. Se procurares a sabedoria com esse fervor, encontrá-la-ás um dia." (conto filosófico). 1. 2. "O silêncio é a sabedoria de todas as sabedorias: olha, vê e cala-te." (provérbio marroquino) 1. 3. "Havia em Bagdade um louco que não dizia nada nem ouvia nada. Perguntaram-lhe: "Pobre louco, porque é que não dizes nunca uma palavra?" O louco: "A quem quereis que me dirija? Não vejo aqui ninguém que possa responder-me." (conto árabe) 1. 4. "Não há caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho." (Lao-tsé) 1. 5. "O nosso grande sonho", diz um astrofísico a um papua, "é encontrar vida no planeta Marte." - "Porquê?", perguntou o papua - "Quer isso dizer que a vossa vida é um fracasso?" (estória papua) 1. 6. "Aquele que é senhor de si mesmo é maior do que aquele que é o senhor do mundo." (Buda) 1. 7. "Começa-se a envelhecer quando se deixa de aprender." (provérbio japonês)