Admirável mundo novo II

Sim, é verdade. Na minha anterior crónica, apropriei-me do famoso título de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, na versão em português, e divergi do significado sombrio da célebre distopia que tanto debate tem suscitado. Huxley descreve uma ditadura da ciência, em que as castas são definidas por intermédio da engenharia genética, a vida é concebida em laboratório e o ser humano é poupado à dor. Noventa anos depois da sua publicação, em 1932, muito deste universo negro projetado pelo autor aparece como profecia de tendências para a máquina substituir o humano. A história decorre em Londres no ano de 2540, mas não será necessário percorrer cinco séculos para retomar os debates éticos sobre a ciência e a tecnologia e, mais recentemente, a Inteligência Artificial (IA). A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) tem vindo a inscrever no seu mandato esta preocupação que se tornou mais intensa a partir de final do século XX.

Numa publicação de 2001, com o sugestivo título Ciência, Ética e Sustentabilidade: desafios ao novo século, coordenada pelo professor Marcel Bursztyn, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília, instituição parceira da UNESCO, apresentam-se vários ângulos do debate, não deixando de reconhecer que os cientistas como "protagonistas de um formidável poder de modificar o nosso mundo", representam ao mesmo tempo "a esperança da solução de problemas e impasses e também o risco de que novos problemas e impasses surjam como decorrência do próprio avanço da ciência".

Passados vinte anos deste comentário - em que ocorreram grandes saltos científicos - a última Conferência Geral da UNESCO, realizada em novembro de 2021, aprovou uma Resolução sobre a Ética da Inteligência Artificial em que apresenta um conjunto de recomendações aos países, nomeadamente medidas legislativas ou de outra índole, envolvendo de forma alargada todos os parceiros, dos organismos públicos às empresas, às instituições universitárias e sociedade civil, para que o desenvolvimento e a utilização dessas tecnologias estejam apoiados em investigação científica sólida e, também, em análise e avaliação éticas.

Se esta Resolução parece dar razão aos alertas de Huxley, igualmente considera que as tecnologias da IA podem ser de grande utilidade para a humanidade e podem trazer benefícios a todos, embora possam também provocar discriminação, desigualdade, fosso digital e exclusão.

Na próxima semana, realiza-se na Universidade do Minho um Seminário que debaterá a transformação digital na Educação. É um tema cada vez mais atual - a Educação 4.0 - que a pandemia acelerou e carece, agora, de ponderação e programação. Não se trata apenas de dotar estudantes e professores de dispositivos, mas de garantir boa conectividade, novas metodologias de ensino, sistemas de gestão escolar inovadores, produção de conteúdos digitais e audiovisuais e uma formação de professores adequada. Por outro lado, a IA e os algoritmos cada vez mais representam formas sofisticadas de incursão digital na educação, o que gera riscos e oportunidades. Ao mesmo tempo, os efeitos devastadores dos confinamentos mostraram a importância do ensino presencial e da escola.

Estamos cientes de que é urgente transformar a Educação, o que terá impacto na organização das sociedades, no seu desenvolvimento e crescimento económico. No Seminário sobre Educação e Transformação Digital convergem especialistas, decisores e jovens de diferentes países e regiões - Portugal, Espanha, América Latina, África - que, através da partilha de experiências, estão dispostos a procurar soluções que permitam alcançar uma educação de qualidade que sirva e oiça os seus destinatários. Como recomenda a UNESCO, importa trazer os jovens para o debate e ouvir o que pretendem enquanto principais beneficiários da Educação. Por outro lado, esta cooperação a sul pode emergir (e dar um salto) nestes tempos novos, aprendendo entre si e apoiando-se nas suas forças e nas suas fragilidades, procurando encontrar soluções para que este admirável mundo novo deixe de ser uma ironia.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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