A ver vamos

Vamos finalmente ter novo governo, depois de muito tempo desperdiçado pelos nossos políticos em fantasias e desvios à lei. Começa um ciclo de quatro anos numa situação de crise e de incerteza.

E começa mal. Começa por se dar a conhecer o governo através da comunicação social sem qualquer respeito pelas instituições, coisa não esperada de quem tem uma maioria absoluta e que não necessita de criar tensão política com os restantes representantes deste povo.

A boa notícia estava dada. O governo encolheu.

Também foram notadas algumas melhorias em determinadas escolhas, como foi o caso da Defesa.

Mas alguns desalentos ficam já como marca inicial desta nova governação.
As pastas da agricultura e da saúde trazem mais do mesmo, onde era fundamental renovar.

Seja pelo cansaço da imagem, pelos erros cometidos ou pela incompetência, a renovação destes dois setores é essencial à reforma do nosso país.

Com a guerra na Ucrânia a colocar em causa a produção agrícola mundial e com a consciência resultante dos tempos da pandemia, de que necessitamos tornar-nos de novo mais autossuficientes, não tem sentido insistir numa ministra da agricultura que não tem qualquer aceitação junto dos agricultores.

Também a saúde, depois da pandemia, merecia ter alguém que trouxesse novas ideias para melhorar o serviço nacional de saúde, a relação com os intervenientes e que estimulasse a relação dos portugueses com este serviço fundamental, que mesmo em tempo de guerra continua a ser aquele que os portugueses mais consideram necessitar de investimento.

Por outro lado, a escolha de António Costa Silva para o lugar de ministro da economia deixa-me sentimentos opostos.

Por um lado, a escolha de quem foi responsável pelo plano estratégico que serviu de base ao PRR parece ter alguma coerência e faz sentido. Por outro, a perda de um dos únicos ministros que tinha o reconhecimento bastante favorável pelo setor que administrava parece ser pouco razoável.

Muito boa notícia é a mudança do responsável pelo ministério do ambiente. Não olho à maior ou menor competência do seu titular, mas sim pela oportunidade enorme de voltarmos atrás nas erradas decisões energéticas do nosso país.

Tornar a abrir uma central de carvão e repensar todas as questões relacionadas com a nossa autonomia energética é uma questão fundamental ao nosso futuro e a eliminação de um ato grave e prejudicial para a nossa economia e para o nosso país.

A excessiva concentração de interessados à sucessão de António Costa no governo poderá ser ainda uma má forma de unir uma equipa que, se tivesse a vontade de realizar as reformas que são tão necessárias, teria que funcionar como um só corpo.
Mas, mais importante do que determinar a qualidade e o presumível sucesso de cada um dos membros do governo, importa sim a partir de hoje reforçar a exigência pela sociedade civil de que este governo a quem o povo deu a maioria se encha de brio e cumpra o seu desígnio de reestruturar este país e de prepará-lo para um futuro que não conhecemos e que poderá ser sem dúvida ainda mais exigente.

A reforma da justiça, onde já há umas quantas propostas de a tornar mais ligeira e mais rápida, por isso mais justa, e a reforma da função pública, que está intrinsecamente prevista no PRR quando se fala da digitalização do Estado, são duas das principais questões que deveriam ser atacadas no primeiro dia e que tomarão o tempo de toda a governação.

Meu caro António a escolha está feita, a ver se o resultado justifica a confiança recebida deste povo.


bruno.bobone.dn@gmail.com

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