A vacina espetáculo

O escândalo nos nossos dias não consiste em atentar contra os valores morais, mas sim contra o princípio da realidade." Quem o afirmou foi o conhecido filósofo francês Jean Baudrillard a propósito da Guerra do Golfo.

A violação do princípio da realidade foi uma das principais premissas de atuação do Ministério da Saúde e do Governo português ao criar a ilusão de que, com a nova "vacina" contra a covid-19, tudo estaria resolvido.

Esqueceu-se de deixar claro que o programa de vacinação só estará terminado, se estiver, no segundo semestre de 2022.

Esqueceu-se de dizer que se desconhece o tempo de duração da "vacina", que na verdade são seis, contando com a que está a ser administrada atualmente. E como vai evoluir essa imunidade de grupo.

Esqueceu-se de aprender com as limitações ocorridas já neste ano com a vacina da gripe.

Esqueceu-se de muitas outras coisas. Mas não se esqueceu de criar momentos de espetáculo mediático em torno da vacina. Transmissões em direto. A primeira vacina administrada. As filas de profissionais à espera da ambrósia antivírica. As escoltas de segurança em torno do transporte, motivadoras inclusive de conflitos entre forças de segurança.

Mas acima de tudo, e violando o princípio da realidade, "esqueceu-se" de afirmar que a "vacina" nada mais é do que um, ainda que importante, instrumento na luta contra a pandemia. Um de muitos instrumentos.

O que o Governo teima em não reconhecer é que a pandemia de covid dificilmente se resolverá nas próximas semanas. Que levará meses, numa versão contida, a que tudo volte ao normal.

O que importa refletir é que sabemos mais sobre a "vacina" pelos órgãos de comunicação generalistas do que pelas publicações científicas. Previne a "vacina" a transmissão ou evita a doença? Uma dúvida pertinente ainda não respondida. E cuja resposta pode implicar estratégias diferentes. Assim o afirma um editorial da revista Lancet de novembro de 2020.

O que o Governo se esqueceu de dizer foi o que irá fazer com os doentes não covid.

Doentes que já ficaram para segundo lugar na primeira vaga. E que agora voltam a ficar. Porque o Governo nada tem feito para aprovar mecanismos capazes de resolver estes problemas. Não compreendo como é possível que não se recorra ao setor privado, social e às forças armadas, todos eles com capacidade instalada e disponível. Milhares de consultas, meios complementares de diagnóstico, de internamentos e cirurgias ficaram por realizar.

Não o fazer por motivos ideológicos é grave e incompreensível. Nenhum doente a necessitar de tratamento, seja um cancro ou uma insuficiência cardíaca, um aneurisma ou catarata, entenderá que o Governo, constitucionalmente obrigado, não lhe dê a oportunidade de ser tratado, quando tem essa mesma oportunidade ao seu alcance.

O que o Governo fez foi prometer honras e tributos aos profissionais de saúde e depois nada fazer. Não contratar, não reconhecer o esforço de milhares, não perceber que os profissionais de saúde não são robôs e autómatos, mas cidadãos que têm responsabilidades e limitações iguais a todos os outros portugueses. Que adoecem e morrem como todos os outros. Que têm família, pais e filhos como os outros. O que fez e faz é obrigá-los, é alocá-los a um programa informático quando outros o poderiam fazer.

O primeiro caso de covid data de dezembro de 2019; em Portugal, de 2 de março de 2020.

A 9 de janeiro Portugal tinha 476.187 casos de covid, 7701 óbitos. Em 2019, Portugal teve 111.793 óbitos. A 9 de abril de 2020 existiram 915 casos, o pico do mês. Em janeiro de 2020 Portugal teve, a 8 de janeiro, 10.176 casos. Estes são os números que nos devem levar a refletir se é legitimo continuar a esquecer o princípio da realidade.

Ainda não tinha terminado a primeira vaga e já sabíamos da segunda. Nada fizemos com o que que já sabíamos.

A esperança em torno da vacina foi claramente positiva. Mas não pode ser a solução de todos os males.

Portugal está claramente num momento difícil. Profissionais de saúde cansados, instituições de saúde à beira da rutura. Economia em défice. Portugueses desmoralizados.

Importa mudar de rumo. Importa assumir uma nova postura.

Importa dizer a verdade aos portugueses.

Importa ter uma estrutura altamente profissionalizada, dotada de recursos técnicos altamente competentes, com uma coordenação única. Com um sistema de informação robusto. Com meios financeiros ao seu dispor. Uma comunicação pela positiva e não pela negativa e meramente repressiva. Uma comunicação profissionalizada.

O discurso político, certamente relevante, tem de ser recentrado, enquadrado e sustentado.

O Ministério da Saúde tem de encontrar as respostas técnicas para as várias questões que tem de resolver, e são muitas.

O Ministério da Saúde tem o mês de janeiro para se reinventar.

Os profissionais de saúde continuam disponíveis para serem o exército da linha da frente - para servir os seus doentes.


Cirurgião geral. Vice-presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos.

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