A Ucrânia é mesmo aqui

O que se passa na Ucrânia diz-nos respeito. Quatro Estados membros da União Europeia - Polónia, Eslováquia, Hungria e Roménia - fazem fronteira com a Ucrânia.

Na fronteira com a Ucrânia estão concentrados mais de 100 mil militares russos, numa escalada cada vez mais perigosa que ameaça a integridade territorial do país e a segurança e a estabilidade da Europa.

É um país vizinho da UE (portanto, nosso vizinho) que está perante uma ameaça. Real.

Lembremos, pelo menos aos mais céticos, que na Crimeia e Donbass, em 2014, a Ucrânia viu desaparecer uma extensão equivalente a metade do nosso país.

Não se pode dizer que as movimentações militares russas tenham apanhado a UE de surpresa nem que o enfraquecimento do "escudo protetor" dos EUA na Europa seja uma novidade. A reorientação estratégica americana para o Pacífico, em particular a China, ficou clara com a administração Obama, seguiu (de forma grosseira) com Trump e prossegue com Biden.

Mesmo com a realidade a demonstrar que a linha de contacto entre o Ocidente e a Rússia continua a ser um lugar de tensão e potencial conflito armado, a UE e os seus Estados membros não se posicionaram para suprir a menor presença americana, havendo até dificuldades em discutir o assunto no seio das instituições europeias.

Da saída atabalhoada do Afeganistão, sem os EUA se darem sequer ao trabalho de a coordenar com os restantes países da NATO presentes no terreno, não parece ter resultado grande aprendizagem.

Mas o que se passa na Ucrânia do lado económico e especialmente energético também nos diz respeito. Mesmo sem invasão, a desestabilização da sociedade e da economia ucraniana já é real. A moeda desvalorizou, a inflação disparou, as fugas de capitais são enormes - desde o outono, o equivalente a 8% do PIB já saiu do país.

Na UE, o efeito mais imediato tem-se verificado nos preços da energia. Para além das limitações estruturais do setor e dos desequilíbrios mais recentes nos mercados energéticos, a Rússia tem vindo a reduzir o fornecimento de gás natural aos países da UE, alimentando os receios de que possa cortar ainda mais ou até "fechar a torneira", o que equivale a um disparar dos preços de consequências imprevisíveis. A dependência face ao fornecimento de gás russo é uma vulnerabilidade antiga da UE, por resolver.

Nos domínios da segurança, o assunto é igualmente crítico. Agora que, em Portugal, experimentamos as consequências de ataques cibernéticos importantes (redes de telecomunicações e órgãos de comunicação social), fica ainda mais clara a urgência, no país e na UE, de conter e eliminar estas ameaças. Sabe-se que muitas ameaças na área da cibersegurança e da desinformação têm sido atribuídas à ação russa.

Fica claro que o que se passa na Ucrânia nos diz respeito em variadas dimensões.

São ameaças concretas, reais e que já provocam consequências, e uma alarmante demonstração de que está em causa a autonomia estratégica da UE.

Ou a falta dela.

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