A terra com que tivémos fome

I cannot rest from travel: I will drink
Life to the lees

Tennyson, Ulysses

Talvez Pascal tivesse razão quando dizia que "toda a infelicidade dos homens vem de não saberem ficar descansados num quarto". É que nada há mais duro do que enfrentar-se a si próprio. Só se limita a viajar à volta do seu quarto quem, como Xavier de Maistre, a isso foi condenado. Nós não fomos feitos para estar confinados, mesmo que a fuga ao nosso quarto e à solidão venha apenas do medo que sentimos face à nossa finitude, como pensava Pascal. Seja por divertimento, seja por descoberta, viajar é indispensável à curiosidade que pomos no habitar do mundo. E se a finitude está connosco, mais uma razão para multiplicarmos as nossas explorações e os nossos percursos. Quantas coisas não vimos ainda? Quantas estradas temos por percorrer? Que encontros imprevistos nos esperam, que momentos de arrebatadora beleza podemos vir a experimentar? Só viajando saberemos responder a essas perguntas.

Para mim, como para Pessoa, viajar é "perder países/ser outro constantemente". Sair do país torna-nos mais ou menos invisíveis para os nossos compatriotas, mas permite-nos fingir ser outros e disfrutar o imenso prazer de fugir da nossa limitada identidade.

Há cidades onde podemos viver como se delas fôssemos naturais, com a deliciosa distância que está em não o sermos. Paris tem sido isto para mim toda a vida. E há cidades, como Veneza, onde sentimos que ninguém pode ser delas natural, que são na verdade um porto de abrigo para todos os que querem trocar as suas identidades pelas máscaras que se encontram nas ruas.

O privilégio da vida de diplomata é o de estarmos disponíveis para habitar as cidades estrangeiras como se a elas pudéssemos pertencer. Senti-me fazer parte do Rio de Janeiro, porque assim o quiseram aquela cidade e os amigos que lá fiz. Senti que poderia começar uma vida nova em Estrasburgo, que estaria nas minhas possibilidades irrealizadas ficar ali - mas preferi continuar a viagem e fiz bem.

Talvez tenha sido, porém, Luanda, o meu primeiro posto diplomático, o lugar onde pude experimentar algo diferente da pertença e da aceitação, do diálogo ou da integração. Maiakovski dizia que a terra com que passámos fome/ é a terra que não poderemos nunca mais esquecer. Mais do que a fome, Luanda ofereceu-me a guerra e a crueldade bárbara das perseguições e das mortes, porque eu estava lá naqueles dias de raiva e de sangue do 27 de maio de 1977 e depois.

Estávamos acantonados em casa, sob o recolher obrigatório, ouvindo na rádio a permanente e tremenda injunção "cacem-nos como a lobos". Lembro-me de levar para o aeroporto no meu carro diplomático (um velho Volkswagen abandonado pelo Exército Português) uma jovem militante comunista, que chorava de desespero, por ver marcada no seu passaporte, como um ferrete, a expulsão definitiva de Angola, sem direito a regressar, condição que Agostinho Neto pôs para deixar partir alguns cidadãos portugueses. Aqueles jovens, da minha idade e geração, pensavam estar a fazer a Revolução, aquela grande Revolução, com que também eu tinha sonhado outrora, uma Revolução que víamos ali transformar-se em barbaridade sem sentido, em sangue e em morte.

Mas essa terrível experiência em Angola fez nascer em mim um grande amor por aquela terra, um amor que nasceu do horror partilhado. Um amor que nasceu do medo que vi nos olhos das pessoas, dos dois lados da barricada, aquele medo que reduz a quase nada a nossa humanidade e nos pode transformar em predadores insaciáveis.

Ao ver o filme Sita (um grande testemunho) revivi esses momentos. E compreendi que tinha de escrever sobre esses anos de Angola e sobre tudo o que lá aprendi. Porque é muito fácil escrever sobre as terras onde fomos felizes. O grande desafio é escrever sobre as terras com as quais sofremos e onde sentimos, mais do que a fome de que falava o poeta russo, a carência súbita e brutal de qualquer humanidade.

A água do Bengo que bebi (aquela que, dizem, nos fará sempre voltar a Angola) foi esta.
Aos meus amigos Edgar Valles e Ana Simões


Diplomata e escritor

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG