A sorte não vem do 7, é preciso construí-la

A entronização de Luís Montenegro como líder do PSD, num congresso que estava destinado a não suscitar grandes atenções mediáticas, acabou por beneficiar da grande trapalhada Pedro Nuno Santos vs António Costa. Se o governo se pôs a jeito para servir de bombo da festa, é preciso dizer que nessa questão não há mérito nenhum dos social-democratas. Foi sorte. Só que a partir daqui, a sorte tem de ser construída, pela forma como se faz oposição e pela alternativa que se apresenta. O partido e os eleitores de centro-direita não quer ver o PS a ser poupado nas críticas e, por isso, aplaudem a mudança de líder. Montenegro saiu do congresso do Porto dando a garantia de que a oposição será mais assertiva e mostrando que está já a construir uma alternativa. Boa sorte, não vai ser fácil.

No congresso do Porto, estava em causa, apenas, a primeira oportunidade para causar uma primeira boa impressão. Montenegro inicia o resto da vida política dele com nota claramente positiva. Liderar um projeto alternativo, também na relação ideológica do Estado com o setor privado e social, faz-se pelas ideias e não pelos namoros mais ou menos envergonhados com os partidos à direita do PSD. O Chega não é conversa e a Iniciativa Liberal, para ser parceiro numa solução governativa, terá de moderar as suas propostas e aceitar a condição subalterna nesta possível coligação. Na tentativa de fortalecer a posição do seu partido, enfraquecendo a dos novos protagonistas, o novo líder do PSD conta ainda com uma recuperação do CDS, parceiro preferencial dos social-democratas.

Apresentar sete prioridades, o número da perfeição ou da sorte, diz rigorosamente nada sobre o valor das ideias com que Luís Montenegro quer construir um país diferente, tanto mais que, num mundo político onde habitam os sete pecados mortais, é preciso que os eleitores confiem que o PSD aprendeu com os erros do passado, os que foram responsabilidade de Rui Rio mas também os que foram responsabilidade do governo de Pedro Passos Coelho. Não é preciso renegar parte dessa governação, mas é absolutamente necessário apresentar propostas que reconciliem o partido com os pensionistas e com os funcionários públicos.

Com a promessa de António Costa de convocar um referendo sobre a regionalização em 2024, Luís Montenegro percebeu que tinha nesta matéria uma vitória política garantida e fez all in. Se Costa avançar, terá de o fazer sozinho arriscando perder esse esse referendo. Se não avançar, esse recuo será creditado como mérito político a Montenegro. E até Marcelo Rebelo de Sousa ficará agradecido.

As baixas expectativas que existiam em relação a Luís Montenegro na construção de um projecto alternativo sem ficar preso aos radicalismo de direita, acabaram por jogar a seu favor. Mas há mais que um superar de expectativas na chamada das alternativas internas para a sua equipa, na forma como descartou o Chega e na apresentação das linhas gerais do que quer para o país. Ainda beneficia do desnorte do governo. É muita sorte para iniciar a afirmação política da sua liderança. Saberá merecê-la? Se nem o partido está muito entusiasmado, isso significa que tem ainda muito trabalho para fazer.

Jornalista

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