A sala verde

Há uma imagem não vivida que me atormenta: a sala verde da Villa Balzac. (Os Maias, 1888) Verde! Tudo era verde. Verde sobre verde, tom sobre tom, cor sobre cor. Verde! Uma página tão bem descrita que quando João da Ega, num prodigioso robe-de-chambre, recebe Carlos da Maia, eu próprio, quando penso nisso, sinto-me transportado para o meio do livro e vejo o meu reflexo no espelho inclinado por cima do sofá.

E se num livro o verde não visto e não vivido é sentido, imagine-se o poder da cor no grande ecrã.

A cor é, tem sido e deve sempre ser tratada como uma personagem. Uma personagem silenciosa que conta uma história ou que no limite reforça uma ideia, uma emoção. Esta personagem que circula pelas páginas ou pelo ecrã sem darmos conta, apesar de silenciosa, ajuda-nos a sentir, atira-nos para o labirinto que estamos a ler num livro ou a ver no cinema ou na televisão.

Eça de Queiroz gostava de verde. Talvez sim, talvez não... pouco importa. O que importa é que o verde lhe dava o que faltava naquelas páginas, reforçar o mundano e o monótono, em que o repetitivo diário é sugerido em descrições exageradas com verdes excessivos sugerindo uma sala repleta, mas sem vida.

Também não se pode afirmar que Denis Villeneuve (Blade Runner 2049, 2017) gostasse particularmente de laranja, mas factualmente, e neste caso em imagens e não em forma literária, os laranjas intensos quando o agente K chega a uma Las Vegas distópica, coberta por uma névoa intensa de laranjas, a intensidade, o perigo, o quente quase irrespirável, sente-se. Vive-se.

A história pode-se contar através da cor e Villeneuve orienta o público através da cor. Mas não é o único. Veja-se a cama de pétalas de rosas vermelhas em American Beauty (Sam Mendes, 1999), a sobreposição de intermináveis azuis em The Revenant (A. Iñarritu, 1995) e os negros que acompanham Edward e os tons vibrantes que circundam as personagens "normais" em Eduardo Mãos de Tesoura (Tim Burton, 1990)

É certo que é mais fácil sentirmos o poder da cor nos ecrãs, porque é visível. Vivemo-la.

Já num livro é mais difícil, mas também lá está com toda a sua plenitude, com toda sua carga sensorial. Está lá, não se vê, mas sente-se.

E eu que o diga, que fujo de salas exageradamente verdes. E nunca vi nenhuma. Não vi, mas estive lá, com o Carlos da Maia e o João da Ega sentados, naquele sofá verde.

Designer e diretor do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

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