A Repartição

Aproximam-se as eleições e com elas a necessidade, quiçá a curiosidade de olhar, nem que seja de soslaio, para os candidatos a representantes do conjunto social chamado povo, às suas propostas sempre com uma ou outra promessazinha pelo meio, umas mais outras menos afoitas, sim, porque isto de promessas não é só o povo que as faz a Nossa Senhora de Fátima.

Os candidatos fazem-no a todos menos a Nossa Senhora de Fátima!

Pois bem, olhemos espelho da nossa vida comum e vejamos qual é a imagem nos é reflectida.

As eleições que se avizinham são para aquele "estado dentro do estado" que são as Câmaras e Juntas de Freguesia, um mar de repartições, um oceano de pessoas, que sendo do povo por definição, não o são por distorção.

São esses eleitos que fazem cumprir as leis que outros eleitos aprovaram na Assembleia da República após mais ou menos secretas confabulações que só eles, para eles e entre eles sabem interpretar, deixando os eleitos das Câmaras e seus sucedâneos em palpos de aranha para cumprir algo de que não entendem pevide.

Os eleitos dirigentes destes cargos estatais, para fazerem valer o poder para o qual foram eleitos, utilizam aqueles espaços onde pululam uma série de pessoas que se atarefam diariamente a atazanar o juízo de quem a elas tem de recorrer, porque é assim que o estado é e se organiza, as Repartições.

E dei por mim a recordar uma visita que tive a necessidade de fazer a um local de, sem dúvida, motivo de orgulho (e de alguma segurança e estabilidade, convenhamos) nacional. Desenvolver actividade laboral no "Estado", apesar de se querer que seja cada vez mais "menor" ("menos Estado, melhor Estado", diz-se) tem ainda um grande peso no prestígio pessoal de quem lá labuta.

Então, a páginas tantas, entrei na Repartição.

Era na realidade uma Direcção (Geral, se bem me lembro) de um departamento estatal.

Estava instalada num jovem prédio velho, recuperado há relativamente pouco tempo.

E que lindo que era. Paredes brancas, entremeadas por portas altas e largas de madeira trabalhada, com uma tonalidade "casca de ovo", um soalho de madeira fina - casquinha - brilhando por entre as ligeiras concavidades deixadas por glamorosos saltos femininos, com um discreto cheiro a cera espalhada há pouco tempo.

Cheguei cedo, antes do Director (Geral, se bem me lembro).

Fui simpaticamente dirigido para uma cadeira, confortável, colocada num vão de janela, em frente a umas quantas portas fechadas que se abriam para um amplo corredor, com uma escadaria ao fundo, onde havia uma secretária, partilhada por duas simpáticas senhoras, bem-postas na sua farda azul escura, mostrando ambas um cabelo bem arranjado com algumas tonalidades entre o dourado e o castanho, bem semelhantes na forma e no corte. Eram colegas, pois então.

E esperei. E enquanto esperava, por vezes abria-se uma porta por onde saía uma ou outra senhora que, sentindo que o salto do botim (nem todas tinham botim, havia outras formas de calçado, mais ou menos à moda, mas com efeitos sonoros semelhantes) poderia fazer algum ruído que incomodasse o silêncio da Repartição, punham uma postura de bicos de pés e lá se equilibravam entre portas, com eventual aventura escada acima e respectivo retorno. Iam languidamente, deitando um discreto e simpático sorriso a quem pacientemente esperava e um discreto olhar ao papel que transportavam, transmitindo uma sensação de dever a cumprir, sempre digna num ambiente de Repartição. Espaçadamente aparecia um elemento do sexo masculino (eram em muito menor número) já sem grandes preocupações quanto à possibilidade de interromperem o silêncio da Repartição, numa demonstração de que ali havia quem trabalhasse, deitando um discreto e atento olhar para o dossier que tinham entre mãos, e outro atento e discreto olhar a quem pacientemente esperava, passando em moderada velocidade e passo firme, demonstrando certezas absolutas quanto à direcção que pretendiam tomar.

Passei cerca de meia hora absorvendo silêncios e ruídos, sons de saltos de senhora abafados pelas posturas em bicos de pés e sons pesados de quem não tem saltos mas tem objectivos bem definidos, alguns sorrisos simpáticos de compreensão pela espera, mesclados com outros a demonstrarem grande actividade, quando, a páginas tantas, chegou o Director (Geral, se bem me lembro) interrompendo a minha intensa actividade contemplativa (tentando acompanhar a actividade intensa que me era dada a contemplar) do esforço desenvolvido na sua Repartição.

E, a páginas tantas, cogitei (ou reflecti, não sei):

Mas, o que é que isto tem a ver com eleições?

Nada!

Mas fez-me lembrar daquele ditado "very british":

"Rules are for the obedience of fools and the guidance of the wise men"!

Nós somos os tolos que obedecemos aos espertos que elegemos!

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