A recessão que o BCE está a catalisar

Em 8 de setembro, depois de ter resistido alguns meses, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu aumentar de novo a taxa de juro de referência em 75 pontos, tendo o total dos dois aumentos este ano atingido 125 pontos. Estes aumentos visam "controlar a inflação na Zona Euro." De acordo com o Eurostat, a inflação anual na Zona Euro foi de 9,1 % em agosto de 2022, acima dos 8,9 % de julho de 2022. Ou seja, manteve-se a tendência de subida ou uma taxa alta, contrariamente a expectativas anteriores de responsáveis do BCE.

Em declarações da presidente do BCE feitas na mesma data, C. Lagarde assume que, "se compararmos a situação dos EUA e da Europa, a inflação nos EUA é em grande parte impulsionada pela procura. Na Zona Euro, é em grande parte impulsionada pela oferta, não-exclusivamente, há também uma parte da procura nas causas de inflação, mas é predominantemente a oferta". Ora, precisamente por isso, o aumento da taxa de juro de referência do BCE pode bem não produzir o efeito pretendido de redução rápida de uma inflação cuja principal componente (c. 40%) é a subida dos preços de energia, seguindo-se (em percentagem muito inferior) a dos produtos alimentares, e (com ainda menos relevo) a dos bens industriais não-energéticos e dos serviços.

A inflação elevada está a provocar uma erosão nos gastos dos consumidores e na produção em toda a economia.

Se a presente inflação não é causada por aumento da procura (nem existe uma espiral inflacionista resultante de aumentos salariais), mas antes pela rigidez da procura em relação a bens essenciais, cujo custo aumentou devido a fatores exógenos, faz sentido aumentar significativamente as taxas de juro para debelá-la?

O BCE assumia esperar já um abrandamento substancial da economia da Zona Euro durante o resto deste ano. Desde logo porque a inflação elevada está a provocar uma erosão nos gastos dos consumidores e na produção em toda a economia. Por outro lado, estimava que a forte recuperação da procura de serviços que veio com a reabertura pós-pandemia perca força nos próximos meses. Acresce o enfraquecimento da procura global, no contexto de uma política monetária apertada em várias grandes economias, e o agravamento das condições das trocas comerciais internacionais. E a incerteza continua alta e a confiança das empresas está a cair.

Em suma, apesar de alguma hesitação inicial, o BCE - quiçá para não ser acusado de demasiada prudência ou hesitação - acaba por seguir um receituário clássico de utilização do instrumento disponível aos bancos centrais, bem sabendo que o aumento da taxa de juro de referência do BCE deixa a Europa à beira de uma recessão iminente. De acordo com as mais recentes previsões corrigidas da Fitch Ratings, "a Zona Euro e o Reino Unido deverão entrar em recessão ainda este ano e os EUA deverão sofrer uma ligeira recessão em meados de 2023." O Bundesbank faz previsão similar para a economia alemã.

Talvez conviesse ponderar para a Zona Euro, a recomendação que J. Stiglitz faz à Reserva Federal dos EUA (Fed): "No meio de tanta incerteza, deveria, em vez [de o Fed "criar um desemprego muito maior"], suspender as subidas das taxas de juro até que seja possível uma avaliação mais fiável das condições macroeconómicas".

Consultor financeiro e business developer
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