A perceção e a realidade

As dinâmicas sociais passam muitas vezes muito mais pela perceção do que pela realidade. Quando um quase desconhecido Fernando Gomes ganhou a Câmara do Porto ao PSD, em 1989, a cidade estava envelhecida e escura, sem autoestima e sem peso político. Os dois anteriores autarcas, Paulo Vallada e Fernando Cabral, vinham de uma "linhagem" de "senadores" da cidade, homens eruditos e elitistas, mas poupados e conservadores. Dizia-se, à época, que a câmara tinha "os cofres cheios", mas estava quase tudo por fazer. Gomes chega, vai ao banco e descobre todo um novo mundo. A cidade rasga-se, abre-se, a voz do presidente da Câmara do Porto torna-se oposição às maiorias de Cavaco Silva, o (Futebol Clube do) Porto começa a colecionar campeonatos, depois de ter sido campeão europeu em 1987, e a perceção da cidade transforma-se. O Porto torna-se "moderno", cosmopolita, com abertura à cultura, com erradicação de barracas e de ilhas, com peso político dentro e fora do país. Houve, claro, trabalho feito, mas, mais do que isso, Fernando Gomes devolveu ao Porto peso, importância e orgulho na cidade. Um património imaterial, que passa pela perceção. (Já agora, o mesmo Fernando Gomes, que se mudou do Porto para o governo de Guterres, viria a morrer enquanto ministro da Administração Interna, também por causa da perceção. Uma curiosa sucessão de crimes com figuras publicas e, por isso, amplificada nos media, levaram à sua saída do governo. Na realidade, os crimes e a revolta da PSP foram apenas circunstanciais, mas a perceção da fragilidade do ministro obrigou Guterres a entregar a cabeça de Gomes a Sampaio. A frase, da altura, foi "Roma não paga aos traidores").

A noite deste domingo tem muito que ver com perceção. Costa e o PS ganharam, por larga margem, as eleições. Têm mais votos, mais mandatos, mais presidências de câmara e de freguesias. Mas a perceção que passa para o país é de um PS caído, depois de perder Lisboa, Coimbra e Funchal. Basta, para isto, ver a fácies de Costa quando veio reclamar a vitória. Ombros caídos, semblante carregado, olhar de derrotado, quando era, na verdade, o vencedor. A necessidade de repetir ad nauseum que o PS foi "o grande vencedor das eleições" demonstra bem a necessidade de lembrar a todos o óbvio. Como se fosse preciso fazer o país acreditar num facto que, de tão matemático, não merece discussão.

(Já agora, o mesmo para Catarina Martins, sempre tão afoita a responder a perguntas, mas que fez uma declaração acelerada e despachou com impaciência as perguntas, com vontade de deixar rapidamente o palco e dar a noite por encerrada. E o mesmo para Jerónimo, que sem meias-palavras assumiu que o resultado autárquico ficou "aquém" das expectativas.)

Entretanto, do outro lado, Rui Rio, que perdeu as eleições, era o rosto da confiança e da serenidade. Estranha realidade esta, quando quem ganha está envergonhado e quem perde está confiante. Mais uma vez, o que passa das imagens cruas da noite é a perceção de que o governo, que se empenhou fortemente nesta campanha autárquica, leva um aviso à navegação. E, à direita, a oposição dada como moribunda está, afinal, viva e, agora, com um suplemento de energia para os dois anos que faltam até às legislativas.

No país, ontem, o espanto com o resultado de Lisboa, as quase lágrimas de Medina e o sorriso aberto de Moedas são o espelho de uma eleição onde, para além dos números, conta a perceção.

Ganham-se eleições com perceções? Não. Mas quem quer estar ao lado de quem ganha e parece que perdeu, ou de quem chora?

Jornalista

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