A novela das duas

O horário nobre da TV Globo mantém-se inalterado desde 1976: das 18 às 22 horas, entrelaçados com o Jornal Nacional e os boletins informativos regionais, há a novela das seis, muitas vezes "de época", a das sete, quase sempre cómica, e a das nove, mais séria, dramática, relevante.

Nem a perda de audiência, por causa das alternativas de entretenimento surgidas nas últimas décadas, como TV a cabo ou internet, ou em virtude de episódicos sucessos dos concorrentes, o SBT, a Record ou a Band, alteraram a grelha (ou grade, no Brasil).

Nem mesmo a pandemia.

Mas o covid-19 obrigou a Globo a travar, pela primeira vez na história, a linha de produção de novelas inéditas. E, oferecendo ao público apenas folhetins já exibidos, antigos e enlatados, o tal horário nobre da TV Globo inalterado desde 1976 vem sofrendo derrotas, essas sim, inéditas.

O vício de acompanhar novelas, no entanto, não desaparece de um dia para o outro dos hábitos de um povo. Os vício, como os vírus, estão em constante mutação.

Talvez por isso a 21ª (!) edição do Big Brother Brasil (BBB) teve a maior audiência dos últimos 11 anos, com incríveis 40 milhões de telespectadores de média por cada um dos 100 dias de duração.

Os 100 dias, entretanto, acabaram. E os brasileiros tiveram de alimentar o vício noutro lado. Ora, se não há BBB, sobram outras três letras mágicas: CPI.

Sim, a Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga no Senado as culpas do governo de Jair Bolsonaro nos mais de 450 mil mortos por covid-19 no Brasil, tornou-se, à falta de novelas inéditas e do fim do BBB, o folhetim dos brasileiros.

A Globonews, canal de notícias do Grupo Globo, vem somando incríveis 3,5 milhões de espectadores, com pico mais elevado por volta das 14 horas, após o intervalo para almoço dos inquiridores e inquiridos.

Os inquiridores, senadores, e os inquiridos, quase sempre ex ou atuais membros do governo, são os protagonistas de uma novela às vezes cómica, como a das sete, muitas vezes dramática, como a das nove, e, seguramente, da vida real, como o BBB, porque há até, acredite-se ou não, interatividade com os telespectadores.

"Esta pergunta é de um internauta...", disse o relator da CPI, o veterano senador Renan Calheiros que, por ter sido assessor de Collor de Mello, ministro de Fernando Henrique Cardoso, aliado de Lula e colega de partido de Temer, sabe desempenhar os papéis de herói ou de vilão com rara graciosidade, à moda de Tarcísio Meira, Antônio Fagundes, Tony Ramos.

Eduardo Pazuello, o general paraquedista que, enquanto ministro da saúde, recusou-se a comprar vacina e recomendou remédios ineficazes, e, enquanto inquirido, mentiu quatro vezes, é "o mau da fita", ao lado da sua ex-secretária, Mayra Pinheiro, conhecida pelo novelesco nome de "Capitã Cloroquina" e também mentirosa compulsiva. Eles até negam ser negacionistas!

Há ainda no elenco Omar Aziz, o sensato e professoral presidente da CPI que contemporiza sempre que o protagonista Renan manda prender um depoente mentiroso, Randolfe Rodrigues, o vice-presidente que fala grosso com voz fina, e a chamada "tropa de choque" de Bolsonaro, ou seja, o grupo de senadores aliados do presidente que constitui uma espécie de núcleo cómico da trama.

A pandemia, portanto, pode ter causado incontáveis prejuízos à TV Globo mas, no fim das contas, proporcionou-lhe uma novela inédita com ótimos atores, aos quais nem precisa pagar.

Jornalista

Correspondente em São Paulo

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG