A geopolítica em 2021: há demasiado em jogo para agirmos como meros espectadores

Sento-me a escrever sobre os desafios da geopolítica neste novo ano, depois de o Congresso americano ter confirmado Joe Biden e Kamala Harris como os próximos presidente e vice-presidente e após os eventos nefastos ocorridos no Capitólio. Ambos os acontecimentos deixaram uma marca global no que será 2021 e - atrever-me-ia a dizer - nos próximos anos.

A disparatada cadeia de eventos que se sucederam desde o passado dia 3 de novembro leva-me a tecer as seguintes conclusões:

> Comprovou-se que o processo eleitoral do país considerado símbolo da democracia no mundo tomou um rumo até há pouco impensável.

> Observou-se que o próprio presidente questionou abertamente a legitimidade dos resultados, apesar de ter sido rejeitado por todas as instâncias judiciais.

> Percebeu-se que essa mensagem distorcida imbuiu os eleitores do presidente Trump, dos quais mais de 85% creem que as eleições foram manipuladas.

> Corroborou-se que o próprio presidente pressionou diretamente os diferentes atores do processo, como o secretário de Estado da Geórgia, para que revertessem os resultados.

> E, por fim, testemunhou-se o assalto ao edifício do Congresso, símbolo máximo da democracia representativa, por extremistas violentos, atiçados pela retórica inflamatória do seu líder, com as consequências já verificadas.

A chegada do presidente eleito Biden à Casa Branca alimentava (e alimenta) grandes expectativas de mudança no mundo, que hoje se veem tolhidas pelos últimos acontecimentos. Em todas as geografias e na maioria das capitais do mundo surgem já as perguntas que se seguem.

Como recuperar a confiança e o respeito do resto do mundo no modelo de governo americano depois do sucedido? Como convencer as pessoas de que este foi um incidente isolado, que não se repetirá quando uma sociedade tão dividida como a dos EUA voltar às urnas em 2022 ou 2024? Como retomar a defesa acérrima da democracia, reforçando o seu valor pelo mundo fora? Como evitar que os seguidores de modelos alternativos questionem a autoridade com que os EUA exercem a sua capacidade de persuasão e influência?

Num momento em que a cooperação internacional, o multilateralismo e a essência da ordem que surgiu após a Segunda Guerra Mundial, com o sistema democrático no centro, são questionados, é fundamental que a administração americana recupere o seu papel influente. Os primeiros sinais dados pelo presidente eleito confirmaram a intenção de reocupar o lugar que o país detém historicamente, ainda que com indícios de que espera estar acompanhado por outros países com as mesmas perspetivas, para não ter toda a responsabilidade a pesar nos seus ombros. Porém, a atual tensão social interna pode vir a monopolizar a atenção da nova administração e a interferir na fixação das prioridades da agenda internacional.

O modelo existente que associa democracia liberal e capitalismo necessita de um profundo ajustamento. As reivindicações dos cidadãos insatisfeitos em boa parte do planeta têm vindo a aumentar ao longo dos anos e requerem respostas. A desigualdade e a falta de oportunidades e de mobilidade social alargaram o fosso entre cidadãos e governos e governantes, pondo em causa a capacidade da democracia para resolver os problemas. Os efeitos da disrupção tecnológica e da digitalização intensificam-se - e a pandemia só veio acelerar o processo.

É fundamental encontrar um modelo que ofereça soluções a quem se sente relegado, que reconheça que não podemos sair desta situação sozinhos e que só a sustentabilidade através do equilíbrio social, económico e ambiental poderá evitar males maiores. A crise da covid é outra chamada de atenção para encarar o futuro sob uma nova perspetiva.

Aquilo a que assistimos nas últimas semanas nos EUA é uma chamada de atenção para todos e um reflexo do estado de espírito que reina em muitas partes do mundo. Em finais de 2019 e inícios de 2020, vimos muitas pessoas a sair em massa às ruas em diferentes capitais para protestar contra os seus governos, mobilizadas por diferentes causas, por vezes, irreconciliáveis, mas partilhando o objetivo de pedir mudanças e resultados concretos para os cidadãos. A pandemia e as restrições vieram cristalizar tudo isso, mas de certeza que, uma vez superadas as condicionantes e medidos os efeitos da covid, as ruas voltarão a ser palco de protestos.

A pergunta basilar é se tudo isso, incluindo os mais recentes acontecimentos em Washington, não poderá reforçar valores e princípios, adequando os instrumentos disponíveis às exigências do século XXI, com os EUA a recuperar o seu papel na comunidade internacional ou se, pelo contrário, não poderá debilitar-nos, fazendo surgir questionamentos com consequências difíceis de prognosticar, que fragilizem ainda mais o sistema. E, no pano de fundo, está a confrontação geopolítica entre a China e os EUA, que condicionará a dinâmica de diálogo e negociação. É nesse espaço que a União Europeia pode e deve tomar para si o dever de articular e construir pontes nas instâncias onde as diferenças pareçam irreconciliáveis.

Tudo sem perder de vista que há muitos atores - dos governos aos partidos ou aos movimentos e às redes sociais - interessados em propagar modelos alternativos. Alguns defendem uma visão arreigada de autoritarismo, que prioriza a eficácia dos resultados medidos exclusivamente em termos de desenvolvimento económico em detrimento de todas as considerações relativas aos direitos e liberdades.

A resposta final está por chegar, e a forma que assumir terá um impacte significativo na redefinição do futuro a que aspiramos. Há demasiado em jogo para agirmos como meros espectadores.

Professora decana da IE School of Global and Public Affairs (IE University)

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