A experiência das inexperiências 

Como atestou Milan Kundera (The Art of Novel) a ideia de inexperiência é uma qualidade da condição humana. Nascemos apenas uma vez, nunca podemos começar uma nova vida equipados com a experiência que ganhámos na vida anterior. Deixamos a infância sem saber o que é juventude, casamos sem saber o que é estar casado, e mesmo quando entramos na velhice, não sabemos para o que vamos: os velhos são crianças inocentes quando se aproximam do seu fim. Nesse sentido, o mundo do homem é o planeta da inexperiência.

Se olharmos para os vários quotidianos que atravessamos durante os vários períodos da nossa vida, é nos estágios da inexperiência que realmente inovamos. Começamos a andar na inexperiência de dar os primeiros passos, começamos a falar com a inexperiência dos primeiros sons guturais que libertamos.

São as inexperiências que muitas vezes nos atiram para o desconhecido porque acreditamos que aquele é o caminho. São as inexperiências que ao terem pouca informação para nos dar, nos escondem dos perigos da inovação. E nós avançamos. Sem medo. Mas também sem certezas. Mas é esta incerteza que torna os caminhos muito mais interessantes. Mais trôpegos, mas mais divertidos. Mais sinuosos, mas mais alegres.

É esta inexperiência que o empregador dos nossos filhos, dos nossos colegas, dos nossos alunos, não quer! Quer um estagiário com experiência, ou seja, quer um paradoxo. Quero um miúdo sem receios, mas com noção do medo. Meus caros, pasmem-se... isso não existe!

À medida que perdemos uma coisa, ganhamos outra. Não menos importante, mas certamente diferente. Tal como os ideais de beleza se alteram à medida que vamos crescendo profissionalmente. Tal como a perfeição ganha contornos diferentes, em estágios diferentes em momentos de (in)experiência diferentes.

Arrisco-me a dizer que a experiência é um catalisador do medo, dos receios, do conservadorismo, mas é ao mesmo tempo um travão para o falhanço.

Precisamos deste travão! Claro que sim. Onde quero chegar é que o travão pode em alguns momentos estar menos oleado, mais perro, a funcionar pior. Mas a funcionar!

Porque demasiada inexperiência por demasiado tempo dá-nos a experiência de um mau resultado.

Designer e diretor do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

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