A barraquinha das farturas

A cinco dias da contagem de votos, estas são as eleições mais incertas e imprevisíveis dos últimos 20 anos. Está tudo em aberto: a sondagem do dia, da Aximage para DN/JN/TSF, dá conta de uma reviravolta nas intenções e, pela primeira vez em seis anos, coloca Rio e PSD à frente de Costa e PS - na realidade em empate técnico, já que ambos se encontram dentro da margem de erro e ainda é significativo o número de indecisos. É nestes que se vão concentrar as campanhas nos próximos dias, confirmando, também na política, aquele clássico da estatística segundo o qual o melhor lugar da feira para instalar a barraquinha das farturas é colocá-la ao centro, para melhor atrair os clientes, venham eles da esquerda ou da direita.

A fragmentação partidária (há 21 partidos em disputa) e a bipolarização em dois flancos que conhecemos desde 2016 geraram uma dinâmica paradoxal. PS e PSD, formações tradicionais do bloco central, querem continuar a ser os mais votados, mas governar já não depende apenas deles. Daí que os partidos de cada flanco se comportem em campanha como um rancho de ouriços no inverno: têm de estar suficientemente perto para se aquecerem, mas suficientemente afastados para não se picarem nalgum dos 16 mil espinhos que cada um eriça como camuflagem, defesa, ataque e transporte de comida - ou seja, a fazer pela vidinha.

Sobre o tabuleiro político jogam-se duas lógicas: a dos partidos e a da sociedade. E não é claro que coincidam. Pelo contrário, aliás, como parece demonstrar o infausto apelo do PS para uma maioria absoluta. Por mais que uns e outros menorizem as sondagens de que eles próprios se alimentam; e por mais que uns e outros se recriminem pela crise política gerada pelo chumbo do orçamento e consequente queda do governo, a verdade é que todos parecem ter ignorado o estudo de opinião que, em 4 de novembro, nos dizia que a larga maioria dos portugueses gostaria de ter visto o PS a negociar com o PSD um novo Orçamento do Estado, mostrando que não partilham dos fantasmas sobre o Bloco Central. E tal maioria manifestava-se em todos os segmentos da amostra: seja nas regiões, no género, nos grupos etários ou nas classes sociais.

No próximo domingo voltamos à casa da partida, onde a contagem eleitoral dita quem chega à frente para aspirar constituir um governo. E com que votos pode contar para fazer aprovar um programa e um orçamento que já chegam tarde, num ano só com 11 meses e com o Estado a viver metade deles em duodécimos.

Perante um país tenso e exausto pela pandemia e golpeado por uma desigualdade descontrolada, os desafios que temos pela frente admitem poucos jogos florais, antes reclamam um grande pacto de Estado. Ninguém perdoará se, desta vez, não houver uma gestão transparente e patriótica dos fundos europeus que aí vêm em dose irrepetível. Como se não bastasse a sangria económica e social dos dois últimos anos, com perdas irreparáveis ou feridas que custarão a sarar, há um país que continua à espera de reformas estruturais - do mercado laboral às pensões e ao sistema fiscal, mas também da descentralização, das leis eleitoral e do financiamento dos partidos. Qualquer delas reclama consensos alargados que permitam aprová-las, primeiro, e concretizá-las depois. Estarão Costa e Rio à altura desta empreitada? A maioria dos portugueses entende que sim. O problema já não está em cada um deles, mas nos partidos que os sustentam e nas respetivas clientelas que há dezenas de anos partilham alternadamente a mesa do orçamento, adicionando-se por vagas ao aparelho de Estado. É aí que entra Marcelo, cujo último mandato, iniciado há precisamente um ano, não pode fugir ao seu desígnio inicial de aproximar correntes, cicatrizar feridas, promover convergências e, entre muros e crispações, ser a oportunidade da ponte.

Jornalista

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