100 dias por lá e 60 por cá

Foram os próprios líderes que tornaram os primeiros 100 dias de governação numa marca. Com esse enquadramento e nos EUA, o Presidente Biden tem em curso um conjunto intenso de ações que visam concretizar o que prometeu durante a campanha eleitoral. Apesar da maior parte se destinar ao foro interno, será inegável o seu impacto em termos de política externa.

A lista de reversões às políticas da anterior administração são muitas e vão das alterações climáticas à proteção de minorias e imigrantes. Algumas das mais significativas são, por exemplo, o importantíssimo regresso ao Acordo de Paris; o impedimento da construção do muro na fronteira com o México; no caso da imigração, a alteração às leis que permitem separar os menores dos seus progenitores ou a possibilidade de alistamento de cidadãos LGBTI nas forças armadas. No combate às tensões raciais, Biden deu ainda corpo à preocupação com a utilização da expressão sobre a origem do SARS COV-2 (uma vez que provocou atos de violência nalgumas comunidades) e fomentou o controlo de armas.

Em termos de vacinação nos EUA os dados revelam que são 156.734.555 as doses distribuídas e 124.481.412 as doses administradas (fonte cdc). Percentualmente, 24.5% da população tomou a primeira dose e 13.3% está já completamente vacinada. Continuando no plano de combate à pandemia, Biden deu orientações para os EUA regressarem à OMS, lançou uma grande campanha para a utilização de máscara e um enorme pacote de apoios económicos.

Sem comparação, mas merecendo o respetivo enquadramento, a UE tem hoje 68.675.401 doses de vacinas distribuídas e 55.224.844 administradas (fonte ecdc). Isto significa que 10.4% da população tomou a primeira dose da vacina, enquanto 4.5% é o total da população europeia totalmente vacinada.

Deixando agora as relevantes ações nos primeiros 100 dias de presidência Biden, o enfoque vai obrigatoriamente para outro eixo. O regresso do multilateralismo, por parte dos EUA, gerou um nível de tensão a que já não se assistia desde o final da "Guerra Fria". O início da cimeira Chino-Americana no Alasca e o rol de tópicos alvo de discussão, que não agradou aos convidados, foi o culminar público da alta voltagem que reina entre as partes. Este desajuste representa uma oportunidade para a Europa, sobretudo na (re)afirmação do projeto político europeu.

Portanto, num contexto que não se avizinha pacífico nos próximos tempos, a presidência portuguesa do Conselho UE, assente em três grandes prioridades, pode assumir um protagonismo considerável. Os desígnios são os seguintes:promoção da recuperação económica - alavancada na transição digital e climática; concretização do pilar Europeu dos Direitos Sociais - assegurando uma transição climática justa e inclusiva e o reforço da autonomia estratégica da Europa - abertura ao mundo.

Ora, as prioridades da presidência portuguesa encaixam e dão à Europa a oportunidade de (re)ocupar o seu espaço no palco mundial. Mais ainda se consideradas as linhas de ação através das quais estão a ser desenvolvidas: uma Europa Resiliente, Verde, Digital, Social e Global. O encadeamento é evidente, mas é na quinta linha de ação que se consolidam as demais - Europa Global. O papel da Europa no palco mundial volta a ganhar dimensão alicerçado no garante de estabilidade política e social.

Um Estado Federal é consideravelmente diferente de uma União de Estados. Por essa razão a tendência é para os encarar como dois blocos. Logo, o lema que orienta as suas respetivas presidências ajudará a compreender a ação e o que move cada um deles. Na UE o "Tempo de agir para uma recuperação justa, verde e digital" guia a estratégia, enquanto nos EUA o caminho faz-se "Para formar uma União mais perfeita".

Quem lidera a Europa acumula a complexa tarefa de governar o seu próprio país em tempos de grande exigência e complexidade, ao contrário do trabalho uno da presidência norte-americana. A conclusão inegável é uma:nos últimos 60 dias deram-se passos importantes para a solidificação do projeto europeu, tanto no plano social e económico como no domínio político.

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