"… É espaço, e nada mais"

Ao percorrer as salas da Gulbenkian, onde se encontra a exposição Tudo o Que Eu Quero, fica a ideia da grande qualidade artística de uma plêiade de mulheres que se afirmaram, ao longo de mais de cem anos, como figuras maiores da arte e da cultura. É verdade que encontramos muitos exemplos de mulheres talentosas que ficaram na sombra. Daí a importância da valorização de uma sociedade de iguais. Helena de Freitas e Bruno Marchand definiram um percurso no qual encontramos caminho no sentido da maturidade e do progresso, do reconhecimento exigente da qualidade. O pioneirismo de Aurélia de Sousa, desde o autorretrato de 1900, é lembrado ao longo da exposição como um exemplo anunciador do que vai acontecer. A sombra vai-se iluminando. E quando encontramos o olhar penetrante de Maria Helena Vieira da Silva (1930) ou a extraordinária Partida de Xadrez (1943), percebemos que a mudança está a acontecer, como demonstra a emblemática obra Moi, réflechissant sur la peinture (1936-37). Chegamos, assim, à galáxia dos melhores entre os melhores. Mas há um caminho árduo, de exigência máxima do talento. São artistas portuguesas que ombreiam com os melhores e que até os superam no tempo em que se afirmam. Mas não é fruto do acaso. Há reconhecimento, pela persistência e pela luta. As Mulheres do Meu País (1948-50) de Maria Lamas representa um retrato severo de drama e de combate. E seria bom podermos ter uma reedição desse belo livro.

Recordo o exemplo de Ofélia Marques, já aqui lembrado no grupo da Calçada dos Caetanos, entre o entusiasmo, a jovialidade e a tragédia que a vitimou - diante da pequenez de horizontes e de uma liberdade limitada. Olhem-se os casos de Sarah Affonso, a melhor aluna de Columbano, mulher de Almada Negreiros, com a extraordinária obsessão por "toda a verdade que sinto existir em mim"; de Mily Possoz, que ilustrava o livro de leitura da Segunda Classe nos anos 1950, e marcou o seu tempo pelo traço inconfundível, moderno e sensível; de Maria Keil, que trilhou caminhos originais nas artes decorativas tradicionais, em especial no azulejo; de Rosa Ramalho, a recuperar e a recriar as raízes na cerâmica popular; de Salette Tavares e de Ana Hatherly, que cultivaram a audácia de afirmar que "o jogo somos nós" e que a cultura é inesgotável; de Maria Antónia Siza, na prática da heterodoxia do movimento; ou de Lourdes Castro, a cultivar a exuberância e a alegria de entender que "o meu jardim é a minha tela". A criatividade encontra, assim, em diversos campos, um diálogo em que a ironia, o humor e o sentido crítico se tornam exercícios de pura inteligência e sensibilidade. E, a pouco e pouco, é a própria maturidade do panorama artístico que encontramos, em caminhos múltiplos e inesperados.

Em lugar da invisibilidade, descobrimos a exuberância de referências fundamentais que estão na primeira linha do panorama artístico. Paula Rego evidencia uma humanidade inconformista e confessa ter "roubado" tudo a Menez. Trata-se, porém, não de uma apropriação, mas de um elogio artístico. Graça Morais apresenta a força das origens e uma "caminhada do medo", que o tempo tornou estranhamente atual. Helena Almeida seduz-nos através da sua presença no espaço da representação - "Sente-me. Ouve-me. Vê-me". O espaço está cheio de memórias criadoras - Ana Vieira, Clara Menéres, Ana Vidigal, Patrícia Almeida, Fernanda Fragateiro, Inês Botelho, Patrícia Garrido, Joana Vasconcelos... O catálogo permite-nos encontrar diferentes expressões de momentos ricos de criatividade. E, ao sairmos deste autêntico museu imaginário, compreendemos que é de uma sociedade de iguais que falamos, pela riqueza da sensibilidade artística.

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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