Um milagre na guerra ou as muitas vidas de Isabel Batata Doce

Em 1965, em Angola, um grupo de soldados portugueses encontrou uma menina de 2 anos no meio do mato. Acolheram-na no quartel e trouxeram-na depois para Portugal, onde cresceu sob o olhar do regime e o apoio dos militares. Esta é a história de Isabel Batata-Doce, da sua demanda pelo passado e de como conseguiu construir, no meio da incerteza, uma improvável felicidade

O BATALHÃO 525 chegou a Angola a 27 de julho de 1963. Era constituído essencialmente por rapazes do Minho, que passaram o primeiro ano na zona quente dos Dembos e o segundo em Catete, 60 quilómetros a sudeste de Luanda. Aqui a presença portuguesa era cimento - somava séculos de colonização. «À primeira vista parecia muito mais calmo», conta agora Antonino Araújo, 75 anos, que tantas vezes patrulhou o terreno. «Mas na verdade era uma zona pantanosa e de vegetação densa, onde os guerrilheiros atacavam quando menos se esperava. Era muito perigoso.» A guerra, que começara em fevereiro de 1961 em Luanda, e nos meses seguintes se tinha intensificado no Norte do país, espalhava-se agora à região centro, terras quimbundas. Foi precisamente aí que as quatro companhias do 525 estacionaram - aquarteladas ao longo da estrada para Salazar, atual N"dalatando, capital do Cuanza Norte.

A Companhia 522, com mais de uma centena de homens, estava em Barraca, a cinquenta quilómetros do comando de Catete. «Numa manhã pediram-me para fazer o patrulhamento da zona inimiga, era alferes e liderava um pelotão com 12 soldados», lembra Antonino. Avançaram sem medo ate a picada que abria caminho para a Fazenda Alegria, uma plantação de algodão no meio do lamaçal. Depois, atravessaram o rio Zenza, infestado de jacarés. A partir dai, o trilho cumpria-se com perspetiva de fogo. Ouvissem um restolhar nas árvores e os homens carregavam-lhe chumbo.

«Estávamos em terreno perigoso, tivemos de rastejar uma parte do caminho e fazer outra de cócoras», e Antonino diz que isso era o pão nosso de cada dia em terrenos da guerrilha. «Não podíamos usar as catanas para abrir passagem, isso fazia demasiado barulho.» Então avançavam lentos, a conquistar arranhões. Duas horas depois, desembocaram numa clareira. Antonino viu logo uma mulher negra, de seios fartos, que carregava uma criança nas costas e outra nas mãos. Assim que a mulher viu os brancos, desatou a correr para o mato mais denso. O alferes ainda lhe gritou «não fujas que eu não te faço mal», mas ela sabia estar em zona de tiro aberto. Fugiu. E esta história começa aqui. Ao subir uma colina, o lenço soltou-se e o bebé que a mulher trazia no dorso caiu. A mulher prosseguiu a fuga, com a outra pela mão. Mas deixou um problema para os soldados. Um problema que, deitado no capim, chorava.

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