«Se não houvesse crise de valores não haveria crise económica»

Grande entrevista com Rui Veloso, quando se prepara para comemorar 35 anos de carreira em concerto.

No centro, por mais viagens que se tentem, estará sempre a música. Mas uma entrevista com Rui Veloso, mais a mais em momento especial, quando se prepara para comemorar 35 anos de carreira em concerto, transborda sempre, e em várias direções. Além do seu mundo, o cantor olha à volta, para Portugal e para fora. Mas também para as compensações e os sobressaltos de um percurso que, como se prova pelo que vem a seguir, ainda tem muitas histórias para contar. Aqui ficam algumas.

Antes que o leitor mergulhe no essencial desta entrevista, as respostas de Rui Veloso, do núcleo das mais inflamadas a algumas mais defensivas, há esclarecimentos a prestar. O tratamento, por «tu», por exemplo: deriva de um conhecimento de 35 anos (dos 58 registados pelo seu Cartão de Cidadão) e de alguns contactos que ultrapassaram o estrito domínio profissional. Não será uma relação de amizade, mais pela escassez dos contactos do que por alguma incompatibilidade escondida. Esta circunstância permite que a conversa tenha decorrido em casa do cantor - sempre que se escreve «aqui», a localização correspondente é Vale de Lobo, nos arredores de Lisboa, num «complexo» que junta, através de um quintal, o lar ao estúdio que concretizou um dos sonhos do músico.

Inicialmente, o desafio lançado visava apurar, em discurso direto, os ganhos e as perdas de 35 anos de carreira, agora festejados, também com um concerto comemorativo (a 6 de novembro, no Meo Arena). Como se perceberá, esse roteiro foi subvertido pelo correr do diálogo, mas sem desvantagem para quem lê.

Ainda antes da entrevista, duas notícias: nesse espetáculo, que vai abrir com Praia das Lágrimas e um coral de muitas vozes, Rui Veloso vai estrear uma canção. Chama-se Do Meu País e também serve para homenagear o autor da letra, o poeta moçambicano Eduardo Costly-White, que já não pôde ouvir o resultado desta parceria: morreu em agosto de 2014. A outra novidade, feliz, fica a aguardar concretização: Rui Veloso estará a caminho de se transformar em anfitrião de um programa televisivo, naturalmente virado para a música. Por lá passarão os seus convidados, para tocar ao vivo, «com condições». Quando? A resposta está nas mãos da RTP.

O que ganhaste em 35 anos? Cabelos brancos nem por isso...

_Tenho poucos... O ganho mais importante, sem dúvida, são os meus filhos [Joana, Manuel e Maria]. Já a notoriedade tira mais do que dá... No meu caso, já nem faz muito sentido falar no fim da privacidade, porque há 35 anos que basta que eu saia de casa para sentir que não a tenho. Um exemplo: vou ao teatro com uma amiga e, como de costume, estão lá fotógrafos. É certo que ela não escapa e que, sendo apenas uma amiga, as coisas se vão tornar desagradáveis para ela, para a família dela, para os filhos dela... Ora a minha reação tende a ser só uma: ficar mais em casa, aparecer menos. Ou seja, a notoriedade é - para mim - um dado efetivo e difícil. Até porque me condiciona relações, inclusivamente com pessoas próximas. Eu sou o Rui, desde miúdo, mas também sou a figura pública, ideia que muitos ligam a uma certa aura, a um certo mistério, ao acesso a um patamar mais reservado, dito superior. Ora este tipo de aproximação, esta exposição contínua, foi sempre muito difícil para mim... Talvez por isso me sinta tão bem em Moçambique, onde ando à vontade, onde ninguém para a olhar para mim e para o que eu faço. Atenção: eu não me estou queixar de, por cá, ser maltratado...

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