De cromo informático a escritor de BD

Pianista, professor de música, orquestrador. Também realiza curtas-metragens - uma delas foi premiada no Fantasporto e em festivais internacionais. E, como tem ideias e talento com fartura, ainda arranja tempo para escrever banda desenhada: começou com As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, prefaciados por realizadores lendários e editados em vários países, e nesta semana lança o álbum Os Vampiros, sobre a guerra colonial, o medo, a paranóia. Filipe Melo, nascido em Lisboa em 1977, detido por pirataria informática aos 15 anos, faz muitas coisas. E todas bem feitas.

Depois das aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, o próximo livro tem outros cenários e protagonistas. Passa-se na Guiné, durante a guerra colonial, e o título é inspirado numa canção de José Afonso. Porquê Os Vampiros?
Quando comecei este projeto, queria tentar a sorte na escrita de uma narrativa clássica de terror. O título tem três fortes conotações: é uma famosa criatura mitológica, é o nome de um grupo de comandos verdadeiro que combateu na Guiné e é o titulo da icónica canção do Zeca Afonso, censurada pelo regime. A ideia para a história deste livro ganhou forma a partir dessa ligação.

Porquê a guerra colonial?
A minha geração só tem uma noção vaga sobre o que se passou na guerra, e existem mais registos documentais do que ficção sobre o tema. Estava interessado em perceber o pensamento da época, e a Guiné pareceu-me o cenário ideal para o tipo de história que queria contar, uma história sobre a paranóia. O interesse foi crescendo à medida que ia investigando e falando com testemunhas dessa guerra. Fiquei obcecado e percebi que as histórias reais suplantariam a ficção.

Guiné era o pior dos destinos. Um livro sobre a guerra é sempre um livro sobre o medo?
A primeira versão deste livro era muito mais linear e mais preocupada em cumprir as regras de um género - o terror. À medida que fui estudando o tema percebi que não era isso que queria fazer e que seria uma tremenda estupidez tratar o tema de forma leviana. A guerra na Guiné foi terrível, especialmente nos últimos anos. Nunca experimentei medo semelhante e espero nunca experimentar.

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