Zuma sobrevive a terceira moção de censura em quase dois anos

Presidente e líder do ANC é suspeito de deixar família indiana, os Guptas, influenciar o Estado e até escolher ministros

À terceira não foi de vez. Jacob Zuma, presidente da África do Sul, sobreviveu ontem a mais uma moção de censura para o tirar do poder (a terceira desde março de 2015). Chefe do Estado sul-africano desde maio de 2009 e líder do Congresso Nacional Africano (ANC), Zuma, de 74 anos, é acusado pela oposição de estar envolvido em vários escândalos de corrupção, que o envolvem a si e também aos seus colaboradores.

A moção de censura, apresentada pela Aliança Democrática (DA), principal força da oposição no Parlamento sul-africano, foi rejeitada por 214 votos. Votaram 126 deputados a favor, numa sessão que ficou marcada por trocas de insultos entre os parlamentares e onde não faltaram cânticos, dança, chamadas à ordem e até referências ao xá Reza Pahlavi e a Buda. Houve ainda uma abstenção e 58 eleitos que não votaram.

A oposição chegou a defender que o voto fosse secreto, para permitir assim que deputados do ANC que discordam de Zuma pudessem votar sem receios. Porém, o vice-presidente do Parlamento sul--africano, Lechesa Tsenoli, rejeitou uma tal possibilidade. Decisão que voltou a gerar uma nova onda de tumultos na câmara. Alguns deputados exigiam falar mesmo quando não era suposto, obrigando Tsenoli a chamá-los à atenção.

No discurso que fez em defesa da moção de censura, o líder da DA, Mmusi Maimane, instou os deputados sul-africanos a "erguerem-se contra a captura do Estado". A ministra da Água e do Saneamento, Nomvula Mokonyane, considerou, por seu lado, que a moção "estava mal concebida e condenada ao fracasso". A governante acusou o líder da oposição de "ser um rosto negro que tenta proteger os interesses de uma minoria branca". John Steenhuisen, líder parlamentar da Aliança Democrática, queixou-se de afirmação racista. Mokonyane referia-se ao facto de Maimane ser, desde 2015, o primeiro líder negro daquele partido tradicionalmente ligado aos brancos na África do Sul.

No início de novembro, o ex--presidente Thabo Mbeki, a quem Zuma tirou do poder e da liderança do partido depois de ambos protagonizarem uma guerra fratricida, escreveu uma carta ao atual chefe do Estado a pedir que se demita. Mbeki usa como argumento a carta dos 101 veteranos do ANC, entre os quais históricos como Ahmed Kathrada e Andrew Mlangeni, a pedir que Zuma se retire. "Vi o nome dos 101 veteranos subscritores (...) eles são líderes do nosso movimento e da revolução e têm de ser respeitados e tratados como tal por outros que ocupam cargos públicos ou nas estruturas do ANC." Este foi o partido que lutou contra o regime racista branco do apartheid e que deu à África do Sul o seu primeiro presidente negro eleito: Nelson Mandela (que morreu em dezembro de 2013, com 95 anos).

Jacob Zuma, que ontem não esteve presente no Parlamento, prefere, no entanto, ignorar todos os que pedem a sua demissão. E, como o partido tem a maioria parlamentar, tem sido, por isso, impossível destituí-lo. A moção de censura que ontem foi a votos surgiu depois de a Provedoria da República da África do Sul ter publicado no dia 2 deste mês um relatório sobre acusações de corrupção contra o presidente. O documento apela a uma investigação sobre possíveis crimes de corrupção ao mais alto nível no Estado sul-africano.

No relatório, intitulado "A Tomada de Controlo do Estado", a provedoria chama a atenção para "problemas identificados e em que parece terem sido cometidos crimes". Zuma tentou impedir a divulgação deste relatório, mas os seus advogados anunciaram depois que desistiam do recurso interposto contra a publicação do documento. Neste consta a investigação de acusações de que Zuma permitiu a uma próspera família indiana de empresários, os Guptas, uma influência indevida sobre o governo, incluindo a possibilidade de escolherem ministros. Entre as conclusões do relatório são citadas provas de que David van Rooyen visitou o bairro de Joanesburgo onde residem os Guptas um dia antes de ser nomeado ministro das Finanças. Van Rooyen foi afastado do cargo apenas quatro dias depois, devido a uma desvalorização da moeda e uma queda nos mercados.

Quando ontem foi negado o voto secreto no Parlamento, um deputado do partido Combatentes pela Liberdade Económica (cujos membros da bancada parlamentar se vestem habitualmente de fato--macaco de cor vermelha) falou no medo de possíveis represálias contra os deputados do ANC que ousassem votar contra Zuma. "Os Guptas depois iriam telefonar", declarou Floyd Shivambu, manifestando-se confiante de que se o voto for secreto o atual presidente será quase de certeza destituído.

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