Xi Jinping em Davos num momento de tensão com os EUA

É a primeira vez que um presidente chinês irá intervir no encontro na Suíça.

Donald Trump toma posse na próxima sexta-feira, último dia do Fórum Económico Mundial, que hoje se inicia em Davos sob o tema "Liderança Responsável e Reativa" e onde, pela primeira vez, um presidente chinês irá proferir uma intervenção de fundo. Uma presença que coincide com um momento de tensão entre Washington e Pequim devido aos comentários de Trump acerca da posição americana sobre a política de "uma só China".

Os Estados Unidos reconheceram a República Popular da China, em 1979, como única representante da China, mantendo, no entanto, relações informais com Taiwan, que Pequim considera uma província renegada, e onde se refugiou em 1948 o regime da República da China, liderado por Chiang Kai-shek. O novo presidente dos EUA, por mais de uma vez, afirmou que a política de "uma só China" pode ser revista, fazendo depender a sua continuação "de negociações" com Pequim "sobre várias coisas, entre elas o comércio internacional". A 2 de dezembro de 2016, Trump falou ao telefone com a presidente Tsai Ing-wen, a primeira vez que um presidente eleito ou em funções torna público um contacto mantido com um líder de Taiwan nas últimas quatro décadas.

Sinal da importância dada ao acontecimento, Xi Jinping leva à Suíça a maior delegação desde que o país começou a estar presente, em 1979. O presidente chinês fará hoje a intervenção inaugural da edição deste ano. Ontem, num encontro com empresários helvéticos deixou críticas indiretas àquilo que é pressentido como a orientação da futura Administração Trump. Xi afirmou que "o protecionismo, o populismo e a antiglobalização estão a aumentar" no mundo, "o que não é bom para uma mais forte cooperação económica". O dirigente chinês garantiu estar em curso a "restruturação" da economia do país, que vai entrar numa nova etapa atrativa para as empresas suíças.

Portugal estará representado pelo primeiro-ministro António Costa, contando o Fórum também com a presença do novo secretário-geral da ONU, António Guterres, que participará em vários painéis.

A possível escalada de tensões entre EUA e a China é apenas um dos elementos de incerteza numa realidade política e económica internacional em momento de viragem. Num texto de apresentação aos temas para o Fórum de 2017, o fundador dos encontros, Klaus Schwab, notava que "mudanças geopolíticas tornaram o mundo de hoje verdadeiramente multipolar" e que, noutro plano, as sociedades têm pela frente "o desafio de restaurar o crescimento económico global. Um permanentemente diminuto crescimento económico traduz-se num permanente nível de vida mais baixo".O que tem consequências várias, entre as quais o crescimento do populismo, sublinha Schwab.

Desde há quatro anos, o Fórum tem identificado as desigualdades económicas como fator central da instabilidade social. E a coincidir com a reunião de Davos, a ONG Oxfam divulgou um estudo a demonstrar que é cada vez maior essa desigualdade. Assim, sete em cada dez pessoas vive num país onde a desigualdade se agravou nas últimas três décadas e - dado revelador - oito multimilionários detêm, hoje, fortunas combinadas no valor de 426 mil milhões de dólares (cerca de 402 mil milhões de euros), O equivalente à soma do rendimento das 3,6 mil milhões de pessoas mais pobres no mundo numa população total de 7,5 mil milhões.

Perante esta realidade, Schwab advoga a "reforma do capitalismo de mercado" e a criação de "estruturas permanentes para equilibrar os incentivos económicos e o bem-estar social".

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