Xi aconselha Kim a fazer a paz na península coreana e com os EUA

Visita de dirigente do regime de Pyongyang só foi confirmada ontem. Kim Jong-un pronunciou-se pela desnuclearização e confirmou interesse em cimeira com Trump.

Não podia ter sido de outra forma. A primeira visita de Kim Jong-un ao estrangeiro enquanto líder do regime de Pyongyang tinha de ser a Pequim, e ele tinha de viajar de comboio. No primeiro caso, porque a China é o principal aliado da Coreia do Norte; no segundo, porque o seu pai, Kim Jong-il, e o avô, Kim Il-sung, viajavam sempre de comboio. No imaginário da Coreia do Norte os comboios privados (e blindados) são um atributo da liderança e Kim Jong-un cultiva comportamentos paralelos aos do pai e do avô.

A deslocação de Kim Jong-un a Pequim, que decorreu entre o passado domingo e esta quarta-feira e só ontem foi confirmada na capital chinesa e em Pyongyang, terá aberto um novo ciclo nas relações bilaterais e também - e principalmente - criado expectativas para a redução de tensões na península coreana e em torno da cimeira entre o líder norte-coreano e o presidente Donald Trump. A visita de Kim revela a importância da diplomacia chinesa na questão do nuclear da Coreia do Norte e como Pequim pode influenciar as decisões de Pyongyang, na linha daquilo que Trump tem pedido a Pequim. O facto de a viagem suceder antes do encontro com Trump e de um encontro, já em abril, com o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, indica isso mesmo. E também que Pyongyang parece apostar em redefinir a sua posição no âmbito da comunidade internacional.

O presidente americano comentou de imediato o encontro na capital chinesa, escrevendo no Twitter que fora informado por Xi que o encontro em Pequim "correu muito bem" e que Kim confirmou o interesse para a cimeira com os EUA. Mas não deixou de sublinhar que as "sanções e a pressão devem manter-se no máximo", na linha daquilo que Washington e também Pequim consideram fundamental da parte da Coreia do Norte: o compromisso irregressível com a desnuclearização da península. E as sanções são um meio de demonstrar que não há alternativa para Pyongyang.

Citado pela agência oficial KCNA, Kim Jong-un declarou num tom a não deixar qualquer dúvida sobre a importância da relação com Pequim que "a minha primeira visita ao estrangeiro tinha de ser à capital chinesa" - "era o meu solene dever". A viagem, apresentada como "não oficial", mostrou um Kim, de 34 anos, por vezes, quase referencial perante o presidente Xi Jinping, de 64 anos, a tomar notas de cabeça baixa e a ouvir atentamente o interlocutor. As suas intervenções resumiram-se à leitura de textos que tinha diante de si. As imagens foram mostradas longamente pela televisão chinesa, nelas vendo-se um Xi Jinping descontraído, sorridente e acenando com a cabeça enquanto ouve Kim. Também significativo é o facto de, enquanto o presidente chinês se apresentava de fato e gravata, o líder de Pyongyang envergava o chamado "fato à Mao". Igualmente significativo, noutro plano, o facto de Kim, numa visita informal, ter direito a banquetes com os mais altos dirigentes chineses e, inclusive, a passar revista a tropas, ainda que em local fechado, o edifício da Assembleia Popular.

O dirigente norte-coreano, segundo a Nova China, pronunciou-se pela "desnuclearização" da península e confirmou a cimeira com Trump, prevista para final de maio. A Coreia do Norte "está pronta a dialogar com os EUA e a participar numa cimeira bilateral", terá dito Kim. Estas declarações, na linha do que afirmou em janeiro, contrastam claramente com o passado recente, em que Pyongyang intensificou a linguagem belicista contra os EUA, os testes nucleares e os disparos de mísseis balísticos.